14 de abr. de 2008

Apreciação sobre o Coçar

Apreciação sobre o Coçar
Everaldo L. Santana - Filósofo
Certa vez, o filósofo francês Montaigne sobre o coçar comentou: "coçar é uma das mais doces recompensas da natureza e a mais à mão". Será que Montaigne tem razão ao chamar o coçar de doce? O que é esse coçar que fez o filósofo se expressar dessa forma?
Há, de certo modo, uma razão no que Montaigne disse. Vamos a ela.
A razão de Montaigne está no fato de que a palavra coçar se deriva do latim "coctiare" que possui estes significados: cozinhar, preparar ao fogo, queimar, agitar. Em grego, o coçar se traduz pela palavra "knizo" que apresenta estes sentidos: inflamar, excitar. Daí se entende que o ato de coçar expressa uma agitação seguida de uma excitação. Essa agitação e excitação ocorrem em função dos nervos, só há coceira onde existe terminação nervosa, portanto, nem as unhas nem os cabelos coçam, pois neles não existem nervos.
Como foi dito acima, do ato de coçar participa a excitação e nela também se inclui o prazer, pois coçar é um ato prazeroso enquanto "doce", como disse Montaigne. O coçar é tão prazeroso e sublime que levou o rei da Inglaterra Jaime I a afirmar: "Ninguém além dos reis e príncipes deveria ter comichão porque a sensação de coçar é sublime". E há um provérbio antigo que diz: "melhor que fortuna é coçar onde precisa". O escritor Montagu cita um personagem Thomas Carlyle que fala: "o auge da felicidade humana é coçar onde precisa". Outro provérbio antigo diz: "você coça as minhas costas que eu coço as suas". Eis aí fatos de como a coceira participa intensamente da vida humana a ponto de ela exprimir um modo de comportamento que reflete a maneira de pensar coletiva e individual. Coletiva enquanto social representado pelos provérbios; individual enquanto opinião particular, subjetiva.
Não se vá pensar que apenas o ser humano sente e explicita o fenômeno do coçar. Os animais, sejam eles silvícolas ou domésticos reagem, em forma de coceira, quando os insetos e as intempéries excitam suas terminações nervosas. Dessa forma, animais e humanos experimentam o mesmo fenômeno, porém guardando as devidas proporções.
Além dessas referências, o dramaturgo inglês William Shakespeare produz uma conexão entre coçar e opinar, eis aí : "what's the matter, you dissentious rogues, that, rubling poor itch of your opinion, make yourselves scabs?" (o que há, patífes arruaceiros, que esfregando a pobre coceira de suas opiniões, conseguem formar cascas?).
Tendo ainda o evento coçar como elemento em baila, o escritor Montagu apresenta duas outras citações: a de Samuel Butler e a de Ogden Nash. Ei-las: Samuel Butler: "...he could seruples dark and nice, and after solve in a trice, as if divinity had catch'd the itch on purpose to be scratched". (...ele conseguia criar escrúpulos nefandos e ou doces, depois resolvê-los num átimo, como se a divindade tivesse contraído sarna com a finalidade de ser coçada). Ogden Nash: "one bliss of which there is no match is when you itch to up and scratch". (uma bênção para qual não há igual é quando a gente sente um comichão dos pés à cabeça e se coça todo então).
Essas três pontuações em torno do prurido (do coçar) não ficam apenas no âmbito prosaico. Em épocas remotas, ou seja, em tempos nos quais as sociedades mais antigas e de caráter religioso, o controle sobre as reações do corpo era uma prova de elevação espiritual, de modo que quando alguma parte do corpo coçava, o religioso não fazia nenhum esboço que indicasse intenção de coçar a referida parte corporal. Esse ato era praticado por monges orientais em seus momentos de meditação. Controle total sobre o corpo implicava em ignorar qualquer ação externa. A imobilidade em estado de concentração não admite coceira, a qual provocaria a desconcentração. Ignorar o externo. Eis o lema dos monges.
Finalmente, o ato de coçar é particular e intransferível, entretanto controlável. Houve época em que escravos brancos e negros eram proibidos de se coçarem enquanto serviam a seus algozes. Visto assim, até a coceira é, de certa maneira, manipulada.

17 de mar. de 2008

Filosofia: origem e desenvolvimento

(Apontamentos provisórios para aulas de filosofia)
Prof. Ms. Neri de Paula Carneiro neri.car@hotmail.com

Existem alguns meios que podem facilitar o estudo da filosofia, em sala de aula, com estudantes do ensino médio? Essa mesma concepção vale para o ensino superior?
Uma das formas de responder a essas indagações é a constatação de que a filosofia volta sua atenção sobre todas as realidades. Outra forma de estudar filosofia é buscar suas origens. Esta é nossa preocupação com este pequeno texto buscar resposta para as indagações que nos ajudem a entender quem faz filosofia e sua origem e desenvolvimento, até chegar a nós.

1- QUEM FAZ FILOSOFIA?

Esta é uma questão com resposta aparentemente fácil. Sabemos que filosofia é um processo de busca de conhecimento; um processo pelo qual se reflete a realidade. Tendo isso presente fica quase evidenciada a resposta: o ser humano é quem faz filosofia.
Mas quais seres humanos? Todos?
Não!
Não são todos os seres humanos que fazem filosofia. Todos podem, mas nem todos fazem. E isso por um motivo simples: A filosofia é um processo de busca de conhecimentos, mas nem todos estão preocupados em buscar. Muitos aceitam e se acomodam na mediocridade. (“Sempre foi assim, nunca vai mudar!”, dizem alguns, no que são secundados por outros: “pau que nasce torto, morre torto!”).
A filosofia é um processo de crítica da realidade, mas nem todos estão interessados em desenvolver ou passar por esse processo. Muitos aceitam e se acomodam à realidade tal qual ela se apresenta; não querem nem procuram mudanças (deixa como está para ver como é que fica!).
A filosofia é um processo de pensar (a palavra pensar tem o mesmo sentido de pesar, estabelecer valores, avaliar) todas as realidades, mas nem todos estão dispostos ou com pré-disposição para isso. Muitos preferem ser pensados, e conseqüentemente aceitam ser manipulados, conduzidos (possuem uma "consciência de rebanho"), pois quem não pensa é pensado! Quem não tem rumo segue o rumo que lhe é imposto.
Agora leia o que disse K. Jasper, filósofo alemão, que viveu no século XX, a respeito de como a filosofia é vista:
“Muitos políticos vêem facilitando seu nefasto trabalho pela ausência da filosofia. Massas e funcionários são mais fáceis de manipular quando não pensam, mas tão-somente usam de uma inteligência de rebanho, É preciso impedir que os homens se tornem sensatos. Mais vale, portanto, que a filosofia seja vista como algo entediante. Oxalá desaparecessem as cátedras de filosofia. Quanto mais vaidades se ensinem, menos estarão os homens arriscados a se deixar tocar pela luz da filosofia.
Assim, a filosofia se vê rodeada de inimigos, a maioria dos quais não tem consciência dessa condição. A autocomplacência burguesa, os convencionalismos, o hábito de considerar o bem-estar material como razão suficiente de vida, o hábito de só apreciar a ciência em função de sua utilidade técnica, o ilimitado desejo de poder, a bonomia dos políticos, o fanatismo das ideologias, a aspiração a um nome literário – tudo isso proclama a antifilosofia. E os homens não o percebem porque não se dão conta do que estão fazendo. E permanecem inconscientes de que a antifilosofia é uma filosofia, embora pervertida, que, se aprofundada, engendraria sua própria aniquilação.” (JASPER, 1973, p. 139-140)
Para ajudar a entender melhor isso que estamos dizendo, vamos ler o texto seguinte:

a- A História dos Cordeiros
“Os cordeiros viviam felizes numa fazenda. Pastavam, andavam de um lado para outro. Acreditavam que eram livres e felizes, pois assim se comportavam, correndo dentro do cercado que acreditavam ser sua casa.
Diariamente o pastor lhes alimentava, cuidava deles e todos os cordeiros seguiam o pastor. O pastor os chamava; conhecia-os pelo nome conduzindo-os para onde lhe aprazia.
Todos os dias os cordeiros entravam na fila para se dirigir ao cercado, onde o pastor os alimentava, dava sal, acariciava seus pelos; de vez em quando era necessário um medicamento e ele lhes aplicava. No tempo do calor o pastor os tosquiava. E todos achavam aquilo maravilhoso, pois a lã, que lhes cobria o corpo, era muito quente.
Quando estavam soltos, no pasto, dentro do cercado, vinha o pastor e os chamava:
- Venham meus cordeirinhos. Sigam-me. Entrem na fila meus cordeirinhos.
E o pastor os condizia para onde achava conveniente:
- Venham meus cordeirinhos. Sigam-me. Entrem na fila meus cordeirinhos.
E todos o seguiam. Ele era seu líder e todos o admiravam.
- Venham meus cordeirinhos. Sigam-me. Entrem na fila meus cordeirinhos. Entrem no cercado, meus cordeirinhos.
Houve um dia, entretanto, em que ao ritual foi acrescentada uma longa permanência no cercado. Alguns até acharam estranho, mas o pastor, seu líder assim o fizera e eles se acalmaram:
- Calma, meus cordeirinhos. Fiquem calmos dentro do cercado.
E os cordeirinhos ficaram calmos, pacificamente, na mangueira. O pastor os tosquiou e lhes disse:
- Esperem mais um pouco meus cordeirinhos. Hoje não vou lhes soltar para o pasto.
Os cordeiros viram uma movimentação diferente. Mas acreditavam no pastor que veio novamente:
- Vamos meus cordeirinhos, entrem no caminhão. Vocês vão dar um passeio.
Os cordeiros ficaram alegres e disseram, lá na língua deles:
- Oba, hoje vamos passear! O pastor nos deu um prêmio pela nossa produção.
Como os cordeiros, todos calmos, e pacíficos, nunca se revoltavam. Nunca haviam pedido para ir à escola, conseqüentemente não aprenderam a ler.
E foram passear no caminhão em que estava escrito: Frigorífico.”

Uma das conclusões que se pode tirar dessa historinha é que devemos, sempre, nos perguntar sobre o sentido e os porquês das realidades que nos circundam.
Filosofar é um ato e processo humano. O Ser Humano é humano por que é capaz de refletir. É pela reflexão que se faz filosofia. Acontece que nem todos se ocupam em refletir. Nem todos se humanizam pela reflexão. Existem aqueles que preferem alienar-se ou estão alienados (fora da realidade) sem perceber os meandros das falsas aparências.
Portanto, para saber quem é capaz de filosofar precisamos descobrir quem é capaz de:
a) formar as próprias opiniões, ultrapassando o convencional e convencionado;
b) agir, movido pelas próprias convicções deixando de fazer o que está previsto só por que está previsto;
c) distinguir-se dos que aceitam ser manipulados pelas maiorias, ou minorias dominantes, apenas para não criar conflito;
d) buscar sua verdade, ultrapassando os limites das maiorias.
Além disso, aqueles que se escondem no chavão: "se os outros fizerem, eu também faço", "se vocês forem, eu também vou", não são capazes de filosofar. Aqueles a quem chamamos de "Maria vai com as outras”, os que sempre estão "de acordo com a maioria", são incapazes de filosofar: ou por que estão alienados ou por medo. Os que preferem esconder-se no discurso da "maioria", não são capazes de filosofar porque perderam sua personalidade no discurso do "outro". E serão incapazes de agir por si mesmos, enquanto não se derem ao trabalho de falar por conta própria; fazer o próprio discurso. Podemos dizer que o apego ao "discurso da maioria", é demonstração inequívoca de despersonalização, incapacidade intelectual, declaração de desumanização.
Isso não significa que devamos sempre “ser do contra” só pelo gosto de protestar. Essa também é uma demonstração de imaturidade. Se for para ser “a favor” precisamos ter os nossos motivos e não o impulso da “maioria”. Ser “a favor” ou “contra” depende não do que os outros disserem ou fizerem, mas da análise que o indivíduo deve fazer, refletindo e pesando os prós e contras. É da reflexão que nasce a decisão.
Se alguém se mantém preso à "opinião da maioria" é por que não se libertou para emitir a própria opinião. E, se não tem opinião, não tem capacidade de pensar, pois a opinião pessoal origina-se da reflexão, da leitura que fazemos da realidade circundante. Manter-se com a opinião da maioria é não saber ler a realidade e, portanto, permanecer analfabeto ao mundo... É permanecer na ignorância, com opiniões equivocadas.
Assim sendo, para saber quem é capaz de filosofar, precisamos saber quem se dá ao trabalho de refletir sobre a realidade, superando as amarras da ingenuidade, da compreensão mítica, da alienação, do senso comum, impondo-se a tarefa da análise em busca de conclusões pessoais. Precisamos saber quem é capaz de fazer algo não por causa da maioria, mas porque refletiu, pesou os prós e contras e, para se desinstalar, assumiu a posição que era necessária, não por causa da maioria nem por conveniência pessoal, mas por imperativo racional.
E o erro de julgamento? Como explicar os equívocos?
Faz parte do processo de busca. Nunca acontece acerto total. Os erros fazem parte da aprendizagem. Só erra quem busca o acerto. Tanto que, para quem se coloca numa posição de aprendiz, é possível aprender tanto com os erros quanto com os acertos.
A historinha, a seguir, sobre erros e acertos, pode nos ajudar a entender melhor a necessidade de busca:

b- Erros e acertos
“Um velho pesquisador passou a vida toda buscando uma grande descoberta. Mas seus experimentos sempre davam errado.
Um dia chegou ao seu laboratório um jovem pesquisador.
Todo empolgado, começou a encaminhar seus experimentos.
O ancião o observava. Até que se dirigiu ao novato:
- Isso que você está fazendo, dessa forma, não vai dar certo.
Ao que o outro responde.
- Quem é você para me corrigir? Você não sabe de nada, passou a vida fazendo pesquisas que nunca deram o resultado desejado.
O veterano:
- Exatamente por isso sei que dessa forma não dará certo. Eu já errei exatamente nesse ponto onde você está. Quer acertar, busque outro caminho.”

E, se quisermos um pouco mais de arrojo, podemos dizer que a filosofia é o processo pelo qual o animal, que se autodenomina racional, faz-se homem. Aquele que se admira diante da realidade, procurando compreendê-la e dominá-la, esse é o ser humano capaz de filosofar. Abrir-se ao processo de busca, estar inquieto, buscando alternativas, esse é o processo do filosofar, próprio do ser humano que não se acomoda. Enfrentar, com otimismo e coragem, as adversidades, é o caminho do filosofar. Os problemas, as dificuldades, são apenas respostas ainda não apresentadas, mas que nascerão da reflexão do ser humano.
Refletir é curvar-se diante do desconhecido buscando compreendê-lo e dominá-lo. Não é demais dizer que foram as facilidades, mas os problemas que permitiram a humanidade chegar onde está. Não fossem os problemas e a capacidade reflexiva, que dá resposta aos problemas, o ser humano ainda estaria nas cavernas. Talvez nem tivesse se transformado em Humano.
Fechar-se ao processo é alienar-se. Aniquilar-se. Desumanizar-se. Até deixar de ser humano para tornar-se, talvez, uma utilíssima minhoca.

2- DO MITO À FILOSOFIA

O ser humano sempre esteve preocupado e ocupado em conhecer e explicar a realidade.
Nos primórdios da humanidade todas as realidades, particularmente a natureza, eram muito mais inquietantes, desafiadoras, assustadoras e complexas para os primeiros homens: tudo era completamente desconhecido. Podemos dizer que nos primórdios o sentimento do ser humano em relação ao mundo era de medo.
Era, portanto, necessário, explicar o mundo para superar o medo. A complexidade do mundo circundante, ao longo de milhares de anos, possibilitou aos diferentes grupos humanos produzir diversas explicações mítico-religiosas. Podemos dizer que o medo foi cedendo lugar ao mito e à religião. Esse processo perdurou até o advento da filosofia, mas não se extinguiu completamente, pois ainda hoje somos levados a explicar miticamente aquilo para o quê não temos explicações lógico-filosófico-científica.
Eis o que diz um pensador alemão que viveu no século XIX, a respeito do desconhecido:
“Reduzir uma coisa desconhecida a outra conhecida alivia, tranqüiliza e satisfaz o espírito, proporcionando, além disso, um sentimento de poder. O desconhecido comporta o perigo, a inquietude, o cuidado – o primeiro instinto leva a suprimir essa situação penosa. Primeiro princípio: uma explicação qualquer é preferível à falta de explicação. Como, na realidade, se trata apenas de se livrar de representações angustiosas, não se olha de tão perto para encontrar os meios de chegar a isso: a primeira representação, pela qual o desconhecido se declara conhecido, faz tão bem que ‘é considerada por verdadeira’. Prova de prazer (da força) como critério de verdade. – o instinto de causa depende, pois, do sentimento de medo que o produz” (Nietzsche, 2005, p. 47)
A busca de tranqüilidade, de poder, para se contrapor ao medo, fez nascerem todas as explicações, desde a mítico-religiosa até a filosófico-científica. Do ponto de vista cronológico houve um período a partir do qual a interpretação Mítico-Religiosa cedeu lugar à explicação Filosófico-Científica. Mas para chegar a isso foram necessários muitos séculos de reflexão e tentativas de superação do medo.
Os primeiros seres humanos viam e conviviam com fenômenos que não entendiam. A primeira reação, sempre, era o medo. Mas, em seguida, sentiam a necessidade de entender suas causas e seus significados. Devemos nos lembrar que eles não possuíam os aparatos e os resultados que hoje a ciência oferece. Assim, aparelhado apenas com sua capacidade reflexiva, carregada de medos, os primeiros humanos desenvolveram várias explicações. Criaram mitos e religiões; deuses e demônios. Por isso surgiram tantas e diferentes explicações para as mesmas realidades..
Podemos dizer que todos os povos antigos utilizaram os mitos para explicar aquilo que não podiam compreender imediatamente, que representava perigo ou causava medo. Essa perspectiva mítica pode ser encontrada nos povos da Mesopotâmia, do Egito, como também entre as diversas nações indígenas da América pré-Colombiana. Em nossa sociedade são mais conhecidos os mitos criados pelos hebreus, descrevendo, na Bíblia, a criação do mundo, da natureza, do ser humano.
Nestas alturas você está se perguntando: o que é Mito e como ele se caracteriza?
Os mitos podem ser vistos como as primeiras tentativas que o ser humano fez para explicar fenômenos: da natureza e humanos; que lhe infundiam medo ou diante dos quais intuía a necessidade de respeito. Essas explicações, os mitos, podem ser caracterizados como uma explicação em que aparecem elementos religiosos, fantásticos e tem caráter explicativo. Nisso eles se diferenciam das lendas que são narrativas culturais e folclóricas.
Para entender melhor o caráter explicativo dos mitos, vamos ler uma breve caracterização de antigas narrativas míticas.

a- Mitos hebraicos e Mesopotâmicos.
Hebreus e Mesopotâmios elaboraram seus mitos para explicar a ação divina criando o mundo. Entre os Mesopotâmios desenvolveram-se várias narrativas explicando as origens do mundo e do homem. O mesmo veremos entre os hebreus que parece terem sido influenciado pela mitologia mesopotâmica. As narrativas bíblicas, principalmente no livro do Gênesis, podem ser vistos como uma espécie releitura dos mitos mesopotâmios. Isso se explica porque as origens dos hebreus remontam a migrações de Mesopotâmicos para a Palestina (da atual região do Iraque para o atual Israel). Entre os hebreus, no texto da Bíblia podemos ler mais de uma narrativa para o mesmo fenômeno, como é o caso da narrativa da criação do mundo e do ser humano.
Vamos comparar o mito babilônio da criação, traduzido por P. Grelott, com o mito bíblico. No mito mesopotâmico (babilônico) a criação se dá a partir do combate entre duas divindades Marduque e Tiamate. Depois de uma batalha Marduque aprisiona Tiamate e o matando-o em seguida. Com o sangue dessa divindade morta Marduque, o deus criador, forma o mundo e as pessoas.
Vamos ler isso de acordo com a tradução de P. Grelot, contando a criação dos Deuses, depois do mundo e dos seres humanos:
“Quando lá no alto, os céus ainda não eram nomeados e aqui em baixo a terra ainda não tinha nome; quando o primordial Apsu, seu criador, e a genitora Tiamate, que os gerou a todos, misturavam suas águas; quando os fardos de junco ainda não eram empilhados e os bambuais não eram visíveis; quando nenhum deus ainda tinha aparecido, nem recebido um nome, nem suportado nenhum destino, então, do seu seio, nasceram deuses.
[...]
Marduque assegurou seu domínio sobre os deuses acorrentados e voltou-se para Tiamate, que ele tinha vencido.
Com sua dava inexorável, fendeu-lhe o crânio.
Acalmado, o senhor contemplou o cadáver (de Tiamate): do monstro partido ele queria fazer uma obra-prima. Ele o separou em dois como um peixe seco; estendeu a metade para formar a abóbada dos céus, traçou o limite, colocou guardas e lhes ordenou que não deixassem sair as águas.
[...]
Marduque, ouvindo o apelo dos deuses, resolveu criar uma obra-prima. “Farei canais de sangue, formarei uma ossatura e suscitarei um ser, cujo nome será: homem. Sim, vou criar um ser humano, um homem!
Que sobre ele recaia o serviço dos deuses, para o bem-estar deles!” (Grelot, 1980, p. 30).
Como ocorre a criação do ser humano? Na mesma narrativa temos a resposta. Depois de uma batalha entre os deuses, um deles é imolado:
“Eles o acorrentaram e o seguraram diante de Eia infligiram-lhe o castigo merecido, cortando suas veias. Com o seu sangue, Eia criou a humanidade, e lhe impôs o serviço dos deuses, para libertá-los. Depois que Eia, o sábio, criou a humanidade e lhe impôs o serviço dos deuses, obra superior a toda inteligência, que realizou Nudimude, graças aos artifícios de Marduque.” (Grelot, 1980, p. 31)
Como podemos observar, os deuses mesopotâmicos estavam em constantes atritos. Na mitologia hebraica, na Bíblia, é um pouco diferente. Há apenas uma divindade agindo e criando os céus e o ser humano. Os hebreus apresentam uma divindade poderosa criando pela palavra, pacificamente.
Agora, sem entrar no mérito religioso, mas tomando os textos apenas como literatura, compare as semelhanças e diferenças entre o mito Bíblico e o mito Mesopotâmico. Vamos tomar, aqui apenas alguns versículos do capitulo I, do Gênesis (Gn, 1, 1-8; 26-28):
“No princípio, Deus criou o céu e a terra. Ora, terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo e um vento de Deus pairava sobre as águas.
Deus disse: "haja a luz" e houve luz.. Deus viu que a luz era boa e separou a luz e as trevas. Deus chamou à luz de "dia" e às trevas de "noite". Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia.
E Deus disse: "haja um firmamento no meio das águas e que separe as águas das águas" e assim se fez. Deus fez o firmamento, que separou as águas que estão sob o firmamento das águas que estão acima do firmamento. Deus chamou o firmamento de “céu” houve uma tarde e uma manhã: segundo dia.
[...]
Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem como nossa semelhança, e que eels dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra”.
Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou.
Deus os abençoou e disse: “sede fecundos, multiplicai-vos enchei a terra e submetei-a” (Bíblia de Jerusalém, 1989)
Outra comparação a ser feita, para visualizar outra narrativa mítica, é do capítulo 2, 4-25. Se olharmos os textos sem os preconceitos religiosos, observando apenas sua beleza literária, podermos observar que se tratam de narrativas distintas e com ordem diferente no processo criacionista. Poderemos ver que povos distintos e em tempos diferentes, apresentaram explicações diferenciadas sobre o mesmo fenômeno: a origem do mundo e do ser humano. Isso não invalida as crenças que cada um possa ter, mas ajuda a alargar os horizontes do conhecimento.
Como eu sei que você é esperto, sei que está se perguntando: qual é a relação do mito com a filosofia?
Alguns chegam a afirmar que o mito dá uma explicação falsa enquanto a filosofia apresenta uma explicação verdadeira, mas essa parece ser uma opinião equivocada. Assim podemos dizer que tanto a Filosofia como o mito têm a preocupação de explicar. Mas fazem isso com linguagens diferentes; podemos dizer que são dois níveis diferentes de abordagem de uma mesma realidade. Pode-se perguntar, então, o que diferencia essas duas abordagens?
Veja o que Fedro, escritor romano do século I aC, em suas Fábulas, diz a respeito dos mitos:
“Devemos atentar para o significado e não para as palavras.
A lenda de Ixião em cima de uma roda em movimento é símbolo da Fortuna que sempre se transforma e nunca repousa. Sísifo, contra a montanha, empurra, com suores, a pedra, que do cume rola sempre para baixo, anulando todo o trabalho. Isso representa a infinda miséria do homem. Tântalo, com sede, em meio a um rio, é o avarento ao qual os bens da vida lambem, mas não o envolvem. As criminosas Danaides, que carregam água, eternamente, não logram encher as jarras perfuradas.
Eis aí a luxuria que, enquanto algo dá, também esbanja.
Tácito, por nove jeiras foi sacrificado, tendo o fígado inchado com acréscimo de sofrimento. Isso revela que quanto mais bens possuir, maior angústia daí advém. Os antigos revestiam a verdade com mitos a fim de ensejar entendimento ao sábio e equívoco ao ignorante.” (Fedro, 2006, p. 105).
A explicação mítica caracteriza-se pelo subjetivo, pelo religioso, pelo fantástico e simbólico. Sua estruturação lógica não se fundamenta na veracidade, mas nas suas em sua simbologia e no fim a que se destina: dar uma explicação. Não importa se essa explicação é parcial, limitada ao tempo e às contingências do volume de conhecimento que se tem no momento específico. O valor da explicação mítica encontra-se na sua própria lógica simbólica, abrindo-se às diversas interpretações. Aceita-se ou não o mito a partir de seus elementos internos.
A explicação da filosofia baseia-se na força dos raciocínios argumentativos, racionais, impessoais. O valor da explicação filosófica fundamenta-se na coerência e na razoabilidade. A filosofia se faz a partir dos argumentos que são aceitos pela sua coerência ou refutados a partir de outros argumentos, também lógicos, coerentes e razoáveis.
A questão é saber como se dá a passagem da era mítica para o tempo da filosofia. Pode-se dizer que todos os povos, em todas as épocas desenvolveram alguma "filosofia" e algum mito, pois todos os povos procuraram, a seu modo, explicar a realidade e o mundo. Mas o que hoje os livros e as escolas chamam de filosofia, que está presente nas faculdades, nas escolas de nível médio e mesmo fundamental, desenvolveu-se aproximadamente a partir do século VII aC. no mundo grego, quando as explicações míticas tornaram-se insuficientes, limitadas e mesmo contraditórias. Isso levou os pensadores a buscarem outras explicações que tivessem por base não mais o mito, a religião, o fantástico, mas a observação objetiva dos fenômenos, a classificação das respostas, a comparação de resultados, a racionalização dos enunciados. A base, antes religiosa-mítica desloca-se para um plano racional-lógico. Esse processo aconteceu, principalmente por que os gregos começaram a comparar, as culturas dos diferentes povos: respostas diferentes, de povos diferentes, para os mesmos fenômenos, geraram um ponto de interrogação. Nascia a crítica à resposta mítica.
Com isso não se pretende dizer que a filosofia nasceu para acabar com o mito, ou que durante o período em que as respostas eram míticas não houvesse filosofia. Em sentido lato, toda vez que alguém desenvolve alguma reflexão, está "filosofando". Portanto o próprio processo de criação dos mitos era um processo "filosófico". E como filosofia é um processo de crítica constante o "pensar mítico" passou pelo acrisolamento da razão, gerando o "pensar filosófico". Também não se pode dizer que a filosofia superou o mito, mas que veio como uma alternativa a ele. O gênio humano já não se satisfazia apenas com o mito. Precisava de maior profundidade, coerência e da possibilidade de ampliar os horizontes. E isso não era possível com o mito, pois este trazia uma resposta pronta e, ao mesmo tempo, subjetiva.
É bom dizer, também, que a preocupação da filosofia não era acabar com os mitos. Mesmo por que não existe apenas uma forma de se expressar uma verdade ou um ponto de vista. Assim sendo a "verdade" mítica pode conviver com a filosófica. Também precisa ficar claro que em nossos dias o leque de manifestações míticas é tão variado como são as abordagens filosóficas, sobre uma mesma realidade.
Resumindo podemos dizer que em um primeiro momento o ser humano explicou seu mundo a partir da religiosidade. Foi a fase mítica. Quando o mito começou a ser insuficiente desenvolveu-se a filosofia. E isso foi feito pelos Gregos.
E nos dias atuais, outro passo foi dado. Além das manifestações míticas do cotidiano e das correntes filosóficas que se desenvolveram, nasceram as ciências como mais uma forma de conhecer e manusear o mundo e os conhecimentos. Mas isso veremos numa outra oportunidade.

REFERÊNCIAS

NIETZSCHE, F. Crepúsculo dos Ídolos. São Paulo: Escala, [2005]
GOMES, Roberto. Critica da Razão Tupiniquim, 5 ed. São Paulo: Cortez, 1982
GRELOT, P. Homem, quem és? São Paulo: Paulinas. 1980.
FEDRO, Fábulas, São Paulo: Escala, 2006
JASPER, Karl. Introdução ao pensamento filosófico. São Paulo: Cultrix, 1973
MORENTE, Manuel Garcia. Fundamentos de filosofia, lições preliminares. 3 ed. São Paulo: Mestre Jou. 1967

Neri de Paula Carneiro
mestre em educação
Filósofo, Teólogo, Historiador
Leia mais: http://falaescrita.blogspot.com/
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11 de mar. de 2008

Páscoa e outros bichos

Há bastante tempo venho me comentando as chamadas “datas comemorativas”. Se puder resumir tudo o que já falei sobre elas poderia dizer que, na sociedade atual, todas perderam seu sentido e significado.
Não que a data ou o evento que se comemora não tenha sentido, ou seja, insignificante. O evento comemorado permanece sendo tal e qual. O que se descaracterizou, por um lado é a compreensão do seu significado e por outro a utilização que é feita do evento. Descaracterizou porque se procurou adaptá-lo às exigências do mundo em que vivemos, onde raramente se realiza algo pela sua significação, mas porque está ”na moda” fazê-lo; isso leva à utilização da data do evento que, na maioria dos casos, ganhou uma roupagem comercializável e consumista.
Noutros casos se trata de reação vingativa. Veja você que durante muito tempo as escolas foram obrigadas a comemorar algumas datas meio na ponta da baioneta: dia do soldado, sete de setembro, entre outras. Tanto isso se fez, por imposição que atualmente, em muitos lugares, ocorre a reação inversa: não se comemora nada! E, o que é pior, nem se ensina aos estudantes o significado dessas datas. Tem estudante que não sabe diferenciar o sete de setembro do quinze de novembro. Por quê? Porque nós, professores que vivemos no período da ditadura e fomos obrigados a comemorar isso reagimos dizendo que são resquícios da ditadura. E nossa reação agora, é não falar desses eventos nem do que é significado nessas datas. E nos saímos com ares de pessoas críticas, dizendo que o país não é independente nem a república é exemplar.
Mas, desde quando se “independentiza” ou se toma um regime político como modelo de virtude sem consciência cidadã? Sem uma ação constante no sentido de convocar a sociedade para abraçar uma causa comum? A omissão não cria cidadania. A ladroeira que existe não é porque “os caras” são o que são, mas porque nós, que nos sentimos vítimas, nos fazemos de vítima e nos acomodamos na reclamação. Achamos bonito dizer que “são uns ladrões”; “são todos iguais”. Mas não nos organizamos para dar um basta...
Raramente se vê ou se realizam comemorações com o intuito de discutir a realidade – para analisar a conjuntura – como se diz nos movimentos populares. Na maioria das vezes a comemoração é feita em busca do feriado; em busca da festividade, em busca de tudo, menos da consciência cidadã, que implica em participação na decisão dos rumos da história.
E assim poderíamos analisar cada uma das principais datas comemoradas pela nossa sociedade: o dia das mães se tornou um pacote com uma fitinha e um cartão de parabéns. E está ficando pior, agora os cartões são virtuais, com o risco de chegar cheio de vírus!!! Tem até uns babacas que, na incapacidade de redigir sua mensagem a terceirizam para sites que se especializaram nisso. Ai te chega uma mensagem dizendo que “uma pessoa que você gosta te mandou um cartão virtual, para abri-lo clique aqui”. Aí você clica e abre outra página que te manda clicar noutro lugar e no outro as coisas se repetem. E aí o que faço? Excluo o cartão, sem saber quem mo enviou!
Dia das crianças virou seqüestro da sensatez em nome da imbecilidade. A criança manda e os pais obedecem, numa completa inversão de valores. A ausência constante dos pais lhes pesa na consciência e, para se redimir num gesto de compensação, dão tudo que o filho não precisa, mas que a propaganda impõe – e a criança pede – sem dar aquilo que é essencial: carinho e presença!
Natal? Virou um velhinho, gorducho, fantasiado de vermelho transportado por uns veadinhos voadores. Até parece roupa de palhaço, ou a roupa dele é assim porque estão nos fazendo de palhaços! Significado da comemoração? Sei lá! Só sei que tem peru, ceia à meia noite, e, como as casa brasileiras não têm lareira, se troca presente por meio de um tal de “amigo secreto”
No mesmo ritmo vai a Páscoa. Esta festa, me parece, está sendo a que mais evoluiu tendo chegado ao mais alto ponto do contra-senso Virou festa de um absurdo genético: criaram um coelho capaz de “botar” ovos de chocolate. Nem o doutor Frankstein concebeu uma aberração tão grande. E olha que o homem havia criado um monstro monstruoso, mesmo.
Sinceramente não sei explicar por qual processo da mais moderna engenharia genética reprogramaram esse pobre animal para ser fecundado por um galho do cacaueiro. E agora o animalzinho sai por aí, acredito que ainda saltitante, procurando ninhos para desovar. As primeiras ninhadas já chocaram, pois quando a gente “anda andando” pelas ruas pode ver, em várias lojas, embrulhadinho em papéis de disfarce, coelhinhos de chocolate... dos mais diferentes sabores. Alguns ainda são bebes, outros já cresceram...
Sobre o significado dessa festa? Quem é que se interessa por isso?
Deixe aquelas beatas que chorem pelo deus morto, sem perceber a força viva do Deus da vida. Deixa que uns tantos se fantasiem num espetáculo grotesco para mostrar um rapaz singelo e coerente com suas idéias, ser assassinado numa cruz, sem perceber o significado político e espiritual do seu gesto. Deixa que se comemore a sexta feira, sem se dar conta de que o importante não é o “não comer carne na sexta-feira santa”, mas o não deixar que a “carne nos consuma”. Deixa que pensem que tudo é só um grande teatro sem perceber que se trata de um dos mais radicais convites à revisão de vida e proposta de transformação pessoal e social.
Deixa que tudo permaneça como está, pois tende a piorar........
E agora, para encerrar, votos de Ressurreição, numa Feliz Páscoa!
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
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6 de mar. de 2008

Leitura de férias

Já faz algum tempo que me coloquei uma atividade para o período de férias: ler!
Não que não leia durante o restante do ano nem estou querendo dizer que outros não lêem. O que estou querendo dizer é que, já faz algum tempo, me dei a tarefa de ler não qualquer livro ou revista, mas eleger um autor e ler, descompromissadamente, o máximo de obras dele, durante o período de férias: desde o encerramento das aulas, no final do ano até o reinicio, no começo do outro ano.
Portanto, não se trata de estudar, mas de ler, para saber a quantas anda a produção literária de determinados autores. Foi assim que já passei por Jorge Amado, Machado de Assis, Marx, Platão, entre outros. Este ano elegi um sujeito que sempre admirei: Nietzsche. E não é que o cara é bom mesmo (Lembrando, mais uma vez, não se trata de atividade de estudo, mas de leitura diletante em período de férias! Trata-se de uma leitura pelo prazer e não pela obrigação profissional).
E já que li, e gostei, não custa nada compartilhar algumas palavras desse alemão que morreu justamente no final do século XIX.
Veja só o que disse para iniciar um de seus livros: “A GENEALOGIA DA MORAL”. Trata-se de algo que se aplica a nós que trabalhamos com as idéias: “Nós os pesquisadores da área do conhecimento, nos desconhecemos mutuamente. Isso por um motivo específico. Nunca nos procuramos...”. Talvez esse tipo de afirmação não diga muito a muita gente, mas a quem se dedica ao estudo e à discussão das idéias, ao ensino... é um puxão de orelha e tanto: não conhecemos nossos contemporâneos e arrotamos os ranços de pensadores do passado; não nos conhecemos pois não nos procuramos e, conseqüentemente, não nos respeitamos, nem nos admiramos com o que o outro disse. O que é pior, e isso vale para todas as profissões: muitas vezes não conhecemos os colegas com quem convivemos e trabalhamos. Passamos várias horas do dia com nossos colegas de trabalho e não os conhecemos...
Triste mundo este: mundo dos desconhecidos. De solitários...
Outra sacada maravilhosa, que pode ser aplicada a todos os que pensam dominar muitas informações, mas não se dedicam a sua busca. Diz ele, no mesmo livro, chamando a atenção para a necessidade de método de estudo, antecipando em mais de 100 anos nossa crise educacional: “é verdade que, para praticar a leitura como uma arte, é necessário antes de mais nada, possuir uma faculdade hoje muito esquecida [...], uma faculdade que exige qualidades bovinas e não de um homem moderno, ou seja, ruminação”.
No corre-corre a que somos atirados, não nos sobra tempo para refletir... E aí podemos nos perguntar e, quem sabe, entender, por que somos uma geração de analfabetos: nos falta a capacidade da “ruminação”. Na ânsia do fazer não nos sobra tempo para a tranqüilidade de ser!
“ASSIM FALOU ZARATUSTRA” é um livro que merece ser relido várias vezes. Depois de vários anos retornei a ele, agora numa leitura de férias. Veja o que anotei sobre nós que somos ensinadores e aprendizes. Diz Zaratustra, admoestando aos que se perdem repetindo o que outros disseram sem se dar ao trabalho de produzir o seu próprio pensar: “Recompensa mal um mestre quem se contenta em ser sempre discípulo. E por que não ousam destroçar minha coroa?
Vocês me veneram. Pois bem, e se um dia sua veneração tivesse de sucumbir? Cuidado para que não os esmague uma estátua! [...].
Você não haviam ainda procurado a vocês próprios, então me encontraram. Assim fazem todos os crentes: por isso vale tão pouco toda fé.
Agora lhes ordeno que me percam e se encontrem a vocês mesmos”
Noutra momento diz que “cada povo inventou a sua própria língua, segundo os costumes e a justiça.
Mas o Estado mente em todas as línguas do bem e do mal; e, qualquer coisa que diga, mente – e qualquer coisa que possua, roubou-a” Percebeu a atualidade dessa reflexão do Zaratustra, há mais de 100 anos?
Quer mais? Em “ECCE HOMO”, entre outras coisas recrimina a moralidade amordaçante: “A única moral que se ensinou até hoje, a moral da renúncia, traz uma vontade de aniquilamento, nega radicalmente o próprio fundamento da vida”
Muita gente se acha dona de todo saber. Em razão disso vê tudo e todos como errado. Para esses, seu ponto de vista é o único correto:: “seja qual for o ponto de vista filosófico em que nos coloquemos hoje, em toda parte o caráter errôneo do mundo no qual acreditamos viver nos aparece como a coisa mais certa e a mais sólida que nossa visão possa captar”, escreveu em “ALÉM DO BEM E DO MAL”
Não quero cansá-lo com tudo o que disse nem fazer julgamento de ninguém. Mas é um fato que muitas vezes nos acomodamos em nossos próprios pontos de vista e por isso não nos damos conta da riqueza que está por aí: nas leituras que podemos fazer; nas troca de idéias que podemos desenvolver; nos debates que podemos travar...
Agora retomo o que disse no começo. Minha intenção é apenas partilhar algumas linhas do que disse um pensador polêmico. Não para minimizar outras pessoas, mas para promover o debate. Principalmente porque esse pensador, Nietzsche, apesar de ter morrido há mais de 100 anos é atualíssimo. Questões que ele levantou, principalmente em relação à moralidade, permanecem candentes e pedindo posicionamento.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
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Ser Estudante

Neri de Paula Carneiro - neri.car@hotmail.com
Roteiro para palestra aos estudantes da FAP
Semana Acadêmica 04/03/2008

Em clima de começo de ano não é muito es-tranho que iniciemos uma conversa sobre uma temática recorrente: Trata-se do ser estudante. E, particularmente do estudante universitário. O que vem a ser essa realidade tão falada e nem sempre entendida: o estudante?
Vamos começar fazendo algumas ressalvas ao nosso tema. E começamos nos perguntando: devemos tratar do Ser Acadêmico ou do Ser Estudante?
Nós nos acostumamos a dizer que aquela pes-soa que venceu o monstro do vestibular e ma-triculou-se numa faculdade é acadêmico.
Mas o que é isso que se convencionou como Acadêmico?
Nas suas origens gregas a palavra se vincula a Platão que tinha uma escola denominada “A-cademia”, por se localizar num jardim dedica-do ao herói “Academus”. Foi uma escola di-nâmica tendo formado inúmeros pensadores. Um dos mais conhecidos foi Aristóteles. Na porta da academia de Platão havia uma placa: “Não entre se não for geômetra”. Note que embora fosse uma escola dinâmica, era, tam-bém, restritiva: restringia-se aos geômetras.
Se olharmos para o dicionário (o Aurélio, por exemplo), veremos o seguinte: Acadêmico: “Diz-se do artista ou da obra de arte que se conserva presa às regras e ao gosto do aca-demismo, numa concepção estética imobiliza-da, alheia às novas correntes de expressão”; e mais: “diz-se de manifestação artística ou cultural de um convencionalismo estreito, hostil a qualquer inovação” (Destacando que Academismo é uma ou corrente estética do século XVI que condenava as inovações e preconizava o retorno aos padrões clássicos da Antiguidade. Está, pois, inserida no contexto do Renascimento que, apesar de todas as ino-vações que produziu, neste caso produziu não um avanço, mas uma postura retroativa).
Atualmente entendemos como acadêmico é aquele que está ou que pertence à academia. E aqui a coisa se complica: entre nós academia não tem uma conotação gostosa, bonita, jovial, inovadora. Não tem aquele som jovem, alegre, descontraído, comprometido, inquieto como quem está na constante busca de algo... ainda meio indefinido... Por isso acadêmico e aca-demia, entre nós tem um ar meio rançoso e elitizado. Lembremo-nos da Academia Brasi-leira de Letras. Seus membros são até chama-dos de imortais. Mas nem sempre os melhores escritores são os membros da Academia Brasi-leira de Letras.
Assim sendo nos parece que ao invés de aca-dêmico, aquele que se arrisca num curso em uma faculdade poderia ser mais bem descrito como estudante.
Outra vez, precisamos nos socorrer com uma ajuda do “Aurélio”. Aí teremos a afirmação de que estudante é aquele que estuda. E o que é estudar?
A lista do dicionário é enorme. E não é depre-ciativa: “aplicar a inteligência para apren-der”; “dedicar-se à apreciação, análise, ou compreensão”; “freqüentar um curso”... estas acepções estão mais próximas de nós e do que fazemos. Quando somos integrantes disso que chamamos de “curso superior” estamos num ambiente em que um dos principais elementos é a BUSCA. Não é a toa que se fala do tripé da universidade: ensino, pesquisa e extensão. Sendo que a pesquisa é o ponto de origem das informações a serem ensinadas na sala de aula e a extensão um caminho pelo qual as inova-ções da pesquisa são levadas à população.
Mesmo assim, podemos dizer que popular-mente existem duas concepções sobre o ser estudante. Há dois “enfoques”: um meio ma-ledicente que vê o estudante como um ser meio moleirão, matreiro, malandreante. Um ser meio indefinido que está ai só por estar, aparentemente descomprometido com seu curso e com a vida e, pior ainda, descompro-metido com as questões sócio-político-econômicas do país, do estado, do município.
A outra forma de visualizar o estudante é as-sociando-o ao movimento estudantil. Ao his-tórico do movimento estudantil que mexeu com as bases da ditadura militar. Que apontou e que ainda hoje procura alternativas para a melhoria do sistema escolar de nosso país. Nesta visão a idéia que se forma sobre o ser estudante é de alguém que não está por estar, mas está inserido numa sociedade e num gru-po que busca “algo a mais”. Aqui está presen-te a idéia de desenvolvimento pessoal e coleti-vo.
Quando nos referimos ao estudante estamos me referindo à segunda concepção que tam-bém se aproxima do que está nos dicionários. Estudante, neste ponto de vista, é uma espécie de sinônimo de dinamicidade. É alguém que, contra todas as expectativas, ainda acredita que pode construir um mundo melhor a partir de seu crescimento pessoal.
Vamos então, buscar algumas características do estudante, ou do ser estudante.
E aqui entra mais um elemento. Gostaria de dizer que aquilo que caracteriza o estudante deveria ser aquela atitude de Sócrates: andar pelas ruas e praças em busca dos saberes, aprendendo na gratuidade do puro gosto e sabor do saber.
Alias gostaria que essa fosse uma característi-ca de nós todos: estudantes e professores. Gostaria que a nossa mais marcante e definiti-va característica fosse a busca gratuita, dinâ-mica, constante do saber. Para que dissessem de nós o que se diz terem dito de Pitágoras: O rei Creonte teria perguntado a Pitágoras: “ouvi dizer que andas por aí como que a “Filoso-far?” E Pitágoras teria respondido. “Sim, mas eu não sou o ‘sófos’ [sábio]; sou apenas um ‘Filo Sófos’ [amante do saber]”. Nossa postura deveria ser, também, essa de andar filosofan-do, mas com a consciência de que não somos sábios.
Gostaria que todos nós assumíssemos a postu-ra de Pitágoras: não somos Sábios, mas pesso-as que vivem na busca da sabedoria. E com isso todos nós seriamos filósofos: aqueles que vivem, não pelo saber, mas pela busca do sa-ber. Com a consciência de que é saber que move o mundo, pois o saber produz conheci-mentos que produzem tudo aquilo de que ne-cessitamos.
Entretanto, dentro de nossa cultura, isso não é possível. Eu não seria honesto nem comigo nem com os estudantes. Nossa sociedade não mais vive pela busca do saber, mas pela von-tade de ter; a essência perde espaço para a aparência.
Portanto ao invés de falar daquilo que deveria ser, sobre o ideal, vamos comentar algumas características do real. Querendo, cada vez mais, estarmos preparados para sermos agen-tes no mundo e não simplesmente recebendo aquilo que o mundo e a sociedade nos im-põem. Como estudantes concretos, e não ide-ais, estamos aqui em nosso processo de busca.
Não nos esqueçamos que estamos inauguran-do um novo século. E ele tem exigências que nem sempre estiveram presentes no cotidiano da humanidade. Daí que nos vem a questão: o que é Ser Estudante, nos dias atuais?
Primeiramente não vamos nos prender ao ser como aquela categoria filosófica que remon-ta a Aristóteles. O que caracteriza o Ser Es-tudante, aqui para nós, são algumas atitudes que caracterizam o estudante; atitudes que lhe permitem transformar-se, diariamente, em alguém melhor. E para isso uma coisa é indis-pensável: ou seja, ser estudante. E o que é ser estudante? Ser alguém que estuda.
Muita gente se matricula; freqüenta as aulas; muitos até tiram excelentes notas. Mas não são estudantes. Não são pessoas dispostas e querendo aprender, sempre e cada vez mais! Não estudam... passam pelo curso e recebem um diploma... mas permanecem fechados em seu mundinho: não procuram nem aceitam o novo nem os novos desafios. Não são estudan-tes, mas acomodados.
Em segundo lugar podemos dizer que não é estudante aquele que vai apenas se fazer pre-sente no ambiente da academia. Estudante se caracteriza pela atitude de quem é inconformado com o que está pronto; inconformado em busca das novidades; inconformado com aquilo que tem cheiro de coisa velha. Estudante quer novidade. E as novidades não nos procuram. Nós é que precisamos procurar por elas; correr atrás delas. Principalmente nos dias de hoje em que as novidades envelhecem muito rapidamente.
Lembremo-nos da música, antiga, mas atual: “Mágoa de boiadeiro”, cantada por Pedro Bento e Zé da Estrada: No lamento do boia-deiro “que perdeu a profissão” há “saudade” e “solidão”. Por não se ter preparado para con-viver com o progresso que é sempre portador de novidades, agora é vítima dele: “Por tudo isso eu lamento e confesso que a marcha do progresso é a minha grande dor / Cada jamanta que eu vejo carregada transportando uma boiada me aperta o coração”
Além disso, o estudante valoriza aquilo que é tradicional. Pode parecer contraditório, mas não é. Tradicionais são aquelas realidades que se firmaram e afirmam, pela qualidade, ao longo dos tempos. É tão bom que não enve-lhece. Nada melhor, para ilustrar isto do que a música. Basta nos lembrarmos de quantos grupos musicais estouraram; fizeram o maior sucesso. Mas pouco tempo depois ninguém mais se lembra deles. São casos de música descartável com prazo de validade curto. Em contrapartida existem músicas tão boas que fizeram sucesso quando foram lançadas, fo-ram regravadas e relançadas várias vezes: são tradicionais. Outro exemplo: a Bíblia é um escrito de pouco mais de 3 mil anos; os vedas, dos hindus, tem 5 mil anos... não envelhece!
Com isso chegamos a uma quarta característi-ca do estudante: alguém antenado no seu co-tidiano e no mundo. Quem não está por dentro do que anda acontecendo, está fora. Não tem espaço no mundo estudantil e nem no mercado de trabalho.
Há poucos dias ouvi de um próspero empresário de nossa região a seguinte afirmação: “nós nos acostumamos a ouvir que os últimos serão os primeiros. Mas não é verdade. No mundo dos negócios, os últimos serão descartados. Só tem espaço para os primeiros, os melhores”
Cabe lembrar aquela história que é contada em treinamento empresarial, em que duas pessoas, passeando pela selva se defrontam com um leão faminto. Um dos dois se põe a correr e o outro, calmamente, calça um tênis de corrida. O primeiro argumenta; “você pensa que vai correr mais que o leão, com esse tênis?” E o outro: “Não preciso correr mais que o leão. Só tenho que correr mais que você”. O ambi-ente da competição é desumano.
Isso nos leva à uma outra característica do estudante e do processo da vida acadêmica: preparação para o mercado de trabalho. Nas primeiras aulas os professores costumam perguntar aos alunos: por que vocês estão es-tudando? Resposta ensaiada: “para conseguir algo melhor”. Mas isso é pouco. Antes de conseguir “algo melhor” a pessoa tem que ser melhor. Tem que ser mais gente. O mercado de trabalho está repleto de bons profissionais, mas poucos têm a qualidade que mais se pro-cura: gente! Gente que trabalha com o cora-ção. No mercado de trabalho o espaço está aberto para quem tem além de capacidade racional, capacidade emocional. E os estudan-tes precisam desenvolver isso, também. Em-bora o ambiente seja tremendamente racional, ao estudante cabe desenvolver suas capacida-des emocionais. “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”, dizia a rapo-sa ao Pequeno Príncipe.
Cabe mais uma característica. Estudante é solidário, amigo. Numa sociedade de indivi-dualistas e egoístas, tem espaço para quem se preocupa com o outro. É imprescindível se dar o trabalho de conhecer as pessoas, para criar laços. Lembremo-nos das palavras da raposa ao princepezinho: “A gente só conhece bem as coisas que cativou. [...]. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Com-pram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, as pessoas não têm mais amigos; se queres um amigo, cativa-me”.
Vale a pena lembrar a história do ratinho que, desesperado, procurou a galinha, o porco e a vaca para avisar que havia uma ratoeira na sede da fazenda. Não lhe deram ouvidos. Mas ao ser armada a ratoeira prendeu uma cobra venenosa que picou a mulher do fazendeiro. Seu marido matou a galinha pra fazer ensopa-do para a esposa; como não sarou, matou o porco para alimentar os vizinhos que vinham visitar a enferma que acabou morrendo. Quando morreu, o fazendeiro matou a vaca para alimentar a todos. Só o ratinho permane-ceu com vida. Tentou ser amigo, mas não en-contro solidariedade.
Além disso, o estudante precisa ter mais uma característica: ser leitor. Leitor atento, dos textos e do mundo. Nos textos buscará as in-formações que lhe permitirão crescer em sa-bedoria para ler o mundo. O mundo é um livro que precisa e deve ser decifrado. A linguagem dos livros precisa ser decifrada pela leitura cotidiana. A linguagem do mundo pode ser entendida pelo silêncio e pela proximidade: quem se faz próximo entende a linguagem do silêncio. Mais uma vez ouçamos as palavras da raposa, ao pequeno Príncipe: “eu te olharei com o canto dos olhos e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal entendidos”. Mas o leitor consegue perceber as nuances de cada situação. Se não perceber é por que ainda não aprendeu a ler.
Isso nos leva a mais uma característica: a per-sistência e perseverança. Não se chega a lugar algum se não se colocar a caminho. É no caminhar que se superam as dificuldades. E, o que é mais importante. O homem não se faz pela facilidade, mas pelos problemas, pela superação das dificuldades. A humanidade chegou ao ponto em que está, não por que existiram condições favoráveis, mas porque não havia condições.
Para ilustrar isso alguns versos da música “Até o Fim” do Engenheiros do Havaí: “Não vim até aqui /Pra desistir agora! Entendo você / Se você quiser ir embora... / Não vai ser a primeira vez / Nas últimas 24 horas / Mas eu não vim até aqui / Pra desistir agora!... / Minhas raízes estão no ar / Minha casa é qualquer lugar / Se depender de mim / Eu vou até o fim... / Voando sem instrumentos / Ao sabor do vento / Se depender de mim / Eu vou até o fim...”
As características do estudante poderiam ir se sucedendo. Mas com essas podemos nos pre-parar. Não para a formatura, mas para entrar no mundo do estudo. Um mundo que só tem porta de entrada.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
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13 de fev. de 2008

Pensando o Amor

Everaldo Lins
filósofo

" (...) Agora, pois, permanece a fé, a esperança e o amor, estes três porém o maior destes é o amor" (Paulo.1Co.13,13).

O apóstolo Paulo eleva o amor a uma posição de destaque diante mesmo da fé, o que pode até nos parecer estranho. E é exatamente esta estranheza em relação ao amor que nos leva a indagar sobre ele.
As perguntas básicas: O que é o amor? Qual a sua natureza? O que o faz tão desejado? Por que o ser humano anseia incansavelmente por ele? São questionamentos de caráter filosóficos, portanto problemáticos quanto a uma resposta satisfatória e única. Para cada efêmera e possível resposta, surge um oceano de questões abertas e fundamentais.
O tema do amor sempre foi objeto de reflexão, continuamente ocupou e ocupa o pensamento de muitos estudiosos, no intuito de compreender como o fenômeno amoroso se comporta,se expressa a partir de quem com ele se relaciona, de forma implícita ou explícita.
Para compreender um conceito, em certa circunstância, é conveniente recorrer aos préstimos da etimologia. Vejamos: Embora saiba-se que a palavra amor venha do Latim "amor" com o sentido de afeição, amizade, "paixão", "desejo", gosto, querer etc.; estudiosos supõem que a raiz "am" se liga aos vocábulos "hómos" (do grego) significando semelhante , "am" (do sânscrito) com a idéia de honrar e "ham" (do hebraico) querendo significar queimar. Associado a essas idéias, Orsini cita Andreas Capellanus: "O amor rouba seu nome da palavra gancho (amus) que significa capturar ou ser capturado, pois aquele que ama foi capturado na malha do desejo e aspira do mesmo modo a capturar alguém. Tal como o hábil pescador busca atrair peixes com sua isca e capturá-los com envergado anzol,da mesma forma o homem que prisioneiro do amor tenta atrair o objeto de sua afeição com seduções e empenha todo o seu ânimo na união de dois distintos corações com indissolúvel laço, ou então, se os vê já reunidos, envida esforços em mantê-los assim para sempre".
Entende-se, dessa forma, que a própria noção de amor, a partir dos possíveis étimos, abre perspectiva para várias nuances significativas.
No amor há tipologia,são as várias formas através das quais o amor se expressa.Em Latim, é possível perceber o fenômeno amoroso se manifestando de quatro formas : a) "amor" o amor propriamente dito, b)"cupidu" o amor desejo,amor ardente c) "dilectio" o amor zelo,amor cuidado,amor escolha, d)" caritas" o amor ternura.
No Grego, a manifestação amorosa tem cinco aspectos, cada um com uma riqueza e sutilidade de significado, ei-los: a) "páthos" o amor desejo, b) "éros" o amor sensual, c) "stérgethron" amor paternal, d) "philia" amor amizade e) "agápe" amor ternura.
No arremate da tipologia amorosa, eis as quatro maneiras de amar proposta pelo filósofo Pseudo-Dionísio Areopagita : "...as coisas inferiores amam as coisas superiores voltando-se para estas; que as iguais amam as iguais comungando com estas; que as superiores amam as inferiores provendo-as , e que cada qual ama a si mesma conservando-se"
Essa visão racional do fato amoroso proporciona uma compreensão das várias facetas da dimensão mais profunda do ser humano e das coisas que estão ao seu redor, dando-lhe consciência do que ocorre em si mesmo.

A qualidade necessária

Neri de Paula Carneiro
Filósofo, teólogo, historiador
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Não podemos permanecer apenas nos reunindo e falando sobre os problemas. É necessá-rio refletirmos sobre a nossa pratica de professores, que alguns chamam de educadores. É preciso analisar o que queremos com o nosso SER PROFESSOR. O que nos leva a ser o que somos? Ou não somos o que dizemos ser?
Primeiramente precisamos nos lembrar que não somos apenas profissionais de educa-ção, mas colaboradores num processo de formação de homens e mulheres. Somos co-responsáveis pelo futuro de jovens que diariamente param à nossa frente para nos ouvir. Mas pecamos contra esse futuro quando queremos que apenas nos ouçam. Como professores, pre-cisamos falar, pois professor é aquele que “pro-fere” (fala diante de). E se supõe que quem se propõe a falar diante de uma classe de alunos tenha algo que professar É inconcebível um professor que não tenha conhecimentos a serem partilhados. Assim sendo, se não tens o que dizer não se faça professor!
Por outro lado, e para podermos direcionar o nosso “professar” precisamos, também, sa-ber ouvir o que dizem os alunos. Não é redundância lembrar que uma das acepções do vocá-bulo latino, aluno, significa “sem luz” e, portanto, receptivo à luz da fala daquele que se colo-ca à sua frente, o professor; o aluno é aquele que se coloca na posição de quem aprende. Isso implica dizer, também, que o próprio professor é um aprendiz, ou não é professor!
Daí vem o segundo ponto de reflexões, não menos importante que o primeiro. Como professores não somos senhores absolutos da verdade. Temos muito que ensinar – ou não se-riamos professores. Mas com qual metodologia? Precisamos, portanto, rever nossa mentalida-de, nossas posturas, para evitarmos o risco de nos considerarmos semi-deuses e subirmos em um pedestal de onde os alunos (os sem luz) virão nos adorar e beber da fonte do nosso saber. Reformular nossa maneira de pensar significa nos fazermos acessíveis aos nossos alunos. A-cessíveis não só ao nível da linguagem (falar e explicar de forma clara), mas principalmente como amigos. O processo do ensino aprendizagem não é uma guerra em que vence o que tem maior poder de fogo, mas uma relação de complementaridade em que o professor se comple-menta no aluno (só é possível falar a alguém quando tem alguém para ouvir!) e o alunos se complementam no saber do professor (só pode ser aprendiz quem não sabe, pois aquele que já sabe já aprendeu!)
E assim chegarmos a um terceiro ponto de reflexão. Algo que é fundamental em nossa ação neste caminho de amizade. Não entramos em uma sala de aula APENAS pelo salário (Exigimos remuneração condigna, mas isso não é tudo!). Da mesma forma que um médico que trabalhasse apenas pelos seus honorários seria um assassino, o professor que assim proce-desse seria mercenário. Da mesma forma que é inconcebível a prática de um médico que não queira, urgentemente, a cura de seu paciente, é impensável o professor que não deseje a a-prendizagem de seu aluno. E justamente por isso é que precisamos ser exigentes. Exigir que nossos amigos (alunos) saiam da escola sabendo aquilo que ensinamos. Não podemos permitir que nossos alunos tornem-se profissionais medíocres porque fomos relapsos ao ensinar. Te-mos que ensinar, portanto, com a qualidade de exigir qualidade de aprendizado. Havendo a-prendizagem acontece, conseqüentemente, aprovação.
Neste ponto reside a grande questão. Como professores, como amigos e como profissio-nais que prezamos nossa ação de ensino, não podemos consentir um sistema escolar que privi-legia as estatísticas. Temos visto nosso país representando um feio papel diante dos organis-mos internacionais. A quê se deve isso? Às políticas das estatísticas: inconcebivelmente nós professores cedemos às políticas que desejam altos índices de aprovação, mas não cobram altíssimos índices de aprendizagem. Somos obrigados a ceder às pressões que nos fazem nos finais de bimestres, de semestres, de ano letivo, quando nos cobram índices de aprovação sem nos cobrar aprendizagem! Com aprendizagem há aprovação, mas a política dos índices de aprovação não está preocupada com a aprendizagem.
Prova isso o fato de que tempos atrás a “média” para aprovação era sete. A necessidade de altos índices de aprovação abaixou a média para seis.
Por esse motivo vemos alunos serem aprovados sem conhecimento. Chegam e saem das escolas, analfabetos. Não porque não haja trabalho do professor, mas porque existe um siste-ma malformado, mal intencionado. Levantem as mãos, os professores, sérios naquilo que fa-zem, que nunca tenham sido, de alguma forma pressionados para aumentar seu “índice de aprovação”. Qual professor que nunca ouviu, depois de uma reunião de “conselho de classe”, comentários como: “seus alunos estão com nota muito baixa, professor”, ou “mas todos esses não alcançaram a média?”. Evidenciando que existe preocupação em alcançar a média e não com a aprendizagem, pois, repetindo, quem aprende tem nota, até acima da média. Não po-demos nos esquecer que a média é medíocre.
Podemos assim voltar à questão: o que queremos com nosso ser professor? Como anda nossa capacidade de ouvir as aspirações de nossos alunos? Estamos buscando novos conhe-cimentos, mantendo-nos atualizados? Ou nos acomodamos na aprovação mediana exigida pelo sistema que só quer estatísticas? Com que metodologia ensinamos? Para onde estamos conduzindo nossos alunos?
Não nos esqueçamos que a dimensão educativa da ação do professor depende do que se chama ensino-aprendizagem. É por meio dela é que atingiremos a qualidade necessária.

21 de dez. de 2007

Fechando para Balanço

Neri de Paula Carneiro – Filósofo, teólogo, historiador
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Nestes tempos de fim de ano, é comum fazermos balanços, avaliando a quantas anda nosso final de estoque.
Muitas vezes nos orgulhamos – ou nos envergonhamos – pelo que realizamos; agradecemos por não ter realizado algo que poderíamos ter feito e que parecia bom, mas que, depois constatamos, não o seria tanto assim; ou lamentamos por ter deixado de fazer algo que parecia péssimo, mas que, no transcorrer do processo, constatamos que teria sido excelente...
Nestes tempos de fim de ano é tempo em que fazemos avaliações em função do passado – ao quê não temos mais acesso e não há como recuperar, nem reviver, nem concertar... é tempo de sonhar com o que queremos e, em função disso, planejar o futuro – realidade sobre a qual também não temos acesso, na qual não podemos mexer, nem tocar... só sonhar, com o risco de acordar num pesadelo!
Muitas vezes nos deparamos com nossas energias concentradas no passado, ou no futuro, sem forças para viver o já... que já foi... e quando nos damos conta percebemos que o instante que vivemos é fluído demais ao ponto de nem o percebermos claramente, sobrando-nos o lamento... ou o agradecimento. E, novamente constatamos: não temos tempo...
Nestes tempos de fim de ano é quando mais nos damos conta de que não temos tempo!
Muitas vezes, em razão da falta de tempo, nos desesperamos pelo tanto que sonhamos fazer enquanto constatamos que não será possível realizar... ou, por percebermos que não dá tempo, deixamos de fazer o que podemos... e, nos dois casos, deixamos de viver intensamente o instante fluído do instante em que vivemos.
Nestes tempos de fim de ano, também olhamos para o mundo e constatamos, estarrecidos, quão errado tudo está. Tantas malandragens se impondo sobre nossos, e de outros, honrados esforços para conseguir um lugar ao sol.
Muitas vezes nos vem aquela vontade, ou mais que vontade, de jogar no lixo todos os valores nos quais fomos formados e aos quais nos agarramos para sobreviver e nos dar objetivos. Isso ocorre, principalmente, quando vemos aquele salafrário de nosso colega de trabalho se dando bem, surfando na malandragem... e nós, afogados na honestidade, na lealdade, no altruísmo... nos damos conta de que não passamos de pedra de tropeço... não passamos de degraus que outros estão usando para chegar lá onde nós temos certeza que deveríamos estar, não por puxasaquismo, ou apadrinhamento, mas por mérito e capacidade.
Nestes tempos de fim de ano é quando, com mais ira, nos sobrevém aquela triste constatação de que precisamos, com urgência, rever nossos conceitos, nossos valores, nossas expectativas sobre o mundo e as pessoas... É quando, com a mais pura transparência, percebemos, num clima de paz, harmonia, festividade, a essencial maldade humana. É quando vemos a constante ausência ser compensada com presentes que deveriam ser uma forma de manter a presença do presenteador ao presenteado, mas acaba sendo uma confissão de que nada vai mudar e as pessoas permanecerão isoladas em seus mundos mesquinhos.
Muitas vezes constatamos que o clima natalino e o de sonho de paz e fraternidade que se atribui à passagem de ano, nada mais é do que uma forma de manter e alimentar o comércio. É quando aumentam os lucros e não o processo de construção de mais humanização. É quando nos vem a mente a letra daquela música natalina:
“O tempo vai passando sutilmente
De repente,
A gente lembra que o natal
Já vai chegar...”
Nestes tempos de fim de ano é quando percebemos a fluidez do tempo que se esvai, como o sangue de nossa artéria-vida que verte inexoravelmente, nos levando para um encontro definitivo. Para fugir disso é que as pessoas fazem o que diz a continuação da mesma música:
“A praça apareceu iluminada
Na calçada
O povo pensa que em pacotes
Compra a paz”
Muitas vezes somos enganados e noutras tentamos enganar, ou nos enganar, dizendo ou fazendo de conta que o clima festivo do final do ano dará conta de resolver, como se fosse um truque de magia de mau gosto, todas as mazelas nossas, das pessoas com quem convivemos e do mundo. Mas nos pacotes de presentes que trocamos, não está aquilo que mais almejamos e com o quê sonhamos. Nos pacotes trocados, presentes dados e recebidos, está somente o gosto amargo da ausência, e uma confissão/constatação: ainda não fomos capazes!!!
Muitas vezes temos visto, ano a ano, os fins dos anos chegarem. E, como sempre, neste fim de ano veremos o fim anunciando o começo. E nestes tempos de fim de ano seria bom, e isto já é mais um sonho de fim de ano, se fossemos capazes de não criar sonhos a mais, mas traçar metas e cumpri-las. Teríamos que nos dar conta de que nosso problema não é a falta de metas, mas o não cumprimento de metas traçadas.
Nestes tempos de fins de anos, com o estoque reduzido, poderíamos não fechar para balanço, pois teremos que reabrir... e, depois do balanço, anda teremos o estoque antigo...

14 de dez. de 2007

Adolescente dá a luz

Neri de paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador - Rolim de Moura
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Inacreditável!
Um fato esplendoroso!
Aconteceu há mais de 2000 anos.
Parece ser mentira.
Mas aconteceu!
Aconteceu para ser um evento de paz num canto do mundo que ainda clama pela paz. E embora esse canto do mundo tenha se tornado um centro, não é, ainda, um centro que irradia paz.
Mas aconteceu. E foi numa cidadezinha, perdida entre as montanhas da Palestina. Foi em Belém, na Judéia. Numa época de recenseamento. Numa situação de pobreza extrema. Numa época de conflito e de insegurança. Foi aí que uma jovem, recém-casada com o carpinteiro José, se alojou.
José e a jovem senhora saíram de sua terra para se alistar. As circunstâncias e a necessidade os levaram a alojar-se nos arredores de Belém. Num lugar público, para que o fato se tornasse mais público!
Sem casa. Sem terra. Sem teto, alojaram-se naquela gruta: espécie de estrebaria. Noite fria!
Todo mundo já notava aquela barriga: gravidez avançada! Todo mundo notava, e falava: sem casa... por que deixar nascer?... sem terra... irá sobreviver? Sem nada... nada impede que seja mais um menor carente. Padecente. Mais um filho da pobreza. Mais um menor que já nasce etiquetado, marginalizado, rotulado. Noite fria!
Gravidez avançada, ela já cansada. O jovem casal dialogante, dialogando aloja-se, marginalizadamente, ente os marginais. Nas margens da cidade que os marginaliza. Estão sós ma não a sós... e só os marginalizados, os sem nome, os mais miseráveis é que os acolhem.
Noite fria! Noite de incertezas! Noite de angústias!
A jovem senhora, cerca de 14 anos, não mais, está apreensiva: a tensão da viagem, dúvidas do porvir... quê virá, a seguir?
Mesmo assim, no meio de incerteza a jovem senhora, Maria é seu nome, sonha... e acredita!
Sonha esperanças milenares e acredita com saudades do futuro: os pobres serão exaltados... Os famintos serão saciados.. Os ricos de mãos vazias... Mas quando?
A noite é fria! As pessoas são frias! É noite... É a noite escura das incertezas...
Gravidez avançada! Noite de dúvidas! Noite de expectativas! Um sonho! O sonho é esperança! A esperança quer brilhar! E os menores? E os sem casa? E os sem terra? E os que nem chegam a nascer? E os que nascem só para morrer? E os sem futuro? É noite escura... e nesse escuro é que se espera uma luz...
A jovem senhora, nos braços da pobreza, sonha! Até quando isso?
A gravidez é um sonho! A gravidez é uma esperança!
Mas é noite... e na noite se sonha e os sonhos na noite são dores. O parto: as dores do povo sofrendo. Sem casa, sem terra, sem nome... com fome!
As dores! Uma dor brilhante! A noite grita: as dores da miséria, dos menores abandonados...! A jovem senhora estremece, soluça com o pranto de seu povo, mas sonha e crê. Mais do que sonho, ela tem uma certeza: um filho.
Na certeza, superando a incerteza, a jovem senhora dá à luz uma esperança!... ela dá a luz!
Uma esperança que teima em continuar...
Maria é mãe... Maria é mulher... Maria chora soluços de alegria: o menino é Jesus.
O sonho nasceu!
O menino é o sonho: ela ri, soluçando com seu povo. Ela ri: sabe que o sonho é esperança. Ela reza: sabe que o sonho é certeza! Ela se sabe iluminada, seu povo, os marginalizados, têm a Luz.
A Luz veio aos homens!
Através da adolescente, um menino, uma esperança, uma luz, uma certeza...
Através da adolescente, Maria, a mulher, ilumina!
Através da adolescente a Luz veio à luz!
E, ainda hoje a luz quer brilhar!!!
E a luz precisa e espaço para se irradiar, iluminar!!!

11 de dez. de 2007

MUSICOSOFIA: A música nas aulas de filosofia

Prof. Neri P. Carneiro - neri.car@hotmail.com

A filosofia pode ser uma atividade agradável e con-vidativa, no ambiente escolar secundarista e do ensino superior? Como fazer das aulas de filosofia um momento agradável, sem perder a capacidade de desenvolver a crítica que caracteriza essa área do conhecimento?
O que aqui nos move, portanto não é a discussão so-bre filosofia, mas sobre uma possível metodologia que possa ajudar aos professores a melhor desenvolver suas atividades com filosofia.

Algumas considerações.

Para isso são necessárias algumas considerações.
Em primeiro lugar é preciso dizer que a filosofia dis-tingue-se das ciências e de outras disciplinas escolares por várias razões. Uma delas é o fato de não ter como preocupação primeira a apresentação de respostas, mas a proposição de duvidas. São as dúvidas que conduzem às respostas e estas provocam o desenvolvimento ou ampli-ação do saber.
Como as ciências e disciplinas escolares, ela leva em consideração o que disseram os antigos, mas não se limi-ta a repetir o que eles disseram. E nisso está mais uma diferença em relação às outras áreas do saber. Podemos dizer que as outras áreas do conhecimento se desenvol-vem, de modo geral, reforçando o que já foi dito, ou seja, a partir da afirmação de uma verdade. A filosofia se de-senvolve colocando em dúvida a verdade apresentada. O melhor discípulo de um filósofo não é o que divulga suas idéias, mas o que o supera, como sugere R. Gomes, em “A Crítica da Razão Tupiniquim” (1982, p. 32): “Imedia-tamente após o período da criação, surge a cristalização e a esterilidade – aí encontramos os pretensos seguidores. É quando aquela intuição originária se perde nalguma escolástica. Só mais tarde surgirá o verdadeiro sucessor: aquele que disser o contrário”.
A postura negadora, da filosofia, é o que lhe dá vita-lidade, vigor e prestígio. A partir do espírito da crítica – que é a negação do que foi afirmado – desenvolve-se não a filosofia, mas o filosofar, como sugeriu E. Kant. E nisso se manifesta outra de suas características: filosofia não é algo que se ensina, como se fora regra de três ou normas de acentuação gráfica. Filosofia não se ensina, mas propõe-se desafio ao processo do filosofar. Não se ensina porque tudo que se disser sobre Filosofia será, sempre, uma caricatura; a filosofia, portanto, se caracte-riza não por ou com uma definição, mas no processo; o que importa é o processo, pois este se aproxima da dina-micidade da busca, que a caracteriza. Filosofia não é o que está pronto, mas nasce no processo do filosofar.
Claras são as palavras de Nietzsche, ao afirmar, no prólogo de Ecce Homo, que a filosofia ainda há de ven-cer pois “até agora a única coisa que foi proibida sempre, por princípio, foi a verdade”. Isso porque, diz ele, a filo-sofia é busca.

“A filosofia, como a compreendi e a vivi até agora, é vida voluntária no meio do gelo e nas altas mon-tanhas — é a busca de tudo o que é estranho e du-vidoso na existência, de tudo o que foi até agora proscrito pela moral. A longa experiência, propor-cionada por esse caminhar no proibido me ensinou a contemplar tudo de forma completamente dife-rente do que se poderia pensar as razões pelas quais até agora se moralizou e se idealizou: a história o-culta dos filósofos, a psicologia de seus grandes nomes se revelou para mim. Quanta verdade um espírito pode suportar, quanta pode arriscar um es-pírito? Isso foi se convertendo cada vez mais para mim no verdadeiro critério do valor. O erro (a crença no ideal) não é cegueira, o erro é covardia... Cada conquista, cada passo em frente no conheci-mento é conseqüência da coragem, da dureza con-sigo mesmo, da limpeza para consigo...” (NI-ETZSCHE, [2006?], p. 16)

Como tudo isso pode ser aplicado ao contexto esco-lar? A primeira dica é: Não devemos fazer das aulas de filosofia uma cantilena de repetição do que já foi dito, mas a partir do que foi falado, propor a novidade. No contexto escolar é necessário encontrar não uma forma de ensinar a filosofia, mas um mecanismo que ajude a filosofar.
E assim podemos fazer algumas afirmações, categó-ricas:

Como dar uma boa aula de filosofia?

Não existe regra.
Depende da criatividade e dos conhecimentos pré-vios do professor. Um professor de filosofia não se equi-vale ao de português ou de matemática. Ele precisa ser leitor atento, ler muito, ter conhecimentos/informações de várias áreas. Gostar da dúvida e não se sentir dono da verdade.
Mesmo quando os alunos tentem “colocá-lo na pare-de” o professor precisa manter a atitude humilde de quem sabe que não sabe, pois os alunos também possuem seus saberes.
Sendo uma disciplina sobre a qual já se formou um preconceito, sobre a qual se diz uma porção de inverda-des, ao professor cabe mostrar que a maioria das opiniões sobre filosofia não corresponde à Verdade sobre Filosofi-a.
Uma boa dose de ironia, bom humor, descontração e capacidade de improvisar e transformar as situações coti-dianas em situação problema é uma das qualidades indis-pensáveis para o professor de filosofia. Utilizar textos com mensagens já implícitas ou já conhecidos podem ajudar, mas podem, também, direcionar a reflexão; ou o que é pior podem impedir que se reflita, pois a mensagem já é conhecida...

Qual o melhor texto de apoio?

Não existe.
Qualquer texto pode ser usado, desde que previa-mente tenha sido bem estudado e direcionado para o objetivo que se quer alcançar.
Fica difícil trabalhar um tema, por exemplo, de Eco-logia com um texto que fala sobre Sexo. Já um texto bem pornográfico pode ser um excelente link para uma aula sobre família ou sobre adolescentes e, obviamente sobre sexualidade, prostituição... Isso implica dizer que o pro-blema – e a solução do problema – está na capacidade criativa do professor. Por isso a necessidade de o profes-sor ser leitor, superar preconceitos pessoais e, o que é mais importante, superar-se.
O importante não é o texto, mas a metodologia de abordagem do texto. Trata-se de fazer questionamentos ao texto. De fazer uma espécie de análise literária do texto estudado, localizando: personagens, o que fazem, por que fazem, onde o fato narrado acontece, por que acontece, qual a sua mensagem...

Qual a melhor técnica, dinâmica, metodologia?

Não existe.
O que deu um excelente resultado em alguma ativi-dade com uma turma, pode ser infrutífero com outra. O que dá para fazer é adaptar, recriar, reciclar.
Algumas dinâmicas, ou metodologias, ou técnicas podem ajudar. Entre as inúmeras que existem e que o professor pode inventar, podem ser mencionadas: Dinâ-mica de grupo (ou trabalho em grupo); Tea-tro/música/paródia; Recriar um texto na forma de dese-nho; Debate/seminário/mesa redonda; Interpretar dese-nhos, charges...
Mas acima de tudo e o que realmente importa é a-daptar e recriar.

É Fundamental!

Depois de tudo isso o fundamental é que o professor crie seus próprios exercícios. Estas podem ser desenvol-vidas com alguns textos. O texto, na realidade é só um pretexto, um gancho, um link para aprofundar o tema que se deseja trabalhar. Sobre esse tema o professor deve estar preparado e acolher as respostas dos alunos, sem preconceitos, ajudando a devolver questionamentos a fim de continuar as reflexões. Importa que o professor não encerre o debate, que não dê respostas prontas, mas desa-fie o aluno...
Não é demais reafirmar: Para o ensino de filosofia não existe receita. Podemos dizer, por um lado, que não podemos ficar presos às falas dos filósofos, mas, por outro lado, não podemos nos alienar em textos descone-xos. Aquele amontoado de textos aleatórios são mais prejudiciais para a filosofia do que as falas dos “grandes” filósofos.
Um caminho que pode ser experimentado é o de ler alguns trechos dos grandes pensadores e procurar contex-tualizá-las a partir de outros textos do nosso cotidiano. Seria algo como ouvir o eco daquele pensador no cotidi-ano das pessoas, nas artes, na literatura, nas músicas. Não de forma repetitiva, mas de forma criativa.
E por falar em música podemos fazer um largo estu-do da história da filosofia a partir de várias vertentes. Uma delas pode ser a música. Estamos propondo, portan-to, que façamos uma viagem pela história da filosofia a partir da musica popular brasileira.

Dois Exemplos

Tomemos dois exemplos, dos pré-socráticos, para ilustrar essa idéia. “Tudo se faz por contrastes; dessa luta dos contrários nasce a mais bela harmonia”, teria dito Heráclito, por volta do século VI aC. Outra de suas afir-mações é que “O frio torna-se quente, o quente frio, o úmido seco e o seco úmido”. Mas, talvez, uma de suas mais célebres frases seja esta, afirmando que “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Dispersa-se e reú-ne-se; avança e se retira” (BORNHEIM, [198?]). Com isso está procurando afirmar que a realidade é dinâmica, é movimento. Podemos relacionar essas idéias à música, cantada por Lulu Santos, “Como uma onda”:

Como uma onda
Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa, tudo sempre passará
A vida vem em ondas, como um mar
Num indo e vindo infinito
Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente viu a um segundo
Tudo muda o tempo todo no mundo
Não adianta fugir
Nem mentir pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre
Como uma onda no mar

Entre outras coisas, a filosofia se desenvolve de forma dialética. Pela oposição de idéias. É o que po-demos observar quando comparamos as afirmações antagônicas de pensadores contemporâneos. Se Herá-clito afirmava a essencialidade do movimento, o opos-to de sua posição encontraremos em Parmênides. Para este pré-socrático a essencialidade do existente é per-manente e constante. Daí uma de suas afirmações mais conhecidas sobre os princípios ou caminhos do conhecimento e sobre a imutabilidade do ser. Afirma ele que “o ser é e o não ser não é”. Nossa idéia de imu-tabilidade do destino também se origina em Parmêni-des: “Pouco me importa por onde comece, pois para lá sempre voltarei novamente.” Esse pensador é um dos primeiros a propor algumas características do “Ser”: eterno, imutável, imóvel, indivisível. O Ser, “perma-necendo idêntico e em um mesmo estado, descansa em si próprio, sempre imutavelmente fixo e no mesmo lugar”
A idéia de permanência, parmenidiana pode ser vista na música, “Cotidiano”, de Chico Buarque:

Cotidiano
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode as seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café

Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão

Seis da tarde, como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca prá beijar
E me beija com a boca de paixão

Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
Me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor

A partir destes dois pressupostos se construiu a história da filosofia: a afirmação de que tudo é movimen-to e se explica pelas alterações, de acordo com Heráclito; e de que nada se altera, mas permanece sendo sempre o que é, como disse Parmênides. Os pensadores oscilaram entre um e outro lado.
No transcorrer teremos aqueles que pensarão e agirão como se tudo sempre fosse a mesma coisa; e outros que defenderão as mudanças. Teremos Platão afirmando que o que vemos é aparência, e, portanto, noutras palavras falando da necessidade do espírito indagador buscar a verdade. Entretanto, em seu “Mito da caverna”, nega a possibilidade de mudança, pois aquele que sai para bus-car a novidade é assassinado pelos seus pares. Isso seria um tributo a Parmênides
Por outro lado teremos Aristóteles afirmando a ne-cessidade de identificar claramente as coisas, afirmando o princípio da não contradição, mas ao mesmo tempo dizendo que todas coisas são, em ato, o que são, mas potencialmente podem ser algo diferente. Com isso reto-ma Heráclito
Outros ensinamentos, de outros pensadores podem ser buscados e interpretados à luz do que se canta nos sucessos das paradas ou naquelas músicas que poucos chegaram a conhecer. Podem ser temas antigos ou bala-das atuais.
É possivel que algém venha nos dizer que não se pode fazer Filosofia, apenas com as músicas. Em resposta podemos dizer que também não podemos abrir mão do saber popular, presente nas músicas de um povo. E mais, é possivel fazer um estudo verificando como as idéias dos pensadores aparecem no cotidiano das pessoas e entraram na sociedade, também por meio da música.
As idéias filosóficas não se prendem às páginas dos livros. Pelo contrário, elas passam a fazer parte do cotidiano na medida que entram na arte, na literatura, na poesia, na música. Nesse processo podemos ver não só que as idéias dos pensadores se renovam, mas ver novas idéias nascendo a partir da colocação de temas propostos pela arte.
Dessa forma se pode superar preconceitos, superar medos, criar indagações, encarar as contradições.
A mente e o espírito fracos, se assustam com idéias como as de Feurbach: “O ser absoluto, o Deus do homem é o próprio ser do homem”. Ou não apreciam o sabor da novidade advinda da dúvida e por falta de dúvidas, acabam morrendo. Nos ensina Nietzsche em “Assim falou Zaratustra” (1986, p. 33): “Aproxima-se o tempo em que o homem não mais arremessará flecha do seu anseio para além do homem e em que a corda do seu arco terá desaprendido a vibrar. Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante. Eu vos digo: há ainda caos dentro de vós”. Mas hoje será que ainda temos coragem de duvidar?


Referências

BORNHEIM, Gerd A. Filósofos Pré-Socráticos, São Paulo: Cultrix, [198?]
GOMES, Roberto. Crítica da Razão Tupiniquim. São Paulo: Cortez, 1982.
NIETZSCHE, F. Ecce Homo. São Paulo: Escala [2006?]
__________ Assim Falou Zaratustra, rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1986