1. Tem uma porção de perguntas que me faço e faço a quem me aprece pela frente. Mas o diabo é que ninguém me responde. Por isso permaneço na ignorância. Veja só: já perguntei pra professor e aluno, pra padre e sacristão. Já perguntei a quem não fala e pra quem fala muito – não aos fofoqueiros, pois desses é bom manter distância!
2. E essa já uma das perguntas que faço e me faço, sem saber a resposta: Porque o fofoqueiro fofoqueia? Essa é só uma das perguntas, que talvez até tenha resposta fácil! O que me interessa são perguntas mais difíceis – que possivelmente tenham resposta mais fáceis.
3. Alguém poderia me dizer porque o limão é azedo? Ou, do lado contrário, porque a cana é doce? Mais ainda, porque a mesma terra que produz a cana doce e o limão azedo produz cada um com o seu sabor? E se plantarmos ambos numa mesma cova, o que faz com que não se misturem e permaneçam um azedo e outro doce? Afinal de contas, quem adoçou a cana e azedou o limão? E se o limão fosse doce, seria limão?
4. Isso não é tudo. Gostaria de saber quem pôs sal na água do mar? E por que a água do rio não é salgada? Se a água do rio, que é chamada de água doce, vai pro mar, por que não adoça a água do mar? Tem até um Mar Morto: quem o matou? Ou já nasceu morto? Morreu de quê? Já prenderam o assassino? Ou lá onde mataram o Mar Morto também impera a (in)justiça brasileira?
5. Tem mais. Quem ensinou o passarinho a voar? Por que ele não cai quando está voando? Será que ele não tem medo das alturas? Se é questão de pena, que pena, por que a galinha não voa, também?
6. E já que estamos no ar, quem foi que pintou o céu de azul? Será que usou rolo, pincel ou spray? Quem pintou o céu também pendurou nele as nuvens? Onde arrumaram tanto algodão para encher as nuvens? E quem foi que pendurou as estrelas? Será que deu muito trabalho? Por que elas só acendem à noite? Quem paga a conta da luz das estrelas? E quando amanhece, pra onde vaia luzinha delas?
7. Podemos continuar?! Tem outras perguntas que não querem calar! Onde fica o interruptor que acende e apaga o dia? Quando o dia fica acesso, pra onde vai o escuro? E dia se esconde aonde, quando vem a noite? E já que dizem que a noite tem boca, qual será o tamanho da escova que ela usa para escovar os dentes? Ou será que a boca da noite não tem dentes? Se não tem, quem qual foi o dentista que os extraiu?
8. Pra não deixar de falar da natureza, será que alguém sabe quem é que assopra o vento? Como é que ele faz para refrescar um dia de calor?
9. Espera aí. Ainda não acabou. Quem sabe me dizer quem esfriou o gelo? Quem esquentou o sol? Quem acendeu o fogo? Quem molhou a água?
10. Porque será que ainda não inventaram um gelo quente? Porque será que ainda não inventaram água em pó? – afinal já fazem quase tudo “em pó”... só falta a água. O problema é saber com o que se vai dissolver o pó da água!?
11. Tem até umas questões meio contraditórias: se o fogo é tão quente, porque se apaga com a água que é fria? Como pode, a mesma água que é tão fresca e que apaga o fogo, ferver ao fogo? Se a água apaga o fogo, como é que o fogo ferve a água que o apaga?
12. Não se desespere, que ainda tem mais: como pode a melancia, que é uma fruta tão grande, ser produzida por um cipozinho tão fininho, fracote, fajuto? Como pode ser tão preguiçosa uma árvore como o pé de manga, tão grande, e dar umas frutinhas tão pequenas? Mesmo a jaqueira não produz nada proporcional ao seu tamanho! E já que falamos nisso quem foi que melecou a jaca?
13. Mudando de assunto. Você sabe explicar por que a pena é tão leve, e mesmo assim, cai? E por falar em peso, qual é mais pesado, um quilo de algodão ou um de ferro?
14. Ainda tem mais: se o dia tem 24 horas por que só 12 é claro? Por que a noite faz parte do dia? Será que a noite foi feita para economizar a energia do dia?
15. Responda rápido: por que a roda é redonda? Por que o cubo não é quadrado? Por que a cobra anda, se não tem pernas?
16. Isso não é tudo. Tem mais pergunta que me deixa encafifado. Mas não vou perguntar tudo agora, se não você vai pensar que eu não sei nada! Mas eu sei, sim. Sei, por exemplo que o Sócrates, não o corintiano, costumava afirmar: “sei que nada sei”. Se ele que era sábio só sabia não saber, porque é que eu, que sou curioso não posso saber só perguntar?
17. E tem mais, dizem por aí que é mais esperto quem faz pergunta do que quem responde. Creio ser verdade, pois quando alguém responde uma pergunta sempre deixa a oportunidade de alguém lhe perguntar, como chegou a essa resposta? Por que você deu essa e não outra resposta? Há outra resposta?
18. Bom, já que “perguntar não ofende” vamos terminar por aqui. Quando é que a gente pode continuar?
Neri de Paula Carneiro
18 de ago. de 2007
Greve? Greve!: Grave!
Greve é coisa grave, grave isto! E tem, isso, um significado grave: Significa que os dois lados da contraditória sociedade capitalista resolveram explicitar essa contradição em um conflito, radical, medindo forças.
Greve é a faca no pescoço. Os dois lados estão dispostos a morrer em nome ou em defesa daquilo que defendem: melhores condições de trabalho e melhorias salariais, reivindicam os trabalhadores; e manutenção dos padrões atuais, exigem os empregadores. E dizem isso principalmente porque a situação lhes é cômoda e o incomodo é gerado pela greve!
Qualquer categoria profissional tem direito constitucional de entrar em greve. E todos os empregadores dirão que isso é coisa de quem não quer trabalhar, é coisa de agitador... há tempos atrás se dizia, como forma de tentar ofender o trabalhador, que greve é coisa de comunista, ou de petista; mas com o apagão político que ocorre no país...
Para ser exato, no Brasil, o movimento grevista começou com a chegada dos anarquistas, no início do século XX. E, o mais importante, nenhum grande movimento histórico, nenhuma das grandes realizações da humanidade ocorreram sem que houvesse situação de atrito. Qualquer pessoa com um mínimo de inteligência pode olhar para a história e perceber que os movimentos reivindicatórios são executados pelos que pensam criticamente.
Com isso diante dos olhos, olhemos para os profissionais da educação. E aqui surgem alguns problemas, que não existem em outras categorias. Noutros países o sistema educacional é altamente valorizado. Paisinhos merrecas por aí, investem em seus sistemas escolares, com sucesso. Aqui o sistema educacional é visto como gerador de despesas. O descaso é tanto que organismos internacionais já falam em apagão na educação.
Em clima tórrido como o nosso, os alunos desmotivados por vários fatores, são obrigados a permanecer por quatro horas em uma sala, com outros trinta e poucos colegas, debaixo de um ventilador que não funciona. Duvida? Visite uma escola de periferia! Várias estão com aparelhos de ar condicionado, novos, estragando nos depósitos; e os alunos derretendo em salas superaquecidas.
Entre numa sala de aula e veja o desconforto das carteiras escolares e conte quantas estão quebradas; veja quantas lâmpadas queimadas... Não esqueça que a escola é pública, portanto não tem renda própria para comprar lâmpadas e instalar outros equipamentos. A verba que vem dos programas oficiais, tem destino específico, não pode ser direcionado para as reais necessidades das escolas, sob pena de o diretor ser preso por desvio de verba.
Nossas escolas, por força de lei, são obrigadas a acolher portadores de necessidades especiais (cegueira, paraplegia... etc), mas as instalações são inadequadas: os degraus dos pátios impedem a circulação e as valetas produzidas por enxurradas, são armadilhas para a segurança física das crianças.
Isso sem falar nos delinqüentes que são colocados no convívio com outras crianças, sem acompanhamento de nenhum agente da lei. Eles acabam ensinando a bandidagem aos demais alunos visto que ninguém das escolas tem autoridade sobre eles.
Nesses dois casos os professores são obrigados a se calar, pois a força absurda da lei não pergunta pela qualificação dos profissionais da educação, para trabalhar nessas situações. O argumento é que “deveriam estar preparados”, mas o fato é que não estão. Quem consegue se preparar por conta própria com salários defasados (cursos e treinamentos custam caro!). Por parte do poder público, mantenedor do sistema escolar, não foi oportunizada formação específica, depois de vários anos de existência dessas leis. Além disso, professor não é assistente social, nem carcereiro!!!
Devem ser usadas as novas tecnologias? Há escolas, em Rolim de Moura (e o mesmo ocorre em outras localidades), com mais de 1000 alunos e que possuem dois ou três aparelhos de TV e Vídeo/DVD. Computador? Tem alguns, mas muitas vezes inacessíveis à maioria dos alunos. Biblioteca? Num canto, meio escondida, como que com vergonha de seus poucos livros rotos. Salas de leitura? Existem, se montada pela iniciativa heróica de alguns professores, sacrificando suas horas de descanso. Reformas, nas escolas? Quando ocorrem demoram vários meses, atrapalhando as aulas ou colocando em risco a segurança dos alunos.
Com um quadro desse, com as devidas exceções e os respectivos agravantes, creio que falar em greve não é coisa fora do comum. E se os país se interessassem pelos filhos, eles é que fariam greve! Lembrando que os que entraram em greve só reivindicam duas coisas: melhores condições de trabalho e de salário.
Podemos, para concluir, propor uma troca: colocamos os membros do executivo, do legislativo, por um bimestre, sem seus assessores, para trabalhar em uma escola. Fazer tudo que os professores fazem – sem ajuda de seus assessores. (Podem manter seus salários de 15 mil). Terão que apresentar a mesma produtividade dos professores, sem ajuda dos assessores.
Depois de um bimestre, nas mesmas condições dos professores, sem seus assessores, veremos o resultado!
Greve é grave! É um teatro com artistas, em palcos diferentes, tentando convencer a platéia, de que o seu show é o melhor. Mas, quando falamos em educação, o objetivo não é o show, mas a platéia depois do espetáculo.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, teólogo, historiador
Greve é a faca no pescoço. Os dois lados estão dispostos a morrer em nome ou em defesa daquilo que defendem: melhores condições de trabalho e melhorias salariais, reivindicam os trabalhadores; e manutenção dos padrões atuais, exigem os empregadores. E dizem isso principalmente porque a situação lhes é cômoda e o incomodo é gerado pela greve!
Qualquer categoria profissional tem direito constitucional de entrar em greve. E todos os empregadores dirão que isso é coisa de quem não quer trabalhar, é coisa de agitador... há tempos atrás se dizia, como forma de tentar ofender o trabalhador, que greve é coisa de comunista, ou de petista; mas com o apagão político que ocorre no país...
Para ser exato, no Brasil, o movimento grevista começou com a chegada dos anarquistas, no início do século XX. E, o mais importante, nenhum grande movimento histórico, nenhuma das grandes realizações da humanidade ocorreram sem que houvesse situação de atrito. Qualquer pessoa com um mínimo de inteligência pode olhar para a história e perceber que os movimentos reivindicatórios são executados pelos que pensam criticamente.
Com isso diante dos olhos, olhemos para os profissionais da educação. E aqui surgem alguns problemas, que não existem em outras categorias. Noutros países o sistema educacional é altamente valorizado. Paisinhos merrecas por aí, investem em seus sistemas escolares, com sucesso. Aqui o sistema educacional é visto como gerador de despesas. O descaso é tanto que organismos internacionais já falam em apagão na educação.
Em clima tórrido como o nosso, os alunos desmotivados por vários fatores, são obrigados a permanecer por quatro horas em uma sala, com outros trinta e poucos colegas, debaixo de um ventilador que não funciona. Duvida? Visite uma escola de periferia! Várias estão com aparelhos de ar condicionado, novos, estragando nos depósitos; e os alunos derretendo em salas superaquecidas.
Entre numa sala de aula e veja o desconforto das carteiras escolares e conte quantas estão quebradas; veja quantas lâmpadas queimadas... Não esqueça que a escola é pública, portanto não tem renda própria para comprar lâmpadas e instalar outros equipamentos. A verba que vem dos programas oficiais, tem destino específico, não pode ser direcionado para as reais necessidades das escolas, sob pena de o diretor ser preso por desvio de verba.
Nossas escolas, por força de lei, são obrigadas a acolher portadores de necessidades especiais (cegueira, paraplegia... etc), mas as instalações são inadequadas: os degraus dos pátios impedem a circulação e as valetas produzidas por enxurradas, são armadilhas para a segurança física das crianças.
Isso sem falar nos delinqüentes que são colocados no convívio com outras crianças, sem acompanhamento de nenhum agente da lei. Eles acabam ensinando a bandidagem aos demais alunos visto que ninguém das escolas tem autoridade sobre eles.
Nesses dois casos os professores são obrigados a se calar, pois a força absurda da lei não pergunta pela qualificação dos profissionais da educação, para trabalhar nessas situações. O argumento é que “deveriam estar preparados”, mas o fato é que não estão. Quem consegue se preparar por conta própria com salários defasados (cursos e treinamentos custam caro!). Por parte do poder público, mantenedor do sistema escolar, não foi oportunizada formação específica, depois de vários anos de existência dessas leis. Além disso, professor não é assistente social, nem carcereiro!!!
Devem ser usadas as novas tecnologias? Há escolas, em Rolim de Moura (e o mesmo ocorre em outras localidades), com mais de 1000 alunos e que possuem dois ou três aparelhos de TV e Vídeo/DVD. Computador? Tem alguns, mas muitas vezes inacessíveis à maioria dos alunos. Biblioteca? Num canto, meio escondida, como que com vergonha de seus poucos livros rotos. Salas de leitura? Existem, se montada pela iniciativa heróica de alguns professores, sacrificando suas horas de descanso. Reformas, nas escolas? Quando ocorrem demoram vários meses, atrapalhando as aulas ou colocando em risco a segurança dos alunos.
Com um quadro desse, com as devidas exceções e os respectivos agravantes, creio que falar em greve não é coisa fora do comum. E se os país se interessassem pelos filhos, eles é que fariam greve! Lembrando que os que entraram em greve só reivindicam duas coisas: melhores condições de trabalho e de salário.
Podemos, para concluir, propor uma troca: colocamos os membros do executivo, do legislativo, por um bimestre, sem seus assessores, para trabalhar em uma escola. Fazer tudo que os professores fazem – sem ajuda de seus assessores. (Podem manter seus salários de 15 mil). Terão que apresentar a mesma produtividade dos professores, sem ajuda dos assessores.
Depois de um bimestre, nas mesmas condições dos professores, sem seus assessores, veremos o resultado!
Greve é grave! É um teatro com artistas, em palcos diferentes, tentando convencer a platéia, de que o seu show é o melhor. Mas, quando falamos em educação, o objetivo não é o show, mas a platéia depois do espetáculo.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, teólogo, historiador
3 de ago. de 2007
Vôo da Morte
A morte não está voando, nem é mortal o fato e o ato de voar. A expressão está sendo usada para designar aquele vôo fatídico do Rio Grande do Sul a São Paulo, provocando aquelas centenas de mortes.
Foi uma tragédia. A mídia se deliciou! Prato literalmente quente para várias semanas!
Os outros eventos e fatos e tragédias se dissiparam. Nem o aquecimento global se impôs àquelas cenas chamuscantes e fumegantes. O caso dos senadores larápios esfriou diante do calor da explosão! O PAN foi chamuscado pelo fogo da TAM. O record da TAM acabou recebendo mais destaque que os recordes do PAN
As cores da tragédia se tingiram de um avermelhado que nem de longe lembra aquele momento primordial em que os homens aprenderam a dominar o fogo e com ele iniciaram a epopéia do desenvolvimento. O fogo vital dos primeiros tempos se apagou diante do fogo mortal das explosões.
Mas a questão, aqui não é o fogo nem as explosões, nem o vôo, em si mesmo. Não estou interessado naqueles mortos nem em seus familiares. Da mesma forma que não estou interessado se a pista estava ou não escorregadia. Não me interessa se o avião estava com defeito, se o defeito foi na torre de comando nem se houve falha humana.
Que houve falhas, isso é obvio. Ou não haveria acidente. E com isso não estou querendo me mostrar insensível à dor nem à perda de pessoas queridas. Pelo contrário, esta é a motivação deste desabafo.
Apenas que nossa questão é outra. A questão aqui se refere a uma falha, sim, mas de ordem ética, de caráter, de humanidade.
Digo “nossa questão” é outra por que ela atinge a mim e a você. Atinge aos simples mortais que morrem de cotidiano abandono. Ao passo que aquele problema dos aeroportos, seus aviões e seus mortos representa casos esporádicos. E atinge alguns figurões. O povo mesmo, morre de outras mortes. Por isso o nosso problema é cotidiano:
A fila no hospital público, pago com nosso dinheiro de impostos, permanece matando;
O caos e o desmando na educação pública, aquela que pagamos mesmo sem querer, através da imposição dos impostos, continua matando perspectivas de desenvolvimento;
A assustadora insegurança da chamada segurança pública faz medo e produz pivetes matando a mando de figurões acoitados nas dobras da legislação ou da impunidade ou da negligência, ou do próprio fato de ser um figurão: “você sabe com quem está falando?”
O transporte, visto como vias ou como meios de transporte, também nos mata. As vias são um buraco só. Faltam placas de sinalização e marcadores no solo da pista; os meios de transporte, tanto público como privado são um caos: o carro popular, além de poluente é inacessível em seu preço estratosférico; o transporte coletivo é uma lástima. Tanto o busão de linha intermunicipal e interestadual como o urbano - a chamada circular – além de ser caro é desconfortável, irregular, não respeita o passageiro.
Aqui estão nossos problemas e essa é a questão: tudo isso é “coisa de pobre”. São os pobres que usam transporte coletivo, saúde pública, educação publica... Assim sendo, que se explodam! Mas quando a classe média e alta se explode num avião, a coisa pega. Ficam procurando culpados e justificativas. Mas não encontram o culpado pelas estradas esburacadas e sem sinalização; não encontram os responsáveis pelo caos do transporte coletivo, nem da incapacidade administrativa que gera as filas mortais na saúde pública; nem a estultice da educação publica. Será que a vida de uns é mais importante que a de outros ou é a morte de alguns que vale mais que a morte de outros?
Se um ônibus lotado cai numa “barroca” e mata todos os passageiros, o noticiário gasta alguns segundos para comentar o fato lamentável. Há poucos dias um noticiário da TV mostrou um caminhão saindo de sua pista atravessando o canteiro central e atropelando vários veículos e provocando congestionamento na estrada. Tudo isso é menos de 20 segundos. Ali também estiveram envolvidos e prejudicados várias dezenas de pessoas... Mas um avião lotado cai no meio da rua e explode com tudo e com todos, o noticiário se prolonga por algumas semanas. O defunto rico fede menos que o defunto pobre? O mau cheiro do defunto pobre é mais desagradável para as “fuças” sensíveis dos divulgadores das tragédias? Ou não se noticia a tragédia com os pobres porque, para a mídia e para os donos do poder, os pobres, realmente, não contam? A questão é que os pobres que morrem nas filas e nos acidentes cotidianos, vítimas do desvio de verbas, da corrupção... só valem quando podem significar uns votos a mais para legitimar o safado no poder.
Faltou merenda na escola! Você viu a TV e outros jornais ficarem semanas a fio explorando e denunciando o fato? Morreu duas centenas de figurões num corriqueiro acidente aéreo, quanto tempo a mídia usa para explorar a catástrofe?
Ta essa balburdia toda em torno do acidente. Mas você já observou que não se trata de gente comum? Quantos deles eram trabalhadores em expediente de trabalho? Quantas das crianças e jovens que morreram ali eram filhos de pais desempregados, biscateiros e outros tantos sobreviventes da vida assalariada?
Você já percebeu que aquilo que pode ser de interesse da coletividade dos empobrecidos não permanece na mídia? Já percebeu que aquilo que diz respeito à vida de alguns privilegiados é noticiado à exaustão enquanto a tragédia do povo é esquecida? Ou, justamente, para ocultá-la?
Tá na hora, meu amigo, de começar a calcular o valor da tua vida, para os donos do poder!
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador.
Foi uma tragédia. A mídia se deliciou! Prato literalmente quente para várias semanas!
Os outros eventos e fatos e tragédias se dissiparam. Nem o aquecimento global se impôs àquelas cenas chamuscantes e fumegantes. O caso dos senadores larápios esfriou diante do calor da explosão! O PAN foi chamuscado pelo fogo da TAM. O record da TAM acabou recebendo mais destaque que os recordes do PAN
As cores da tragédia se tingiram de um avermelhado que nem de longe lembra aquele momento primordial em que os homens aprenderam a dominar o fogo e com ele iniciaram a epopéia do desenvolvimento. O fogo vital dos primeiros tempos se apagou diante do fogo mortal das explosões.
Mas a questão, aqui não é o fogo nem as explosões, nem o vôo, em si mesmo. Não estou interessado naqueles mortos nem em seus familiares. Da mesma forma que não estou interessado se a pista estava ou não escorregadia. Não me interessa se o avião estava com defeito, se o defeito foi na torre de comando nem se houve falha humana.
Que houve falhas, isso é obvio. Ou não haveria acidente. E com isso não estou querendo me mostrar insensível à dor nem à perda de pessoas queridas. Pelo contrário, esta é a motivação deste desabafo.
Apenas que nossa questão é outra. A questão aqui se refere a uma falha, sim, mas de ordem ética, de caráter, de humanidade.
Digo “nossa questão” é outra por que ela atinge a mim e a você. Atinge aos simples mortais que morrem de cotidiano abandono. Ao passo que aquele problema dos aeroportos, seus aviões e seus mortos representa casos esporádicos. E atinge alguns figurões. O povo mesmo, morre de outras mortes. Por isso o nosso problema é cotidiano:
A fila no hospital público, pago com nosso dinheiro de impostos, permanece matando;
O caos e o desmando na educação pública, aquela que pagamos mesmo sem querer, através da imposição dos impostos, continua matando perspectivas de desenvolvimento;
A assustadora insegurança da chamada segurança pública faz medo e produz pivetes matando a mando de figurões acoitados nas dobras da legislação ou da impunidade ou da negligência, ou do próprio fato de ser um figurão: “você sabe com quem está falando?”
O transporte, visto como vias ou como meios de transporte, também nos mata. As vias são um buraco só. Faltam placas de sinalização e marcadores no solo da pista; os meios de transporte, tanto público como privado são um caos: o carro popular, além de poluente é inacessível em seu preço estratosférico; o transporte coletivo é uma lástima. Tanto o busão de linha intermunicipal e interestadual como o urbano - a chamada circular – além de ser caro é desconfortável, irregular, não respeita o passageiro.
Aqui estão nossos problemas e essa é a questão: tudo isso é “coisa de pobre”. São os pobres que usam transporte coletivo, saúde pública, educação publica... Assim sendo, que se explodam! Mas quando a classe média e alta se explode num avião, a coisa pega. Ficam procurando culpados e justificativas. Mas não encontram o culpado pelas estradas esburacadas e sem sinalização; não encontram os responsáveis pelo caos do transporte coletivo, nem da incapacidade administrativa que gera as filas mortais na saúde pública; nem a estultice da educação publica. Será que a vida de uns é mais importante que a de outros ou é a morte de alguns que vale mais que a morte de outros?
Se um ônibus lotado cai numa “barroca” e mata todos os passageiros, o noticiário gasta alguns segundos para comentar o fato lamentável. Há poucos dias um noticiário da TV mostrou um caminhão saindo de sua pista atravessando o canteiro central e atropelando vários veículos e provocando congestionamento na estrada. Tudo isso é menos de 20 segundos. Ali também estiveram envolvidos e prejudicados várias dezenas de pessoas... Mas um avião lotado cai no meio da rua e explode com tudo e com todos, o noticiário se prolonga por algumas semanas. O defunto rico fede menos que o defunto pobre? O mau cheiro do defunto pobre é mais desagradável para as “fuças” sensíveis dos divulgadores das tragédias? Ou não se noticia a tragédia com os pobres porque, para a mídia e para os donos do poder, os pobres, realmente, não contam? A questão é que os pobres que morrem nas filas e nos acidentes cotidianos, vítimas do desvio de verbas, da corrupção... só valem quando podem significar uns votos a mais para legitimar o safado no poder.
Faltou merenda na escola! Você viu a TV e outros jornais ficarem semanas a fio explorando e denunciando o fato? Morreu duas centenas de figurões num corriqueiro acidente aéreo, quanto tempo a mídia usa para explorar a catástrofe?
Ta essa balburdia toda em torno do acidente. Mas você já observou que não se trata de gente comum? Quantos deles eram trabalhadores em expediente de trabalho? Quantas das crianças e jovens que morreram ali eram filhos de pais desempregados, biscateiros e outros tantos sobreviventes da vida assalariada?
Você já percebeu que aquilo que pode ser de interesse da coletividade dos empobrecidos não permanece na mídia? Já percebeu que aquilo que diz respeito à vida de alguns privilegiados é noticiado à exaustão enquanto a tragédia do povo é esquecida? Ou, justamente, para ocultá-la?
Tá na hora, meu amigo, de começar a calcular o valor da tua vida, para os donos do poder!
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador.
Vaca Morta
Evidentemente a expressão: “vaca morta” pode ser entendida a partir de várias concepções. Uma delas é referindo-se ao animal que morreu. Outra é a dos que vivem dos negócios e entendem por vaca morta um bom negócio em que se leva grande vantagem. Outras formas de entender a expressão poderiam ser acrescentadas, mas não vamos usar este espaço e o seu tempo, leitor, para explorar a todos, uma vez que a vaca morta, em questão não se trata de nenhum sentido já consagrado. Estou criando outro.
Alguém poderia querer “zoar” comigo dizendo: “Ó o cara, meu! Pensa que tá podendo!” Só por que estou querendo inovar uma gíria já popularizada. Respondo: Tô podendo, sim, e daí? Mas a idéia não é essa, de curtir com a cara de ninguém. A coisa é séria: a vaca morreu! Depois de muito tempo no brejo, morreu afogada num mar de lama.
A idéia, a bem da verdade, não é minha. Peguei emprestada do Flávio, caricaturista da Folha de Rondônia. Na página quatro do primeiro caderno (22/06/07) ele “tascou” um personagem montado num “touro mecânico” com a singela frase: “eu já disse que não renuncio”.
Preste atenção na sonoridade da última palavra que não deve ser confundida com nenhum trocadilho, substituindo o “nun” por um “nan” qualquer. Além disso, está falando de um autêntico “não renuncio” que pode ser associado ao nome de um personagem, muito presente na mídia nacional, dos últimos tempos. O cara foi apanhado com a “boca na botija” e alguém, em nome de uma famigerada ética, achou por bem que o cara devia ser afastado de seu cargo – ou, se preferisse uma saída honrosa – como se honra houvesse, nesse meio – poderia renunciar ao cargo. E, por aqueles artifícios das figuras de linguagem, o “renuncio” está muito próximo do nome desse dito personagem, do qual me nego a falar o nome. E, como diria o anjo do apocalipse, “quem tem olhos para ler, que leia”
Mas, e a vaca morta, onde entra na história? É o que muitos já estão se perguntando.
Explico: O chamado “touro mecânico” é uma geringonça, muitas vezes coberta com couro de gado, evidentemente morto. Daí que esse personagem, da sátira daquele jornal, está sentado sobre uma “vaca morta”. Por mais que o touro mecânico saltite, é mecânico – logo, não-vivo: é vaca morta. E o dito cujo – o que disse que não renuncia - disse que amealhou seus milhões com gado,vivo, no meio do qual algumas vacas; mas, neste caso, vacas mortas, dos negócios!
Mas a parábola do desenho do rapaz, do Flávio, é bem mais inteligente do que a pura referência a um objeto mecânico. Essa vaca, na realidade representa uma casa de anciãos (em latins: seniors), os quais deveriam ser os mais íntegros representantes da sociedade do país. E, se fossemos mais rigorosos, os dois lados dessa casa, representada pelo touro mecânico, e que estamos chamando de vaca, estão mortos. Mortos não por que se refere ao animal morto, nem por ser só uma construção de cimento, morto, mas porque apodreceu. Morreu porque não foi vacinada. O vírus da corrupção matou a capacidade imunológica da moral. E a conseqüência foi infecção com a AIDS da ética das falcatruas e dos favores pessoais, contra os interesses da nação; razão pela qual nesse antro vicejam os atos imorais.
Como diria Jorge Amado, referindo-se aos locais que serviam como refúgios para os jagunços dos coronéis de seus romances, aquela casa virou um “valhacouto” de malfeitores. Não são poucos os criminosos que se entrincheiram num mandado e se escondem naquela casa. E seus moradores, em nome próprio, sem se ater ao “poder que emana do povo”, como se lê na constituição, criam leis e proteções para si e para os seus. E, com isso, atolam, cada vez mais a vaca, matando-a no lamaçal.
E ai, então, voltando ao personagem em questão, o camarada monta na vaca. Encastela-se no trono. Do trono da vaca morta faz seu discurso, não em nome ou em defesa da moralidade, mas em defesa de si mesmo e de seu trono que lhe dá imunidade. Do trono lança o desafio, magistralmente captado pela charge em questão: “eu já disse que não renuncio”. Como se estivesse numa daquelas brigas de criança: “daqui não saio e daqui ninguém me tira”.
E sabe por que, ninguém o tira? Porque aqueles que poderiam tirá-lo de cima da vaca, ou seja, da presidência daquela casa, para prendê-lo ou sei lá, quer dizer... você entendeu o que eu quis dizer... Ninguém o tira porque para fazer isso teria que ser alguém que não estivesse contaminado com o vírus que matou a vaca. Teria que ser alguém que não estivesse atolado. Teria que ser alguém de sangue puro, mas como sangue puro não há. Ele pode se dar ao luxo de dizer o que diz
Assim sendo não sobra outra conclusão: Ou a vaca esta morta ou estão mortos, dentro da vaca, todos os que se alojam naquele touro mecânico. E assim todos nos divertimos, e sofremos as conseqüências desse rodeio.
E a vaca? Continua morta. E, como está morta, não representa a população.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
Alguém poderia querer “zoar” comigo dizendo: “Ó o cara, meu! Pensa que tá podendo!” Só por que estou querendo inovar uma gíria já popularizada. Respondo: Tô podendo, sim, e daí? Mas a idéia não é essa, de curtir com a cara de ninguém. A coisa é séria: a vaca morreu! Depois de muito tempo no brejo, morreu afogada num mar de lama.
A idéia, a bem da verdade, não é minha. Peguei emprestada do Flávio, caricaturista da Folha de Rondônia. Na página quatro do primeiro caderno (22/06/07) ele “tascou” um personagem montado num “touro mecânico” com a singela frase: “eu já disse que não renuncio”.
Preste atenção na sonoridade da última palavra que não deve ser confundida com nenhum trocadilho, substituindo o “nun” por um “nan” qualquer. Além disso, está falando de um autêntico “não renuncio” que pode ser associado ao nome de um personagem, muito presente na mídia nacional, dos últimos tempos. O cara foi apanhado com a “boca na botija” e alguém, em nome de uma famigerada ética, achou por bem que o cara devia ser afastado de seu cargo – ou, se preferisse uma saída honrosa – como se honra houvesse, nesse meio – poderia renunciar ao cargo. E, por aqueles artifícios das figuras de linguagem, o “renuncio” está muito próximo do nome desse dito personagem, do qual me nego a falar o nome. E, como diria o anjo do apocalipse, “quem tem olhos para ler, que leia”
Mas, e a vaca morta, onde entra na história? É o que muitos já estão se perguntando.
Explico: O chamado “touro mecânico” é uma geringonça, muitas vezes coberta com couro de gado, evidentemente morto. Daí que esse personagem, da sátira daquele jornal, está sentado sobre uma “vaca morta”. Por mais que o touro mecânico saltite, é mecânico – logo, não-vivo: é vaca morta. E o dito cujo – o que disse que não renuncia - disse que amealhou seus milhões com gado,vivo, no meio do qual algumas vacas; mas, neste caso, vacas mortas, dos negócios!
Mas a parábola do desenho do rapaz, do Flávio, é bem mais inteligente do que a pura referência a um objeto mecânico. Essa vaca, na realidade representa uma casa de anciãos (em latins: seniors), os quais deveriam ser os mais íntegros representantes da sociedade do país. E, se fossemos mais rigorosos, os dois lados dessa casa, representada pelo touro mecânico, e que estamos chamando de vaca, estão mortos. Mortos não por que se refere ao animal morto, nem por ser só uma construção de cimento, morto, mas porque apodreceu. Morreu porque não foi vacinada. O vírus da corrupção matou a capacidade imunológica da moral. E a conseqüência foi infecção com a AIDS da ética das falcatruas e dos favores pessoais, contra os interesses da nação; razão pela qual nesse antro vicejam os atos imorais.
Como diria Jorge Amado, referindo-se aos locais que serviam como refúgios para os jagunços dos coronéis de seus romances, aquela casa virou um “valhacouto” de malfeitores. Não são poucos os criminosos que se entrincheiram num mandado e se escondem naquela casa. E seus moradores, em nome próprio, sem se ater ao “poder que emana do povo”, como se lê na constituição, criam leis e proteções para si e para os seus. E, com isso, atolam, cada vez mais a vaca, matando-a no lamaçal.
E ai, então, voltando ao personagem em questão, o camarada monta na vaca. Encastela-se no trono. Do trono da vaca morta faz seu discurso, não em nome ou em defesa da moralidade, mas em defesa de si mesmo e de seu trono que lhe dá imunidade. Do trono lança o desafio, magistralmente captado pela charge em questão: “eu já disse que não renuncio”. Como se estivesse numa daquelas brigas de criança: “daqui não saio e daqui ninguém me tira”.
E sabe por que, ninguém o tira? Porque aqueles que poderiam tirá-lo de cima da vaca, ou seja, da presidência daquela casa, para prendê-lo ou sei lá, quer dizer... você entendeu o que eu quis dizer... Ninguém o tira porque para fazer isso teria que ser alguém que não estivesse contaminado com o vírus que matou a vaca. Teria que ser alguém que não estivesse atolado. Teria que ser alguém de sangue puro, mas como sangue puro não há. Ele pode se dar ao luxo de dizer o que diz
Assim sendo não sobra outra conclusão: Ou a vaca esta morta ou estão mortos, dentro da vaca, todos os que se alojam naquele touro mecânico. E assim todos nos divertimos, e sofremos as conseqüências desse rodeio.
E a vaca? Continua morta. E, como está morta, não representa a população.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
Usando a Língua
Nossa língua é muito versátil. Pode ser usada com várias finalidades.
(E os maldosos que parem de pensar naquilo, pois não estou me referindo àquela utilização da língua e nem me referindo aquele órgão que usamos para sentir o sabor saboroso das coisas saborosas. Meu discurso, aqui, se refere à língua falada e não ao órgão usado para articular as palavras)
Feito este esclarecimento voltemos à afirmação inicial: a versatilidade de nossa língua. Você que está lendo, já percebeu que este texto pode conter alguma surpresa, como também pode terminar de forma completamente sem graça. E isso, mais uma vez, comprova a afirmação inicial: a possibilidade de utilizarmos a língua de diversas formas. Até para criar expectativa – ou para frustrá-la.
Podemos usar a língua para deprimir ou diminuir alguém; para “malfalar” ou caluniar. Podemos usar a língua para desprezar, maltratar. Podemos usar a língua da forma mais vil e degradante a fim de que a pessoa ou a coisa da qual estejamos falando saia diminuída, tenha seu valor minimizado.
Neste caso estamos dizendo que a língua é uma arma, mortal.
A língua falada pelos falantes pode literalmente causar morte e pode causar a morte social, moral, política ou outras mortes.
A língua, neste caso, é um veneno.
Mas, por outro lado – e as coisas sempre têm o outro lado! – a língua também pode ser um balsamo. Um néctar. Pode nos aproximar da ambrosia vivificante dos deuses gregos. Pode levar à poesia ao lirismo encantador da criação artística. Um “bonfalante”, “benfalando”, pode ajudar a minimizar feridas da alma ou a cicatrizar dores as mais diversas. Sem contar aquele bem imenso que pode ser feito quando nos dirigimos a uma pessoa que necessita de uma palavra amiga, quando chegamos a ela, pegamos sua mão, olhamos em seus olhos e dizemos tudo sem pronunciar uma única palavra. O silêncio cúmplice, nesses casos, muitas vezes, é mais salutar que infinitas palavras...
Falar algo bom, positivo, construtivo..., nem sempre é articular sons. Pode-se falar muito com gestos e posturas. E isso também faz parte do discurso benéfico de nossa língua. Neste caso a língua da solidariedade, da amizade, do amor...
A língua, nestes casos, é divina!!!
Mas não estou fazendo essa apologia da língua – e observe que uso a língua com vários sentidos sem cair naquele sentido que já disse que não está valendo, neste texto. Uso a língua, aqui para dizer que existem casos que mesmo sendo bem dita, a língua pode causar incompreensão. Não pelo que falou, mas por parte de quem ouviu. Isso implica dizer que, ao lado do bom falante tem que estar um bom ouvinte. Para evitar que o bom falante seja mal falado por um mau ouvinte.
Por que digo isso? Explico-me.
Nossa língua, entre outras virtudes, paga tributo ao grego e ao latim. Aliás, nossa sociedade é greco-latina, além de mal ser cristã. E o fato de ser greco-latina muito nos ajuda. Como, também, por vezes, pode criar embaraços. E o propósito deste texto não é o discurso laudatório à língua, mas tratar de um embaraço.
Em nosso programa semanal na Rádio Liberdade FM (aos sábados, às 12:30) conversávamos com um professor, filósofo, muito competente. Conhecedor do latim e do grego e mais algumas nuances de outras línguas.
O fato é que esse colega saudou os ouvintes chamando-os de “tele-ouvintes”. Após o programa, recebi alguns comentários maldosos, dizendo: “como você pode entrevistar um cara que nem sabe falar? A gente fala telespectador, quando está falando com ou dos que assistem televisão. Quando é no rádio a gente fala ouvinte, pois não estamos na televisão”, me disse um analfabeto (fez faculdade, o gajo, mas é analfabeto!). E continuou destilando veneno, essa língua ferina.
Fui obrigado a esclarecer à víbora, dizendo o que digo agora. Mostrei-lhe as origens de nossa língua. Fui obrigado a lhe ensinar que, o radical grego “tele” tem o significado de “à distância”; que usamos esse radical, em nossa língua, com muita freqüência e em várias outras circunstâncias e palavras. Nós falamos à distância usando o “tele-fone”, vemos imagens distantes pela “tele-visão”, descobrimos mundos pelo “tele-scópio”, alguns estudam a possibilidade da “tele-patia” para uma comunicação à distância, sem articulação de palavras, ou da “tele-cinese” para se referir ao transporte. Isso sem contar que já ultrapassamos a era do “tele-gráfo” para as curtas cartas, mas ainda usamos o “tele-grama”. Dessa forma, falar de tele-ouvinte não é um erro, mas uma perfeita utilização de um conceito.
A única diferença entre o tele-ouvinte e o telespectador é que um só ouve e o outro vê e ouve o que está ocorrendo em outra localidade. O tele-ouvinte, do rádio, é tão “tele” quanto o telespectador, da televisão. O que os diferencia é o aparelho de comunicação. Se não pudéssemos usar o “tele-ouvinte” também não poderíamos usar o telefone, o telescópio, a telegonia, a telemetria, nem as demais utilizações do tele.
Como não quero ser maldoso, nem tripudiar ninguém, sugiro, apenas que antes de tecermos comentários maldosos às pessoas e sobre pessoas, sejamos, pelo menos espertos ao ponto de não falarmos sobre algo do que não temos conhecimento. E aqui entra, também, a maldita fofoca.
Não me levem a mal, mas se as pessoas cuidassem das suas vidas, sem meter a língua em qualquer orifício, possivelmente haveria menos presença de “Tanatós”.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
(E os maldosos que parem de pensar naquilo, pois não estou me referindo àquela utilização da língua e nem me referindo aquele órgão que usamos para sentir o sabor saboroso das coisas saborosas. Meu discurso, aqui, se refere à língua falada e não ao órgão usado para articular as palavras)
Feito este esclarecimento voltemos à afirmação inicial: a versatilidade de nossa língua. Você que está lendo, já percebeu que este texto pode conter alguma surpresa, como também pode terminar de forma completamente sem graça. E isso, mais uma vez, comprova a afirmação inicial: a possibilidade de utilizarmos a língua de diversas formas. Até para criar expectativa – ou para frustrá-la.
Podemos usar a língua para deprimir ou diminuir alguém; para “malfalar” ou caluniar. Podemos usar a língua para desprezar, maltratar. Podemos usar a língua da forma mais vil e degradante a fim de que a pessoa ou a coisa da qual estejamos falando saia diminuída, tenha seu valor minimizado.
Neste caso estamos dizendo que a língua é uma arma, mortal.
A língua falada pelos falantes pode literalmente causar morte e pode causar a morte social, moral, política ou outras mortes.
A língua, neste caso, é um veneno.
Mas, por outro lado – e as coisas sempre têm o outro lado! – a língua também pode ser um balsamo. Um néctar. Pode nos aproximar da ambrosia vivificante dos deuses gregos. Pode levar à poesia ao lirismo encantador da criação artística. Um “bonfalante”, “benfalando”, pode ajudar a minimizar feridas da alma ou a cicatrizar dores as mais diversas. Sem contar aquele bem imenso que pode ser feito quando nos dirigimos a uma pessoa que necessita de uma palavra amiga, quando chegamos a ela, pegamos sua mão, olhamos em seus olhos e dizemos tudo sem pronunciar uma única palavra. O silêncio cúmplice, nesses casos, muitas vezes, é mais salutar que infinitas palavras...
Falar algo bom, positivo, construtivo..., nem sempre é articular sons. Pode-se falar muito com gestos e posturas. E isso também faz parte do discurso benéfico de nossa língua. Neste caso a língua da solidariedade, da amizade, do amor...
A língua, nestes casos, é divina!!!
Mas não estou fazendo essa apologia da língua – e observe que uso a língua com vários sentidos sem cair naquele sentido que já disse que não está valendo, neste texto. Uso a língua, aqui para dizer que existem casos que mesmo sendo bem dita, a língua pode causar incompreensão. Não pelo que falou, mas por parte de quem ouviu. Isso implica dizer que, ao lado do bom falante tem que estar um bom ouvinte. Para evitar que o bom falante seja mal falado por um mau ouvinte.
Por que digo isso? Explico-me.
Nossa língua, entre outras virtudes, paga tributo ao grego e ao latim. Aliás, nossa sociedade é greco-latina, além de mal ser cristã. E o fato de ser greco-latina muito nos ajuda. Como, também, por vezes, pode criar embaraços. E o propósito deste texto não é o discurso laudatório à língua, mas tratar de um embaraço.
Em nosso programa semanal na Rádio Liberdade FM (aos sábados, às 12:30) conversávamos com um professor, filósofo, muito competente. Conhecedor do latim e do grego e mais algumas nuances de outras línguas.
O fato é que esse colega saudou os ouvintes chamando-os de “tele-ouvintes”. Após o programa, recebi alguns comentários maldosos, dizendo: “como você pode entrevistar um cara que nem sabe falar? A gente fala telespectador, quando está falando com ou dos que assistem televisão. Quando é no rádio a gente fala ouvinte, pois não estamos na televisão”, me disse um analfabeto (fez faculdade, o gajo, mas é analfabeto!). E continuou destilando veneno, essa língua ferina.
Fui obrigado a esclarecer à víbora, dizendo o que digo agora. Mostrei-lhe as origens de nossa língua. Fui obrigado a lhe ensinar que, o radical grego “tele” tem o significado de “à distância”; que usamos esse radical, em nossa língua, com muita freqüência e em várias outras circunstâncias e palavras. Nós falamos à distância usando o “tele-fone”, vemos imagens distantes pela “tele-visão”, descobrimos mundos pelo “tele-scópio”, alguns estudam a possibilidade da “tele-patia” para uma comunicação à distância, sem articulação de palavras, ou da “tele-cinese” para se referir ao transporte. Isso sem contar que já ultrapassamos a era do “tele-gráfo” para as curtas cartas, mas ainda usamos o “tele-grama”. Dessa forma, falar de tele-ouvinte não é um erro, mas uma perfeita utilização de um conceito.
A única diferença entre o tele-ouvinte e o telespectador é que um só ouve e o outro vê e ouve o que está ocorrendo em outra localidade. O tele-ouvinte, do rádio, é tão “tele” quanto o telespectador, da televisão. O que os diferencia é o aparelho de comunicação. Se não pudéssemos usar o “tele-ouvinte” também não poderíamos usar o telefone, o telescópio, a telegonia, a telemetria, nem as demais utilizações do tele.
Como não quero ser maldoso, nem tripudiar ninguém, sugiro, apenas que antes de tecermos comentários maldosos às pessoas e sobre pessoas, sejamos, pelo menos espertos ao ponto de não falarmos sobre algo do que não temos conhecimento. E aqui entra, também, a maldita fofoca.
Não me levem a mal, mas se as pessoas cuidassem das suas vidas, sem meter a língua em qualquer orifício, possivelmente haveria menos presença de “Tanatós”.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
Porrada II
Esta é uma segunda porrada que, evidentemente, vem depois da primeira. Mas a questão aqui não é a ordem das porradas a mas a desordem que as provoca.
Não entendeu? Pois explico!
Você é pai ou mãe. Seu filho ou filha de dois ou três anos faz uma peraltice. Você ri e diz: que gracinha? ou repreende o pimpolho e diz que isso não está correto?
Seu rebento cresce. Está agora com sete ou oito anos. Chega da escola com duas borrachas, sendo que uma delas você não comprou e, portanto, não é dele. Você quer saber de quem é? Como ele ficou com ela? E se descobre que é de um coleguinha manda devolver? Ou só diz que isso não se faz e deixa para lá? Ou nem isso! Você simplesmente ignora, afinal é só uma borracha?
Aos doze ou treze anos. Sua cria não fez a tarefa e o professor lhe chama a atenção. Seu anjinho que aos três anos fazia peraltice e você ria, aos oito chegava com uma borracha estranha e você não ligava, agora, aos doze anos, ao ser repreendido por não cumprir com uma obrigação, falta com o respeito ao professor. Você acha que o professor não poderia ter lhe chamado a atenção, na sala de aula ou você lhe manda pedir desculpas ao professor e fazer duas vezes a tarefa, para que aprenda a cumprir com suas obrigações e se tornar um ser humano?
Agora ele já tem quinze ou dezesseis anos. Você acha que seu filho ainda é muito novo para trabalhar e que deve apenas estudar e se divertir, principalmente por que você teve que trabalhar desde cedo e nunca teve muito tempo para estudar e curtir a vida? ou você procura uma atividade para seu filho. Cobra-lhe que cumpra com essa tarefa e que estude? Além disso, você tolera que seu filho chegue tarde da noite ao sair com os amigos para diversões que você não sabe qual nem onde é? ou você estabelece horários para chegar e quer saber onde e com quem ele irá?
Não sei o que você respondeu a estas situações imaginárias. Mas, mesmo imaginárias, são situações cotidianas para muitos pais e mães e filhos e professores em quase todas as escolas.
Se você se divertiu com a peraltice do seu filho de três anos. Não deu pelota para a borracha estranha em sua bolsa escolar, aos oito. Não o repreendeu quando faltou com o respeito ao professor aos treze, nem se preocupou com quem saiu, para onde foi e que horas voltou, aos dezesseis, prepare-se para uma possível má, notícia: Seu filho pode ser um dos que agride uma trabalhadora e, para se desculpar, diz que pensava que fosse uma prostituta. Seu filho pode ser um dos que corre comprar um litro de álcool para incendiar um índio e, para se desculpar, diz que pensava que fosse um mendigo. Seu filho pode ser um dos que têm tudo, mas não tem um pai e/ou uma mãe.
Claro, você dirá que seu filho não é um monstro!
Respondo: Todos nós somos monstruosos, principalmente quando estamos em bandos ou acossados pelos apelos de fortes emoções; principalmente quando se volta para casa depois de uma noitada com os amigos, tendo bebido, fumado ou cheirado não se sabe o quê.
Você dirá que seu filho é diferente.
Respondo que justamente por sermos diferentes é que, no bando, querermos ser iguais; é por isso cometemos absurdos.
Você dirá que nunca faltou nada para seu filho e que, por isso ele não tem motivos para se comportar maldosamente.
Respondo que nisso reside o grande problema. Pensar que não deixar faltar algo ao filho, dando-lhe tudo, é um erro. Nisso há dois equívocos, fatais: ele não tem que receber tudo, sem ter merecido. Além disso, dar coisas, sem estar presente, cobrando e oferecendo valores é uma forma de confessar que você não está sendo responsável pelo seu filho. Os presentes devem ser proporcionais às conquistas por méritos.
Claro que você não está sozinho na construção desse malfeitor. Você tem uma ajuda valiosa dos meios de comunicação. Você conta com o apoio de uma compreensão equivocada de preceitos da legislação. Você tem um sistema escolar mantido não pela valorização do respeito e da aprendizagem, mas da politicagem que persegue profissionais competentes e valoriza capachos. Você é auxiliado por políticas públicas que privilegiam as estatísticas e não a aprendizagem. E assim por diante.
Conversar com os filhos é bom? É evidente que sim. Mas deixar de punir a peraltice, os erros, as malcriações, os excessos é conivência com a violência. É neste ponto que se separam os pais e os reprodutores.
Pais e mães são aqueles que se preocupam e procuram desenvolver valores socialmente aceitos. Reprodutores são aqueles que fazem ou o geram o filho e o abandonam aos cuidados de uma babá, depois o exilam numa creche, mais tarde o aprisionam na escola ao mesmo tempo em que o soltam nas ruas. Sabe o que acontece depois?
O fato é que a impunidade viceja. Espalha-se feito tiririca no canteiro de alface.
Por isso é que te convido a refletir sobre as porradas. Não aquelas que a grande mídia vem divulgando, quem sabe até tentando provocar uma discussão mais sadia não porque preserve valores, mas por que isso vende notícia e porque, por ser formada pela classe média-alta comece a se sentir ameaçada. Convido-te a refletir sobre as porradas que deixam de ser dadas, com o devido jeitinho carinhoso de quem é pai ou mãe e quer que seu filho não engrosse as estatísticas da violência.
Caso contrário, sabe onde isso vai dar? Porrada!
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
Não entendeu? Pois explico!
Você é pai ou mãe. Seu filho ou filha de dois ou três anos faz uma peraltice. Você ri e diz: que gracinha? ou repreende o pimpolho e diz que isso não está correto?
Seu rebento cresce. Está agora com sete ou oito anos. Chega da escola com duas borrachas, sendo que uma delas você não comprou e, portanto, não é dele. Você quer saber de quem é? Como ele ficou com ela? E se descobre que é de um coleguinha manda devolver? Ou só diz que isso não se faz e deixa para lá? Ou nem isso! Você simplesmente ignora, afinal é só uma borracha?
Aos doze ou treze anos. Sua cria não fez a tarefa e o professor lhe chama a atenção. Seu anjinho que aos três anos fazia peraltice e você ria, aos oito chegava com uma borracha estranha e você não ligava, agora, aos doze anos, ao ser repreendido por não cumprir com uma obrigação, falta com o respeito ao professor. Você acha que o professor não poderia ter lhe chamado a atenção, na sala de aula ou você lhe manda pedir desculpas ao professor e fazer duas vezes a tarefa, para que aprenda a cumprir com suas obrigações e se tornar um ser humano?
Agora ele já tem quinze ou dezesseis anos. Você acha que seu filho ainda é muito novo para trabalhar e que deve apenas estudar e se divertir, principalmente por que você teve que trabalhar desde cedo e nunca teve muito tempo para estudar e curtir a vida? ou você procura uma atividade para seu filho. Cobra-lhe que cumpra com essa tarefa e que estude? Além disso, você tolera que seu filho chegue tarde da noite ao sair com os amigos para diversões que você não sabe qual nem onde é? ou você estabelece horários para chegar e quer saber onde e com quem ele irá?
Não sei o que você respondeu a estas situações imaginárias. Mas, mesmo imaginárias, são situações cotidianas para muitos pais e mães e filhos e professores em quase todas as escolas.
Se você se divertiu com a peraltice do seu filho de três anos. Não deu pelota para a borracha estranha em sua bolsa escolar, aos oito. Não o repreendeu quando faltou com o respeito ao professor aos treze, nem se preocupou com quem saiu, para onde foi e que horas voltou, aos dezesseis, prepare-se para uma possível má, notícia: Seu filho pode ser um dos que agride uma trabalhadora e, para se desculpar, diz que pensava que fosse uma prostituta. Seu filho pode ser um dos que corre comprar um litro de álcool para incendiar um índio e, para se desculpar, diz que pensava que fosse um mendigo. Seu filho pode ser um dos que têm tudo, mas não tem um pai e/ou uma mãe.
Claro, você dirá que seu filho não é um monstro!
Respondo: Todos nós somos monstruosos, principalmente quando estamos em bandos ou acossados pelos apelos de fortes emoções; principalmente quando se volta para casa depois de uma noitada com os amigos, tendo bebido, fumado ou cheirado não se sabe o quê.
Você dirá que seu filho é diferente.
Respondo que justamente por sermos diferentes é que, no bando, querermos ser iguais; é por isso cometemos absurdos.
Você dirá que nunca faltou nada para seu filho e que, por isso ele não tem motivos para se comportar maldosamente.
Respondo que nisso reside o grande problema. Pensar que não deixar faltar algo ao filho, dando-lhe tudo, é um erro. Nisso há dois equívocos, fatais: ele não tem que receber tudo, sem ter merecido. Além disso, dar coisas, sem estar presente, cobrando e oferecendo valores é uma forma de confessar que você não está sendo responsável pelo seu filho. Os presentes devem ser proporcionais às conquistas por méritos.
Claro que você não está sozinho na construção desse malfeitor. Você tem uma ajuda valiosa dos meios de comunicação. Você conta com o apoio de uma compreensão equivocada de preceitos da legislação. Você tem um sistema escolar mantido não pela valorização do respeito e da aprendizagem, mas da politicagem que persegue profissionais competentes e valoriza capachos. Você é auxiliado por políticas públicas que privilegiam as estatísticas e não a aprendizagem. E assim por diante.
Conversar com os filhos é bom? É evidente que sim. Mas deixar de punir a peraltice, os erros, as malcriações, os excessos é conivência com a violência. É neste ponto que se separam os pais e os reprodutores.
Pais e mães são aqueles que se preocupam e procuram desenvolver valores socialmente aceitos. Reprodutores são aqueles que fazem ou o geram o filho e o abandonam aos cuidados de uma babá, depois o exilam numa creche, mais tarde o aprisionam na escola ao mesmo tempo em que o soltam nas ruas. Sabe o que acontece depois?
O fato é que a impunidade viceja. Espalha-se feito tiririca no canteiro de alface.
Por isso é que te convido a refletir sobre as porradas. Não aquelas que a grande mídia vem divulgando, quem sabe até tentando provocar uma discussão mais sadia não porque preserve valores, mas por que isso vende notícia e porque, por ser formada pela classe média-alta comece a se sentir ameaçada. Convido-te a refletir sobre as porradas que deixam de ser dadas, com o devido jeitinho carinhoso de quem é pai ou mãe e quer que seu filho não engrosse as estatísticas da violência.
Caso contrário, sabe onde isso vai dar? Porrada!
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
Porrada
Que me desculpem os olhos mais castos ou os ouvidos sensíveis. Mas o show de porrada pede posicionamentos.
Decididamente, estamos numa época de crise de valores. A moralidade atual, quixotescamente, busca moinhos de vento onde espetar uma lança de absurdos que perpapassa do meio privado ao público; que vai da cena política ao cotidiano dos negócios. A crise de valores ocorre não por que não se tem valores, mas por que os valores são outros.
O bom disso é saber que toda crise é situação de purificação: da putrefação social pode surgir um novo verme produzindo novos valores. Atualmente o que vemos é o lamaçal se estendendo, se ampliando, se infiltrando, se tornando cada vez mais presente no dia-a-dia não só dos políticos, como também da população. Nessa situação de pestilência é que nos encontramos.
Veja como andam as manchetes em um dia comum neste início de século XXI: logo de manhã, na caixa de e.mail uma notícia me atinge os olhos: no interior de São Paulo um aluno incendeia os cabelos da professora, em sala de aula. Você pode ter imaginado que o garoto foi expulso da escola. Nada! Pasme: a escola toma uma providência muito mais drástica: chama os pais para conversar!!! O menor agressor foi acoitado no colo dos pais. Não foi punido! E as autoridades do sistema escolar ainda disseram que se trata de uma criança – esqueceram de dizer que é uma criança má!
Desabafo da professora chamuscada: essa é a lição que a autoridade escolar está ensinando.
Mais adiante outra situação gritante. Madrugada. Alguns estudantes, voltando de uma farra (drogados, embriagados???) param o carrão num ponto de ônibus – não têm álcool, como aqueles que incendiaram o índio. Motivo da parada: assaltar uma trabalhadora que espera a condução para fazer consulta médica. Depois do assalto é espancada. Ela não tinha dinheiro para o plano de saúde e precisava, desde a madrugada, enfrentar a fila mortal da saúde pública.
Os pais e advogados argumentaram em favor dos jovens: são estudantes! Não devem ficar presos, pois são estudantes. (Alguém precisa avisar esses bandidos, pais e advogados desses criminosos, que estudante, de madrugada ou está dormindo para ir cedo para a escola ou está estudando para concluir algum trabalho escolar). Ladrão e agressor, na madrugada, pode ser tudo, menos estudante. E se não forem punidos agora terão aprendido a lição primordial, não da escola, mas de seus pais, seus advogados e da própria legislação inócua: roubar e agredir são os bens desejáveis.
Conclusão para a sociedade: caso seu filho esteja agredindo alguém, verbal ou fisicamente, não o repreenda! Isso faz parte dos novos valores defendidos pelos oportunistas. Não tente impedi-lo, pois aparecerão os defensores dos direitos humanos empunhando o estatuto da criança e do adolescente, mostrando não o espírito da lei, mas a ótica do interesse particular que, contra toda ética e bom senso, se sobrepõe aos interesses coletivos.
Nos dois casos terão se esquecido, em nome do interesse particular, que aquela professora e aquela doméstica também são humanos detentores de direitos. A diferença é que são insignificantes. São o lado mais frágil da corda, o lado que arrebenta.
Com exemplos desse naipe, com pais dessa envergadura não podemos nos assombrar diante de situações em que Senadores da República se prostituem com o dinheiro público; em que o congresso pára a fim de defender seus pares, mandando às favas os interesses da população deste país de carnaval.
Com atitudes deste naipe, sendo ensinado diariamente, em rede nacional, não se assuste a população se o noticiário falar que um deputado encomendou a morte de outro deputado, num recanto do país. Não se assuste se um fazendeiro fizer acordo com algum grupo de sem-terra para invadir sua fazenda e, com isso, conseguir algum benefício.
Homem ou mulher, com a dignidade dos valores antigos, não se assombre se um relator de uma tal comissão de ética de um senado por aí mandar arquivar um caso com indícios de podridão, alegando falta de provas – provas que poderiam ser levantadas – para a condenação ou para a absolvição, caso houvesse investigação.
O rosário de porradas poderia ser ampliado, só com casos que ganharam realce na mídia nacional. Nem precisaríamos lembrar e mencionar os nossos atropelos cotidianos. Poderíamos apenas nos recordar de tantos casos em que a impunidade alimentou a ampliação das porradas: as operações da polícia federal, prendendo e no dia seguinte libertos por liminares e outros aparatos legais, aparecem dando entrevista dizendo que tudo foi só um mal entendido, perseguição dos opositores; uma criança é arrastada pelas ruas e os assassinos rindo da cara abobada da população estupefata.
Como disse, estamos numa época de crise de valores. A legislação é um emaranhado de direitos proibitivos para quem “é do bem”, mas favorável aos direitos de delinqüentes, bandidos e ladrões do “colarinho branco”. E já que a impunidade é o que resolve tudo quem sabe já esteja na hora de resgatarmos uma lei um pouco mais simples e antiga, como aquela de Hamurabi. Não estou defendendo o linchamento, puro e simples, mas quem sabe um festival de porrada não apressasse o processo do acrisolamento.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, teólogo, historiador
Decididamente, estamos numa época de crise de valores. A moralidade atual, quixotescamente, busca moinhos de vento onde espetar uma lança de absurdos que perpapassa do meio privado ao público; que vai da cena política ao cotidiano dos negócios. A crise de valores ocorre não por que não se tem valores, mas por que os valores são outros.
O bom disso é saber que toda crise é situação de purificação: da putrefação social pode surgir um novo verme produzindo novos valores. Atualmente o que vemos é o lamaçal se estendendo, se ampliando, se infiltrando, se tornando cada vez mais presente no dia-a-dia não só dos políticos, como também da população. Nessa situação de pestilência é que nos encontramos.
Veja como andam as manchetes em um dia comum neste início de século XXI: logo de manhã, na caixa de e.mail uma notícia me atinge os olhos: no interior de São Paulo um aluno incendeia os cabelos da professora, em sala de aula. Você pode ter imaginado que o garoto foi expulso da escola. Nada! Pasme: a escola toma uma providência muito mais drástica: chama os pais para conversar!!! O menor agressor foi acoitado no colo dos pais. Não foi punido! E as autoridades do sistema escolar ainda disseram que se trata de uma criança – esqueceram de dizer que é uma criança má!
Desabafo da professora chamuscada: essa é a lição que a autoridade escolar está ensinando.
Mais adiante outra situação gritante. Madrugada. Alguns estudantes, voltando de uma farra (drogados, embriagados???) param o carrão num ponto de ônibus – não têm álcool, como aqueles que incendiaram o índio. Motivo da parada: assaltar uma trabalhadora que espera a condução para fazer consulta médica. Depois do assalto é espancada. Ela não tinha dinheiro para o plano de saúde e precisava, desde a madrugada, enfrentar a fila mortal da saúde pública.
Os pais e advogados argumentaram em favor dos jovens: são estudantes! Não devem ficar presos, pois são estudantes. (Alguém precisa avisar esses bandidos, pais e advogados desses criminosos, que estudante, de madrugada ou está dormindo para ir cedo para a escola ou está estudando para concluir algum trabalho escolar). Ladrão e agressor, na madrugada, pode ser tudo, menos estudante. E se não forem punidos agora terão aprendido a lição primordial, não da escola, mas de seus pais, seus advogados e da própria legislação inócua: roubar e agredir são os bens desejáveis.
Conclusão para a sociedade: caso seu filho esteja agredindo alguém, verbal ou fisicamente, não o repreenda! Isso faz parte dos novos valores defendidos pelos oportunistas. Não tente impedi-lo, pois aparecerão os defensores dos direitos humanos empunhando o estatuto da criança e do adolescente, mostrando não o espírito da lei, mas a ótica do interesse particular que, contra toda ética e bom senso, se sobrepõe aos interesses coletivos.
Nos dois casos terão se esquecido, em nome do interesse particular, que aquela professora e aquela doméstica também são humanos detentores de direitos. A diferença é que são insignificantes. São o lado mais frágil da corda, o lado que arrebenta.
Com exemplos desse naipe, com pais dessa envergadura não podemos nos assombrar diante de situações em que Senadores da República se prostituem com o dinheiro público; em que o congresso pára a fim de defender seus pares, mandando às favas os interesses da população deste país de carnaval.
Com atitudes deste naipe, sendo ensinado diariamente, em rede nacional, não se assuste a população se o noticiário falar que um deputado encomendou a morte de outro deputado, num recanto do país. Não se assuste se um fazendeiro fizer acordo com algum grupo de sem-terra para invadir sua fazenda e, com isso, conseguir algum benefício.
Homem ou mulher, com a dignidade dos valores antigos, não se assombre se um relator de uma tal comissão de ética de um senado por aí mandar arquivar um caso com indícios de podridão, alegando falta de provas – provas que poderiam ser levantadas – para a condenação ou para a absolvição, caso houvesse investigação.
O rosário de porradas poderia ser ampliado, só com casos que ganharam realce na mídia nacional. Nem precisaríamos lembrar e mencionar os nossos atropelos cotidianos. Poderíamos apenas nos recordar de tantos casos em que a impunidade alimentou a ampliação das porradas: as operações da polícia federal, prendendo e no dia seguinte libertos por liminares e outros aparatos legais, aparecem dando entrevista dizendo que tudo foi só um mal entendido, perseguição dos opositores; uma criança é arrastada pelas ruas e os assassinos rindo da cara abobada da população estupefata.
Como disse, estamos numa época de crise de valores. A legislação é um emaranhado de direitos proibitivos para quem “é do bem”, mas favorável aos direitos de delinqüentes, bandidos e ladrões do “colarinho branco”. E já que a impunidade é o que resolve tudo quem sabe já esteja na hora de resgatarmos uma lei um pouco mais simples e antiga, como aquela de Hamurabi. Não estou defendendo o linchamento, puro e simples, mas quem sabe um festival de porrada não apressasse o processo do acrisolamento.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, teólogo, historiador
25 de jul. de 2007
O Fim da Educação
Não é de hoje que a coisa vem piorando. Paciente com enfermidade crônica, a educação no Brasil não vem recebendo medicamentos. Está condenada a morrer por omissão de socorro na porta do hospital da vida.
Mas o triste disso tudo é que a responsabilidade por essa situação é atribuída á própria educação. Ou então se joga a culpa nos professores, nos estudantes, na família, na sociedade. Mas na realidade, a quem interessa que a educação morra? A quem interessa o fim da Educação? ao, mais ainda, o que é educação?
O fato é que a Educação não é responsável pela sua enfermidade. A causa do problema deve ser buscada num nível mais profundo. É necessário analisar as várias causas, estruturais, do problema.
Então, reflitamos o problema: O professor é mal remunerado e com isso desincentivado... Em geral recebe muitas cobranças e poucos incentivos. Embora apaixonado pela arte de ensinar, o professor precisa sobreviver. Portanto não se estranhe se ele precisar deixar a sala de aula para sobreviver e alimentar seus filhos. Só o amor não alimenta. E se não deixa de ser professor se sobrecarrega com várias horas de aula. Com dupla jornada, trabalhando em várias escolas, indo além do que um mortal pode suportar.
Além disso, não é estranho a ninguém o aumento do desrespeito, da superposição de obrigações jogadas sobre a escola e sobre os ombros do professor. Crianças ou adolescentes e jovens delinqüentes são jogadas, por determinação judicial, dentro do pátio das escolas, fazendo com o que a instituição escolar, que já tem seus problemas específicos, seja obrigada a conviver com problemas que deveriam ser tratados por psicólogos, carcereiros, polícia... – digo conviver por que não irá solucionar o problema, antes, pelo contrário, aumentará o problema, pois além dos que já enfrenta, recebe um outro que não é de sua alçada. E dessa forma o poder público diz que está resolvendo, quando, na verdade, está se esquivando e passando sua responsabilidade para outros.
Gostaria de saber se um juiz, um promotor ou alguém que toma essas decisões estapafúrdias gostaria que seu filho convivesse, diariamente, no pátio escolar, com delinqüentes. Não só conviver, mas sofrer as ameaças, as agressões ou as influências desses que são obrigados por decisão da lei, a permanecer na escola – não estou dizendo que não têm direito à educação escolar! Estou afirmando que o atual sistema escolar não tem os recursos materiais e humanos para dar esse atendimento.
E a mesma lei que é usada para manter o bandido no pátio escolar, não obriga o Estado a arcar com profissionais qualificados e treinados para dar segurança e acompanhamento específico a essas crianças e adolescentes.
A família passa por uma crise de desestruturação. Os lares foram invadidos pelas gangs de droga, do desrespeito, da irresponsabilidade. Há tempo morreu o que se pode chamar de expectativa de futuro melhor. Para os jovens, para as famílias e para o Brasil. E quem saiu perdendo nisso foram às famílias... (E a escola!).
E mais ainda. Como um pai de família pode educar seu filho se precisa sair de madrugada para o trabalho, voltando já tarde da noite, cada dia mais cansado... e cada vez mais na miséria?... Isso quando não chega de um trabalho e tem que sair para outro, para complementar a renda a fim de alimentar a família.
O que sobrou para a sociedade? Para superar o que era arcaico a nossa sociedade acabou perdendo a noção do valor humano. Onde estão os valores da entre-ajuda, da solidariedade, (da Justiça), do amor á pátria, da verdade? Do respeito à pessoa, do respeito aos símbolos ...
Não quero voltar ao passado, mas novamente estamos precisando de um Diógenes que saia às ruas com uma lanterna na mão, em pleno meio dia para procurar um homem. Nossa sociedade precisa de homens e mulheres com sólidas raízes no futuro, trazendo luzes para nosso tenebroso presente.
Nisso tudo a vítima maior não é a educação... (que já está condenada). Nem os professores... condenados a dobrar carga horária atrás de salário. Nem são as escolas, entregues a depressão, matagais, insetos, gangs (retrato dolorido duma sociedade deseducada e incapaz). Também não são os estudantes que não têm perspectiva nem de trabalho nem de desenvolvimento: as oportunidades estão se acabando.
As vitimas mais atingidas são nossos filhos, os estudantes, atingidos pelos descaminho em que entrou a sociedade. As maiores vitimas, dessa situação catastrófica são as futuras gerações, as quais, como ainda não têm poder de decisão, são obrigadas a engolir o que a mídia impõe. As maiores vitimas somos nós mesmos, remoídos pelo grito de nossa consciência omissa, abraçada com a indiferença.
Enquanto isso a educação continua HOSPITALIZADA: e os órgãos governamentais desculpando-se e alegado falta de verbas; enquanto isso o dinheiro público é esbanjado em propaganda de auto-promoção ou inauguração de obras inacabadas; enquanto isso os tecnocratas, burocratas e muitos gestores dos destinos da nação se empanturram com o dinheiro público – o mesmo que é negado para a melhoria do salário do professor... ou do ambiente escolar
E lá, no hospital da vida, os interesses capitalistas continuam matando a educação. E isso continuará até que seja tarde demais... ou até que nós tornemos uma providência...
Neri de Paula carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
Mas o triste disso tudo é que a responsabilidade por essa situação é atribuída á própria educação. Ou então se joga a culpa nos professores, nos estudantes, na família, na sociedade. Mas na realidade, a quem interessa que a educação morra? A quem interessa o fim da Educação? ao, mais ainda, o que é educação?
O fato é que a Educação não é responsável pela sua enfermidade. A causa do problema deve ser buscada num nível mais profundo. É necessário analisar as várias causas, estruturais, do problema.
Então, reflitamos o problema: O professor é mal remunerado e com isso desincentivado... Em geral recebe muitas cobranças e poucos incentivos. Embora apaixonado pela arte de ensinar, o professor precisa sobreviver. Portanto não se estranhe se ele precisar deixar a sala de aula para sobreviver e alimentar seus filhos. Só o amor não alimenta. E se não deixa de ser professor se sobrecarrega com várias horas de aula. Com dupla jornada, trabalhando em várias escolas, indo além do que um mortal pode suportar.
Além disso, não é estranho a ninguém o aumento do desrespeito, da superposição de obrigações jogadas sobre a escola e sobre os ombros do professor. Crianças ou adolescentes e jovens delinqüentes são jogadas, por determinação judicial, dentro do pátio das escolas, fazendo com o que a instituição escolar, que já tem seus problemas específicos, seja obrigada a conviver com problemas que deveriam ser tratados por psicólogos, carcereiros, polícia... – digo conviver por que não irá solucionar o problema, antes, pelo contrário, aumentará o problema, pois além dos que já enfrenta, recebe um outro que não é de sua alçada. E dessa forma o poder público diz que está resolvendo, quando, na verdade, está se esquivando e passando sua responsabilidade para outros.
Gostaria de saber se um juiz, um promotor ou alguém que toma essas decisões estapafúrdias gostaria que seu filho convivesse, diariamente, no pátio escolar, com delinqüentes. Não só conviver, mas sofrer as ameaças, as agressões ou as influências desses que são obrigados por decisão da lei, a permanecer na escola – não estou dizendo que não têm direito à educação escolar! Estou afirmando que o atual sistema escolar não tem os recursos materiais e humanos para dar esse atendimento.
E a mesma lei que é usada para manter o bandido no pátio escolar, não obriga o Estado a arcar com profissionais qualificados e treinados para dar segurança e acompanhamento específico a essas crianças e adolescentes.
A família passa por uma crise de desestruturação. Os lares foram invadidos pelas gangs de droga, do desrespeito, da irresponsabilidade. Há tempo morreu o que se pode chamar de expectativa de futuro melhor. Para os jovens, para as famílias e para o Brasil. E quem saiu perdendo nisso foram às famílias... (E a escola!).
E mais ainda. Como um pai de família pode educar seu filho se precisa sair de madrugada para o trabalho, voltando já tarde da noite, cada dia mais cansado... e cada vez mais na miséria?... Isso quando não chega de um trabalho e tem que sair para outro, para complementar a renda a fim de alimentar a família.
O que sobrou para a sociedade? Para superar o que era arcaico a nossa sociedade acabou perdendo a noção do valor humano. Onde estão os valores da entre-ajuda, da solidariedade, (da Justiça), do amor á pátria, da verdade? Do respeito à pessoa, do respeito aos símbolos ...
Não quero voltar ao passado, mas novamente estamos precisando de um Diógenes que saia às ruas com uma lanterna na mão, em pleno meio dia para procurar um homem. Nossa sociedade precisa de homens e mulheres com sólidas raízes no futuro, trazendo luzes para nosso tenebroso presente.
Nisso tudo a vítima maior não é a educação... (que já está condenada). Nem os professores... condenados a dobrar carga horária atrás de salário. Nem são as escolas, entregues a depressão, matagais, insetos, gangs (retrato dolorido duma sociedade deseducada e incapaz). Também não são os estudantes que não têm perspectiva nem de trabalho nem de desenvolvimento: as oportunidades estão se acabando.
As vitimas mais atingidas são nossos filhos, os estudantes, atingidos pelos descaminho em que entrou a sociedade. As maiores vitimas, dessa situação catastrófica são as futuras gerações, as quais, como ainda não têm poder de decisão, são obrigadas a engolir o que a mídia impõe. As maiores vitimas somos nós mesmos, remoídos pelo grito de nossa consciência omissa, abraçada com a indiferença.
Enquanto isso a educação continua HOSPITALIZADA: e os órgãos governamentais desculpando-se e alegado falta de verbas; enquanto isso o dinheiro público é esbanjado em propaganda de auto-promoção ou inauguração de obras inacabadas; enquanto isso os tecnocratas, burocratas e muitos gestores dos destinos da nação se empanturram com o dinheiro público – o mesmo que é negado para a melhoria do salário do professor... ou do ambiente escolar
E lá, no hospital da vida, os interesses capitalistas continuam matando a educação. E isso continuará até que seja tarde demais... ou até que nós tornemos uma providência...
Neri de Paula carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
Medo criativo e a angústia da existência
O que somos nós? De onde viemos e para onde vamos?
Essas são algumas das indagações que movem a humanidade. Claro que existem outras, por exemplo: o que vou comer no almoço? Será que terei o que comer? Poucos se perguntam, por exemplo, sobre o que acontecerá se continuarmos agredindo a natureza. Claro, também, que tem perguntas que raramente as pessoas se fazem: para onde vai a luz quando desligamos o interruptor? Qual é a cor daquela calça amarela, quando o guarda-roupa está no escuro?
Mas as indagações essenciais permanecem. E, às vezes se desdobram em outras, principalmente quando começamos a respondê-las: Somos o que somos? Somos o que queremos ser? Somos o que sonhamos ser? Ou não somos? Afinal, quem e o quê somos?
Vou me atrever a dar uma resposta: Somos o resultado de nossos medos! Somos humanos, e como tal, movemo-nos a partir de algumas características: a insatisfação, o medo, as indagações...
Primeiro somos insatisfeitos: se com fome, queremos a saciedade; alimentados queremos repouso; repousando queremos emoções... e dessa forma, por sermos insatisfeitos vamos construindo, descobrindo, inventando – quebrando a cara, também! – mas em todos os casos vamos alterando o mundo e a nós mesmos. E permanecemos insatisfeitos e, por isso, buscando!
Por causa da insatisfação e junto dela, somos medrosos. Temos medo de tudo. Até de admitir o medo – lembremo-nos de algumas músicas do Raul Seixas! Temos medo da verdade e tememos a mentira. Temos medo do desconhecido e tememos a busca do seu entendimento. Temos medo da morte e não preservamos a vida. E, por medo, nem sempre nos damos conta de que o medo não é sinal de fraqueza nem covardia: é mecanismo de preservação; é um dos instrumentos que utilizamos para nos mantermos vivos; é um dos mecanismos de que nos utilizamos para tentar satisfazer algumas de nossas necessidades ou suprir algumas de nossas insatisfações. Só que por medo da insatisfação ou de não termos nossas necessidades atendidas, permanecemos com medo e insatisfeitos.
Em vista disso nos interrogamos: como superar o medo e satisfazer a insatisfação? Outra indagação é sobre o sentido da vida. Como a percebemos sem sentido, mas apegados a ela, buscamos, desesperadamente, dar-lhe sentido. Criamos sentido! – por vezes absurdos! Nossas indagações nos levam, muitas vezes a respostas falsas. Nossas indagações nos levam a inseguranças, pois nos defrontamos com a falta de sentido da vida e a inconsistência de nossas respostas e das nossas verdades.
Embora não tenhamos coragem de admitir, a vida, e o viver, são situações desprovidas de sentido: ou tem sentido levantar-se de manhã, quando se quer permanecer dormindo ou pelo menos na cama – com ela (ou ele), de preferência? Tem sentido ir para um trabalho chato, quando se quer fazer nada, viver no ócio? Tem sentido passar a vida fazendo algo que não gostamos, só para manter as aparências? Tem sentido trabalhar feito um burro de carga, e ver o fruto do trabalho enriquecer a outros? Tem sentido fazer tudo o que fazemos, até tentando acumular riquezas, para morrer e não levar nada?
(Pare um pouco e veja quão sem sentido é a existência. Veja como você vive insatisfeito, muitas vezes melancólico – e supere o medo de admitir que, sua insatisfação ocorre porque você não encontrou o sentido do seu existir!)
Como disse, ao percebemos a falta de sentido da existência, criamos sentidos para existir. E, muitas vezes esse sentido é colocado num ser ou numa realidade transcendente. Sagrada! É colocado num além indefinido e indefinível, fruto da imaginação. Criamos o sagrado para dar sentido à vida e ao existir.
Mas temos medo dessa realidade. E por medo dela e de perdê-la, perdendo até esse sentido, nos furtamos a refletir sobre ela. Não temos coragem de colocá-la em discussão. Por medo permanecemos na dúvida. E na dúvida, criamos os dogmas, criando, com isso uma certeza artificial, falsa! Em nome do dogma nos negamos o direito de questionar. Em com isso volta o problema que mantém a angústia do ser humano: o imponderado do seu destino. E sua dúvida cruel: de onde vim? Para onde vou? E reaparece o medo!
Essa angústia faz de cada um de nós, pessoas, ao mesmo tempo insatisfeitas e apegadas a algumas explicações. Alguns nos agarramos à religião. Mas a religião não satisfaz. E por medo não nos libertamos na fé, pois a fé, embora dissimule o medo, mata a curiosidade e não satisfaz. Alguns se apegam à ciência, que também não satisfaz, pois a cada certeza apresentada depois de uma pesquisa científica, produz outras dúvidas. Resta à filosofia a função de explicar essa situação, mas a filosofia também não satisfaz, pois antes de dar respostas acrescenta mais dúvidas às duvidas.
O homem é insatisfeito e por isso busca. Quanto mais busca, mais explicações contraditórias encontra. Por isso mais se angustia, pois nada cura seu medo. Nada lhe dá certeza. E assim vai construindo, criando, evoluindo. E quanto mais cria, mais constrói, mais inventa, mas evolui... mais percebe que nada disso tem sentido. E lança-se cada vez mais desesperadamente na busca desse sentido.
E assim vive o ser humano, sem sentido de viver, mas construindo sentido para a existência. Angustiado e atormentado por seus medos, mas construindo, nem que seja artificialidades que o mantêm insatisfeito, com medo e se perguntando pela resposta definitiva, que nunca encontrará.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
Essas são algumas das indagações que movem a humanidade. Claro que existem outras, por exemplo: o que vou comer no almoço? Será que terei o que comer? Poucos se perguntam, por exemplo, sobre o que acontecerá se continuarmos agredindo a natureza. Claro, também, que tem perguntas que raramente as pessoas se fazem: para onde vai a luz quando desligamos o interruptor? Qual é a cor daquela calça amarela, quando o guarda-roupa está no escuro?
Mas as indagações essenciais permanecem. E, às vezes se desdobram em outras, principalmente quando começamos a respondê-las: Somos o que somos? Somos o que queremos ser? Somos o que sonhamos ser? Ou não somos? Afinal, quem e o quê somos?
Vou me atrever a dar uma resposta: Somos o resultado de nossos medos! Somos humanos, e como tal, movemo-nos a partir de algumas características: a insatisfação, o medo, as indagações...
Primeiro somos insatisfeitos: se com fome, queremos a saciedade; alimentados queremos repouso; repousando queremos emoções... e dessa forma, por sermos insatisfeitos vamos construindo, descobrindo, inventando – quebrando a cara, também! – mas em todos os casos vamos alterando o mundo e a nós mesmos. E permanecemos insatisfeitos e, por isso, buscando!
Por causa da insatisfação e junto dela, somos medrosos. Temos medo de tudo. Até de admitir o medo – lembremo-nos de algumas músicas do Raul Seixas! Temos medo da verdade e tememos a mentira. Temos medo do desconhecido e tememos a busca do seu entendimento. Temos medo da morte e não preservamos a vida. E, por medo, nem sempre nos damos conta de que o medo não é sinal de fraqueza nem covardia: é mecanismo de preservação; é um dos instrumentos que utilizamos para nos mantermos vivos; é um dos mecanismos de que nos utilizamos para tentar satisfazer algumas de nossas necessidades ou suprir algumas de nossas insatisfações. Só que por medo da insatisfação ou de não termos nossas necessidades atendidas, permanecemos com medo e insatisfeitos.
Em vista disso nos interrogamos: como superar o medo e satisfazer a insatisfação? Outra indagação é sobre o sentido da vida. Como a percebemos sem sentido, mas apegados a ela, buscamos, desesperadamente, dar-lhe sentido. Criamos sentido! – por vezes absurdos! Nossas indagações nos levam, muitas vezes a respostas falsas. Nossas indagações nos levam a inseguranças, pois nos defrontamos com a falta de sentido da vida e a inconsistência de nossas respostas e das nossas verdades.
Embora não tenhamos coragem de admitir, a vida, e o viver, são situações desprovidas de sentido: ou tem sentido levantar-se de manhã, quando se quer permanecer dormindo ou pelo menos na cama – com ela (ou ele), de preferência? Tem sentido ir para um trabalho chato, quando se quer fazer nada, viver no ócio? Tem sentido passar a vida fazendo algo que não gostamos, só para manter as aparências? Tem sentido trabalhar feito um burro de carga, e ver o fruto do trabalho enriquecer a outros? Tem sentido fazer tudo o que fazemos, até tentando acumular riquezas, para morrer e não levar nada?
(Pare um pouco e veja quão sem sentido é a existência. Veja como você vive insatisfeito, muitas vezes melancólico – e supere o medo de admitir que, sua insatisfação ocorre porque você não encontrou o sentido do seu existir!)
Como disse, ao percebemos a falta de sentido da existência, criamos sentidos para existir. E, muitas vezes esse sentido é colocado num ser ou numa realidade transcendente. Sagrada! É colocado num além indefinido e indefinível, fruto da imaginação. Criamos o sagrado para dar sentido à vida e ao existir.
Mas temos medo dessa realidade. E por medo dela e de perdê-la, perdendo até esse sentido, nos furtamos a refletir sobre ela. Não temos coragem de colocá-la em discussão. Por medo permanecemos na dúvida. E na dúvida, criamos os dogmas, criando, com isso uma certeza artificial, falsa! Em nome do dogma nos negamos o direito de questionar. Em com isso volta o problema que mantém a angústia do ser humano: o imponderado do seu destino. E sua dúvida cruel: de onde vim? Para onde vou? E reaparece o medo!
Essa angústia faz de cada um de nós, pessoas, ao mesmo tempo insatisfeitas e apegadas a algumas explicações. Alguns nos agarramos à religião. Mas a religião não satisfaz. E por medo não nos libertamos na fé, pois a fé, embora dissimule o medo, mata a curiosidade e não satisfaz. Alguns se apegam à ciência, que também não satisfaz, pois a cada certeza apresentada depois de uma pesquisa científica, produz outras dúvidas. Resta à filosofia a função de explicar essa situação, mas a filosofia também não satisfaz, pois antes de dar respostas acrescenta mais dúvidas às duvidas.
O homem é insatisfeito e por isso busca. Quanto mais busca, mais explicações contraditórias encontra. Por isso mais se angustia, pois nada cura seu medo. Nada lhe dá certeza. E assim vai construindo, criando, evoluindo. E quanto mais cria, mais constrói, mais inventa, mas evolui... mais percebe que nada disso tem sentido. E lança-se cada vez mais desesperadamente na busca desse sentido.
E assim vive o ser humano, sem sentido de viver, mas construindo sentido para a existência. Angustiado e atormentado por seus medos, mas construindo, nem que seja artificialidades que o mantêm insatisfeito, com medo e se perguntando pela resposta definitiva, que nunca encontrará.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
Vagabundo?
Existe um ditado falso, por sinal, afirmando que “cada povo tem o governo que merece”.
Nada mais falso e maldoso do que afirmar isso. Duas afirmações de governantes comprovam isso. Claro que a população – os eleitores – é ultrajada constantemente pelo poder público. Desde o fato de ter que esperar numa ante-sala (para não ser atendido, ou ser mal atendido) até os projetos e leis anti-população. São muitos os exemplos em que representantes dos três poderes dão cascudo nos seus patrões, os contribuintes. Poderia fazer um rosário de situações em que isso ocorre ou poderia mencionar um tanto de vezes que eu próprio fui ultrajado. Não é a toa que os espanhóis forjaram aquele ditado tão real em nosso meio: “aos amigos os favores da lei; aos inimigos os rigores da lei”. Perceberam onde nasce a corrupção?
Mas não vamos aqui comentar essa dimensão da afronta a que é submetida a população. Vamos nos concentrar a duas agressões. Nós, os contribuintes, fomos agredidos em duas situações diferentes, em épocas distintas e por personagens alternados – alterados – recebemos o mesmo rótulo: VAGABUNDO.
Na primeira vez foi o Presidente da República e na outra o prefeito da maior cidade do país. Claro que nas duas vezes o destinatário imediato do rótulo – para não dizer xingamento – eram interlocutores do boca suja. Mas nas duas vezes se tratava de um membro do executivo eleito diretamente pela população – ou uma pequena parte da população. E, portanto, seu ato reflete-se não somente sobre o indivíduo-vítima, mas para a população como um todo. Mesmo que tenha sido eleito por uma parcela muito pequena da população – considerando os não eleitores, os não votantes, os que se abstiveram, votaram branco ou anularam o voto e, principalmente, os que votaram contra, por terem votado em outros candidatos – cada personagem eleito elege-se com um percentual bem reduzido do universo total da população. Mas, pela lei, representa toda a população (outra conversa é o questionamento sobre a legitimidade da lei!) E seus atos, portanto não são atos dirigidos para indivíduos, mas para a população.
O primeiro, um presidente, de triste memória, pelos tantos escândalos abafados em seu governo, chamou de vagabundos aos que questionavam seu projeto de alteração na aposentadoria. Lá com as palavras dele disse que quem deseja se aposentar é vagabundo – ele que na época já era aposentado como professor! O segundo, um prefeito em início de mandato – então já dá para imaginar o que ainda se pode esperar dele! – chamou um trabalhador de vagabundo. Notemos que esse trabalhador questionava uma lei paulistana que cerceava um campo de trabalho, ganha-pão de muita gente.
Nos dois casos, com quase uma década de distância, a mesma palavra de origem latina. Segundo o “Aurélio”, trata-se de uma pessoa que “leva uma vida errante; que vagueia; vagamundo, vadio, erradio, errante, nômade, andejo, mundeiro. Inconstante, volúvel, leviano. Velhaco, pelintra, canalha, biltre. De má qualidade; reles, ordinário. Troca-pernas. Indivíduo desocupado, ocioso”. Portanto nada que se assemelhe a um “muito obrigado, senhores eleitores, contribuintes, meus patrões, pelos votos a mim confiados”.
Agora vejamos. Quem busca aposentadoria? Pessoas que já trabalharam por um período de tempo considerável. E que contribuiu, com o fruto do seu trabalho, para a previdência social que é a instituição que paga a aposentadoria. Portanto, quem pede aposentadoria é alguém que está ou esteve trabalhando – e pede de volta o dinheiro que é seu, pois lhe foi descontado do salário! Quem foi o senhor escorraçado pelo prefeito? Um trabalhador, colocando seu problema por estar sendo impedido de exercer uma atividade. Portanto alguém que pode até não estar trabalhando, por força de uma lei municipal, mas que deseja trabalhar – tanto que estava interpelando o prefeito!
Nos dois casos, tratou-se de pessoas idosas e que já trabalharam muito durante suas décadas de inserção no “Mercado de Trabalho”. Mais ainda. Tratou-se de pessoas que produziram – ou produzem – riquezas, bens, serviços. Isso por que estamos considerando apenas os indivíduos diretamente insultados. Mas como se trata de um homem público, com poder legalmente instituído, representam toda a população e quando falam ou agem seus atos ou palavras atingem a toda a população.
Agora, alguém ai, me diga: o que produzem os tais homens públicos? O que produzem os políticos? Quais os benefícios que produzem para a totalidade da população de que são representantes?
Observando atentamente poderemos constatar que a ação dos “homens públicos”, dos políticos de modo geral, são atos que produzem mal-estar na população – não estamos querendo negar que existem aqueles que se beneficiam, que levam vantagem, que tiram proveito pessoal! Estamos falando da população como um todo e não daqueles gatos pingados que sobrevivem de uma atividade chamada “puxa-saquismo”.
O que produzem os políticos, além do infindo “cordão de puxa-sacos”?
O que produzem aqueles que são chamados de “vagabundos” é a riqueza do país. O progresso da nação. O desenvolvimento, cujos resultados são engolidos pelos corredores do poder e da corrupção.
Portanto se tem algum vagabundo nessa história não são aqueles que assim foram chamados – a população brasileira – por aqueles que deveriam representar a população. Se existe algum vagabundo, com todos os significados da palavra, esses são aqueles que assim chamam a população.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
Nada mais falso e maldoso do que afirmar isso. Duas afirmações de governantes comprovam isso. Claro que a população – os eleitores – é ultrajada constantemente pelo poder público. Desde o fato de ter que esperar numa ante-sala (para não ser atendido, ou ser mal atendido) até os projetos e leis anti-população. São muitos os exemplos em que representantes dos três poderes dão cascudo nos seus patrões, os contribuintes. Poderia fazer um rosário de situações em que isso ocorre ou poderia mencionar um tanto de vezes que eu próprio fui ultrajado. Não é a toa que os espanhóis forjaram aquele ditado tão real em nosso meio: “aos amigos os favores da lei; aos inimigos os rigores da lei”. Perceberam onde nasce a corrupção?
Mas não vamos aqui comentar essa dimensão da afronta a que é submetida a população. Vamos nos concentrar a duas agressões. Nós, os contribuintes, fomos agredidos em duas situações diferentes, em épocas distintas e por personagens alternados – alterados – recebemos o mesmo rótulo: VAGABUNDO.
Na primeira vez foi o Presidente da República e na outra o prefeito da maior cidade do país. Claro que nas duas vezes o destinatário imediato do rótulo – para não dizer xingamento – eram interlocutores do boca suja. Mas nas duas vezes se tratava de um membro do executivo eleito diretamente pela população – ou uma pequena parte da população. E, portanto, seu ato reflete-se não somente sobre o indivíduo-vítima, mas para a população como um todo. Mesmo que tenha sido eleito por uma parcela muito pequena da população – considerando os não eleitores, os não votantes, os que se abstiveram, votaram branco ou anularam o voto e, principalmente, os que votaram contra, por terem votado em outros candidatos – cada personagem eleito elege-se com um percentual bem reduzido do universo total da população. Mas, pela lei, representa toda a população (outra conversa é o questionamento sobre a legitimidade da lei!) E seus atos, portanto não são atos dirigidos para indivíduos, mas para a população.
O primeiro, um presidente, de triste memória, pelos tantos escândalos abafados em seu governo, chamou de vagabundos aos que questionavam seu projeto de alteração na aposentadoria. Lá com as palavras dele disse que quem deseja se aposentar é vagabundo – ele que na época já era aposentado como professor! O segundo, um prefeito em início de mandato – então já dá para imaginar o que ainda se pode esperar dele! – chamou um trabalhador de vagabundo. Notemos que esse trabalhador questionava uma lei paulistana que cerceava um campo de trabalho, ganha-pão de muita gente.
Nos dois casos, com quase uma década de distância, a mesma palavra de origem latina. Segundo o “Aurélio”, trata-se de uma pessoa que “leva uma vida errante; que vagueia; vagamundo, vadio, erradio, errante, nômade, andejo, mundeiro. Inconstante, volúvel, leviano. Velhaco, pelintra, canalha, biltre. De má qualidade; reles, ordinário. Troca-pernas. Indivíduo desocupado, ocioso”. Portanto nada que se assemelhe a um “muito obrigado, senhores eleitores, contribuintes, meus patrões, pelos votos a mim confiados”.
Agora vejamos. Quem busca aposentadoria? Pessoas que já trabalharam por um período de tempo considerável. E que contribuiu, com o fruto do seu trabalho, para a previdência social que é a instituição que paga a aposentadoria. Portanto, quem pede aposentadoria é alguém que está ou esteve trabalhando – e pede de volta o dinheiro que é seu, pois lhe foi descontado do salário! Quem foi o senhor escorraçado pelo prefeito? Um trabalhador, colocando seu problema por estar sendo impedido de exercer uma atividade. Portanto alguém que pode até não estar trabalhando, por força de uma lei municipal, mas que deseja trabalhar – tanto que estava interpelando o prefeito!
Nos dois casos, tratou-se de pessoas idosas e que já trabalharam muito durante suas décadas de inserção no “Mercado de Trabalho”. Mais ainda. Tratou-se de pessoas que produziram – ou produzem – riquezas, bens, serviços. Isso por que estamos considerando apenas os indivíduos diretamente insultados. Mas como se trata de um homem público, com poder legalmente instituído, representam toda a população e quando falam ou agem seus atos ou palavras atingem a toda a população.
Agora, alguém ai, me diga: o que produzem os tais homens públicos? O que produzem os políticos? Quais os benefícios que produzem para a totalidade da população de que são representantes?
Observando atentamente poderemos constatar que a ação dos “homens públicos”, dos políticos de modo geral, são atos que produzem mal-estar na população – não estamos querendo negar que existem aqueles que se beneficiam, que levam vantagem, que tiram proveito pessoal! Estamos falando da população como um todo e não daqueles gatos pingados que sobrevivem de uma atividade chamada “puxa-saquismo”.
O que produzem os políticos, além do infindo “cordão de puxa-sacos”?
O que produzem aqueles que são chamados de “vagabundos” é a riqueza do país. O progresso da nação. O desenvolvimento, cujos resultados são engolidos pelos corredores do poder e da corrupção.
Portanto se tem algum vagabundo nessa história não são aqueles que assim foram chamados – a população brasileira – por aqueles que deveriam representar a população. Se existe algum vagabundo, com todos os significados da palavra, esses são aqueles que assim chamam a população.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
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