Não é de hoje que a coisa vem piorando. Paciente com enfermidade crônica, a educação no Brasil não vem recebendo medicamentos. Está condenada a morrer por omissão de socorro na porta do hospital da vida.
Mas o triste disso tudo é que a responsabilidade por essa situação é atribuída á própria educação. Ou então se joga a culpa nos professores, nos estudantes, na família, na sociedade. Mas na realidade, a quem interessa que a educação morra? A quem interessa o fim da Educação? ao, mais ainda, o que é educação?
O fato é que a Educação não é responsável pela sua enfermidade. A causa do problema deve ser buscada num nível mais profundo. É necessário analisar as várias causas, estruturais, do problema.
Então, reflitamos o problema: O professor é mal remunerado e com isso desincentivado... Em geral recebe muitas cobranças e poucos incentivos. Embora apaixonado pela arte de ensinar, o professor precisa sobreviver. Portanto não se estranhe se ele precisar deixar a sala de aula para sobreviver e alimentar seus filhos. Só o amor não alimenta. E se não deixa de ser professor se sobrecarrega com várias horas de aula. Com dupla jornada, trabalhando em várias escolas, indo além do que um mortal pode suportar.
Além disso, não é estranho a ninguém o aumento do desrespeito, da superposição de obrigações jogadas sobre a escola e sobre os ombros do professor. Crianças ou adolescentes e jovens delinqüentes são jogadas, por determinação judicial, dentro do pátio das escolas, fazendo com o que a instituição escolar, que já tem seus problemas específicos, seja obrigada a conviver com problemas que deveriam ser tratados por psicólogos, carcereiros, polícia... – digo conviver por que não irá solucionar o problema, antes, pelo contrário, aumentará o problema, pois além dos que já enfrenta, recebe um outro que não é de sua alçada. E dessa forma o poder público diz que está resolvendo, quando, na verdade, está se esquivando e passando sua responsabilidade para outros.
Gostaria de saber se um juiz, um promotor ou alguém que toma essas decisões estapafúrdias gostaria que seu filho convivesse, diariamente, no pátio escolar, com delinqüentes. Não só conviver, mas sofrer as ameaças, as agressões ou as influências desses que são obrigados por decisão da lei, a permanecer na escola – não estou dizendo que não têm direito à educação escolar! Estou afirmando que o atual sistema escolar não tem os recursos materiais e humanos para dar esse atendimento.
E a mesma lei que é usada para manter o bandido no pátio escolar, não obriga o Estado a arcar com profissionais qualificados e treinados para dar segurança e acompanhamento específico a essas crianças e adolescentes.
A família passa por uma crise de desestruturação. Os lares foram invadidos pelas gangs de droga, do desrespeito, da irresponsabilidade. Há tempo morreu o que se pode chamar de expectativa de futuro melhor. Para os jovens, para as famílias e para o Brasil. E quem saiu perdendo nisso foram às famílias... (E a escola!).
E mais ainda. Como um pai de família pode educar seu filho se precisa sair de madrugada para o trabalho, voltando já tarde da noite, cada dia mais cansado... e cada vez mais na miséria?... Isso quando não chega de um trabalho e tem que sair para outro, para complementar a renda a fim de alimentar a família.
O que sobrou para a sociedade? Para superar o que era arcaico a nossa sociedade acabou perdendo a noção do valor humano. Onde estão os valores da entre-ajuda, da solidariedade, (da Justiça), do amor á pátria, da verdade? Do respeito à pessoa, do respeito aos símbolos ...
Não quero voltar ao passado, mas novamente estamos precisando de um Diógenes que saia às ruas com uma lanterna na mão, em pleno meio dia para procurar um homem. Nossa sociedade precisa de homens e mulheres com sólidas raízes no futuro, trazendo luzes para nosso tenebroso presente.
Nisso tudo a vítima maior não é a educação... (que já está condenada). Nem os professores... condenados a dobrar carga horária atrás de salário. Nem são as escolas, entregues a depressão, matagais, insetos, gangs (retrato dolorido duma sociedade deseducada e incapaz). Também não são os estudantes que não têm perspectiva nem de trabalho nem de desenvolvimento: as oportunidades estão se acabando.
As vitimas mais atingidas são nossos filhos, os estudantes, atingidos pelos descaminho em que entrou a sociedade. As maiores vitimas, dessa situação catastrófica são as futuras gerações, as quais, como ainda não têm poder de decisão, são obrigadas a engolir o que a mídia impõe. As maiores vitimas somos nós mesmos, remoídos pelo grito de nossa consciência omissa, abraçada com a indiferença.
Enquanto isso a educação continua HOSPITALIZADA: e os órgãos governamentais desculpando-se e alegado falta de verbas; enquanto isso o dinheiro público é esbanjado em propaganda de auto-promoção ou inauguração de obras inacabadas; enquanto isso os tecnocratas, burocratas e muitos gestores dos destinos da nação se empanturram com o dinheiro público – o mesmo que é negado para a melhoria do salário do professor... ou do ambiente escolar
E lá, no hospital da vida, os interesses capitalistas continuam matando a educação. E isso continuará até que seja tarde demais... ou até que nós tornemos uma providência...
Neri de Paula carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
25 de jul. de 2007
Medo criativo e a angústia da existência
O que somos nós? De onde viemos e para onde vamos?
Essas são algumas das indagações que movem a humanidade. Claro que existem outras, por exemplo: o que vou comer no almoço? Será que terei o que comer? Poucos se perguntam, por exemplo, sobre o que acontecerá se continuarmos agredindo a natureza. Claro, também, que tem perguntas que raramente as pessoas se fazem: para onde vai a luz quando desligamos o interruptor? Qual é a cor daquela calça amarela, quando o guarda-roupa está no escuro?
Mas as indagações essenciais permanecem. E, às vezes se desdobram em outras, principalmente quando começamos a respondê-las: Somos o que somos? Somos o que queremos ser? Somos o que sonhamos ser? Ou não somos? Afinal, quem e o quê somos?
Vou me atrever a dar uma resposta: Somos o resultado de nossos medos! Somos humanos, e como tal, movemo-nos a partir de algumas características: a insatisfação, o medo, as indagações...
Primeiro somos insatisfeitos: se com fome, queremos a saciedade; alimentados queremos repouso; repousando queremos emoções... e dessa forma, por sermos insatisfeitos vamos construindo, descobrindo, inventando – quebrando a cara, também! – mas em todos os casos vamos alterando o mundo e a nós mesmos. E permanecemos insatisfeitos e, por isso, buscando!
Por causa da insatisfação e junto dela, somos medrosos. Temos medo de tudo. Até de admitir o medo – lembremo-nos de algumas músicas do Raul Seixas! Temos medo da verdade e tememos a mentira. Temos medo do desconhecido e tememos a busca do seu entendimento. Temos medo da morte e não preservamos a vida. E, por medo, nem sempre nos damos conta de que o medo não é sinal de fraqueza nem covardia: é mecanismo de preservação; é um dos instrumentos que utilizamos para nos mantermos vivos; é um dos mecanismos de que nos utilizamos para tentar satisfazer algumas de nossas necessidades ou suprir algumas de nossas insatisfações. Só que por medo da insatisfação ou de não termos nossas necessidades atendidas, permanecemos com medo e insatisfeitos.
Em vista disso nos interrogamos: como superar o medo e satisfazer a insatisfação? Outra indagação é sobre o sentido da vida. Como a percebemos sem sentido, mas apegados a ela, buscamos, desesperadamente, dar-lhe sentido. Criamos sentido! – por vezes absurdos! Nossas indagações nos levam, muitas vezes a respostas falsas. Nossas indagações nos levam a inseguranças, pois nos defrontamos com a falta de sentido da vida e a inconsistência de nossas respostas e das nossas verdades.
Embora não tenhamos coragem de admitir, a vida, e o viver, são situações desprovidas de sentido: ou tem sentido levantar-se de manhã, quando se quer permanecer dormindo ou pelo menos na cama – com ela (ou ele), de preferência? Tem sentido ir para um trabalho chato, quando se quer fazer nada, viver no ócio? Tem sentido passar a vida fazendo algo que não gostamos, só para manter as aparências? Tem sentido trabalhar feito um burro de carga, e ver o fruto do trabalho enriquecer a outros? Tem sentido fazer tudo o que fazemos, até tentando acumular riquezas, para morrer e não levar nada?
(Pare um pouco e veja quão sem sentido é a existência. Veja como você vive insatisfeito, muitas vezes melancólico – e supere o medo de admitir que, sua insatisfação ocorre porque você não encontrou o sentido do seu existir!)
Como disse, ao percebemos a falta de sentido da existência, criamos sentidos para existir. E, muitas vezes esse sentido é colocado num ser ou numa realidade transcendente. Sagrada! É colocado num além indefinido e indefinível, fruto da imaginação. Criamos o sagrado para dar sentido à vida e ao existir.
Mas temos medo dessa realidade. E por medo dela e de perdê-la, perdendo até esse sentido, nos furtamos a refletir sobre ela. Não temos coragem de colocá-la em discussão. Por medo permanecemos na dúvida. E na dúvida, criamos os dogmas, criando, com isso uma certeza artificial, falsa! Em nome do dogma nos negamos o direito de questionar. Em com isso volta o problema que mantém a angústia do ser humano: o imponderado do seu destino. E sua dúvida cruel: de onde vim? Para onde vou? E reaparece o medo!
Essa angústia faz de cada um de nós, pessoas, ao mesmo tempo insatisfeitas e apegadas a algumas explicações. Alguns nos agarramos à religião. Mas a religião não satisfaz. E por medo não nos libertamos na fé, pois a fé, embora dissimule o medo, mata a curiosidade e não satisfaz. Alguns se apegam à ciência, que também não satisfaz, pois a cada certeza apresentada depois de uma pesquisa científica, produz outras dúvidas. Resta à filosofia a função de explicar essa situação, mas a filosofia também não satisfaz, pois antes de dar respostas acrescenta mais dúvidas às duvidas.
O homem é insatisfeito e por isso busca. Quanto mais busca, mais explicações contraditórias encontra. Por isso mais se angustia, pois nada cura seu medo. Nada lhe dá certeza. E assim vai construindo, criando, evoluindo. E quanto mais cria, mais constrói, mais inventa, mas evolui... mais percebe que nada disso tem sentido. E lança-se cada vez mais desesperadamente na busca desse sentido.
E assim vive o ser humano, sem sentido de viver, mas construindo sentido para a existência. Angustiado e atormentado por seus medos, mas construindo, nem que seja artificialidades que o mantêm insatisfeito, com medo e se perguntando pela resposta definitiva, que nunca encontrará.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
Essas são algumas das indagações que movem a humanidade. Claro que existem outras, por exemplo: o que vou comer no almoço? Será que terei o que comer? Poucos se perguntam, por exemplo, sobre o que acontecerá se continuarmos agredindo a natureza. Claro, também, que tem perguntas que raramente as pessoas se fazem: para onde vai a luz quando desligamos o interruptor? Qual é a cor daquela calça amarela, quando o guarda-roupa está no escuro?
Mas as indagações essenciais permanecem. E, às vezes se desdobram em outras, principalmente quando começamos a respondê-las: Somos o que somos? Somos o que queremos ser? Somos o que sonhamos ser? Ou não somos? Afinal, quem e o quê somos?
Vou me atrever a dar uma resposta: Somos o resultado de nossos medos! Somos humanos, e como tal, movemo-nos a partir de algumas características: a insatisfação, o medo, as indagações...
Primeiro somos insatisfeitos: se com fome, queremos a saciedade; alimentados queremos repouso; repousando queremos emoções... e dessa forma, por sermos insatisfeitos vamos construindo, descobrindo, inventando – quebrando a cara, também! – mas em todos os casos vamos alterando o mundo e a nós mesmos. E permanecemos insatisfeitos e, por isso, buscando!
Por causa da insatisfação e junto dela, somos medrosos. Temos medo de tudo. Até de admitir o medo – lembremo-nos de algumas músicas do Raul Seixas! Temos medo da verdade e tememos a mentira. Temos medo do desconhecido e tememos a busca do seu entendimento. Temos medo da morte e não preservamos a vida. E, por medo, nem sempre nos damos conta de que o medo não é sinal de fraqueza nem covardia: é mecanismo de preservação; é um dos instrumentos que utilizamos para nos mantermos vivos; é um dos mecanismos de que nos utilizamos para tentar satisfazer algumas de nossas necessidades ou suprir algumas de nossas insatisfações. Só que por medo da insatisfação ou de não termos nossas necessidades atendidas, permanecemos com medo e insatisfeitos.
Em vista disso nos interrogamos: como superar o medo e satisfazer a insatisfação? Outra indagação é sobre o sentido da vida. Como a percebemos sem sentido, mas apegados a ela, buscamos, desesperadamente, dar-lhe sentido. Criamos sentido! – por vezes absurdos! Nossas indagações nos levam, muitas vezes a respostas falsas. Nossas indagações nos levam a inseguranças, pois nos defrontamos com a falta de sentido da vida e a inconsistência de nossas respostas e das nossas verdades.
Embora não tenhamos coragem de admitir, a vida, e o viver, são situações desprovidas de sentido: ou tem sentido levantar-se de manhã, quando se quer permanecer dormindo ou pelo menos na cama – com ela (ou ele), de preferência? Tem sentido ir para um trabalho chato, quando se quer fazer nada, viver no ócio? Tem sentido passar a vida fazendo algo que não gostamos, só para manter as aparências? Tem sentido trabalhar feito um burro de carga, e ver o fruto do trabalho enriquecer a outros? Tem sentido fazer tudo o que fazemos, até tentando acumular riquezas, para morrer e não levar nada?
(Pare um pouco e veja quão sem sentido é a existência. Veja como você vive insatisfeito, muitas vezes melancólico – e supere o medo de admitir que, sua insatisfação ocorre porque você não encontrou o sentido do seu existir!)
Como disse, ao percebemos a falta de sentido da existência, criamos sentidos para existir. E, muitas vezes esse sentido é colocado num ser ou numa realidade transcendente. Sagrada! É colocado num além indefinido e indefinível, fruto da imaginação. Criamos o sagrado para dar sentido à vida e ao existir.
Mas temos medo dessa realidade. E por medo dela e de perdê-la, perdendo até esse sentido, nos furtamos a refletir sobre ela. Não temos coragem de colocá-la em discussão. Por medo permanecemos na dúvida. E na dúvida, criamos os dogmas, criando, com isso uma certeza artificial, falsa! Em nome do dogma nos negamos o direito de questionar. Em com isso volta o problema que mantém a angústia do ser humano: o imponderado do seu destino. E sua dúvida cruel: de onde vim? Para onde vou? E reaparece o medo!
Essa angústia faz de cada um de nós, pessoas, ao mesmo tempo insatisfeitas e apegadas a algumas explicações. Alguns nos agarramos à religião. Mas a religião não satisfaz. E por medo não nos libertamos na fé, pois a fé, embora dissimule o medo, mata a curiosidade e não satisfaz. Alguns se apegam à ciência, que também não satisfaz, pois a cada certeza apresentada depois de uma pesquisa científica, produz outras dúvidas. Resta à filosofia a função de explicar essa situação, mas a filosofia também não satisfaz, pois antes de dar respostas acrescenta mais dúvidas às duvidas.
O homem é insatisfeito e por isso busca. Quanto mais busca, mais explicações contraditórias encontra. Por isso mais se angustia, pois nada cura seu medo. Nada lhe dá certeza. E assim vai construindo, criando, evoluindo. E quanto mais cria, mais constrói, mais inventa, mas evolui... mais percebe que nada disso tem sentido. E lança-se cada vez mais desesperadamente na busca desse sentido.
E assim vive o ser humano, sem sentido de viver, mas construindo sentido para a existência. Angustiado e atormentado por seus medos, mas construindo, nem que seja artificialidades que o mantêm insatisfeito, com medo e se perguntando pela resposta definitiva, que nunca encontrará.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
Vagabundo?
Existe um ditado falso, por sinal, afirmando que “cada povo tem o governo que merece”.
Nada mais falso e maldoso do que afirmar isso. Duas afirmações de governantes comprovam isso. Claro que a população – os eleitores – é ultrajada constantemente pelo poder público. Desde o fato de ter que esperar numa ante-sala (para não ser atendido, ou ser mal atendido) até os projetos e leis anti-população. São muitos os exemplos em que representantes dos três poderes dão cascudo nos seus patrões, os contribuintes. Poderia fazer um rosário de situações em que isso ocorre ou poderia mencionar um tanto de vezes que eu próprio fui ultrajado. Não é a toa que os espanhóis forjaram aquele ditado tão real em nosso meio: “aos amigos os favores da lei; aos inimigos os rigores da lei”. Perceberam onde nasce a corrupção?
Mas não vamos aqui comentar essa dimensão da afronta a que é submetida a população. Vamos nos concentrar a duas agressões. Nós, os contribuintes, fomos agredidos em duas situações diferentes, em épocas distintas e por personagens alternados – alterados – recebemos o mesmo rótulo: VAGABUNDO.
Na primeira vez foi o Presidente da República e na outra o prefeito da maior cidade do país. Claro que nas duas vezes o destinatário imediato do rótulo – para não dizer xingamento – eram interlocutores do boca suja. Mas nas duas vezes se tratava de um membro do executivo eleito diretamente pela população – ou uma pequena parte da população. E, portanto, seu ato reflete-se não somente sobre o indivíduo-vítima, mas para a população como um todo. Mesmo que tenha sido eleito por uma parcela muito pequena da população – considerando os não eleitores, os não votantes, os que se abstiveram, votaram branco ou anularam o voto e, principalmente, os que votaram contra, por terem votado em outros candidatos – cada personagem eleito elege-se com um percentual bem reduzido do universo total da população. Mas, pela lei, representa toda a população (outra conversa é o questionamento sobre a legitimidade da lei!) E seus atos, portanto não são atos dirigidos para indivíduos, mas para a população.
O primeiro, um presidente, de triste memória, pelos tantos escândalos abafados em seu governo, chamou de vagabundos aos que questionavam seu projeto de alteração na aposentadoria. Lá com as palavras dele disse que quem deseja se aposentar é vagabundo – ele que na época já era aposentado como professor! O segundo, um prefeito em início de mandato – então já dá para imaginar o que ainda se pode esperar dele! – chamou um trabalhador de vagabundo. Notemos que esse trabalhador questionava uma lei paulistana que cerceava um campo de trabalho, ganha-pão de muita gente.
Nos dois casos, com quase uma década de distância, a mesma palavra de origem latina. Segundo o “Aurélio”, trata-se de uma pessoa que “leva uma vida errante; que vagueia; vagamundo, vadio, erradio, errante, nômade, andejo, mundeiro. Inconstante, volúvel, leviano. Velhaco, pelintra, canalha, biltre. De má qualidade; reles, ordinário. Troca-pernas. Indivíduo desocupado, ocioso”. Portanto nada que se assemelhe a um “muito obrigado, senhores eleitores, contribuintes, meus patrões, pelos votos a mim confiados”.
Agora vejamos. Quem busca aposentadoria? Pessoas que já trabalharam por um período de tempo considerável. E que contribuiu, com o fruto do seu trabalho, para a previdência social que é a instituição que paga a aposentadoria. Portanto, quem pede aposentadoria é alguém que está ou esteve trabalhando – e pede de volta o dinheiro que é seu, pois lhe foi descontado do salário! Quem foi o senhor escorraçado pelo prefeito? Um trabalhador, colocando seu problema por estar sendo impedido de exercer uma atividade. Portanto alguém que pode até não estar trabalhando, por força de uma lei municipal, mas que deseja trabalhar – tanto que estava interpelando o prefeito!
Nos dois casos, tratou-se de pessoas idosas e que já trabalharam muito durante suas décadas de inserção no “Mercado de Trabalho”. Mais ainda. Tratou-se de pessoas que produziram – ou produzem – riquezas, bens, serviços. Isso por que estamos considerando apenas os indivíduos diretamente insultados. Mas como se trata de um homem público, com poder legalmente instituído, representam toda a população e quando falam ou agem seus atos ou palavras atingem a toda a população.
Agora, alguém ai, me diga: o que produzem os tais homens públicos? O que produzem os políticos? Quais os benefícios que produzem para a totalidade da população de que são representantes?
Observando atentamente poderemos constatar que a ação dos “homens públicos”, dos políticos de modo geral, são atos que produzem mal-estar na população – não estamos querendo negar que existem aqueles que se beneficiam, que levam vantagem, que tiram proveito pessoal! Estamos falando da população como um todo e não daqueles gatos pingados que sobrevivem de uma atividade chamada “puxa-saquismo”.
O que produzem os políticos, além do infindo “cordão de puxa-sacos”?
O que produzem aqueles que são chamados de “vagabundos” é a riqueza do país. O progresso da nação. O desenvolvimento, cujos resultados são engolidos pelos corredores do poder e da corrupção.
Portanto se tem algum vagabundo nessa história não são aqueles que assim foram chamados – a população brasileira – por aqueles que deveriam representar a população. Se existe algum vagabundo, com todos os significados da palavra, esses são aqueles que assim chamam a população.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
Nada mais falso e maldoso do que afirmar isso. Duas afirmações de governantes comprovam isso. Claro que a população – os eleitores – é ultrajada constantemente pelo poder público. Desde o fato de ter que esperar numa ante-sala (para não ser atendido, ou ser mal atendido) até os projetos e leis anti-população. São muitos os exemplos em que representantes dos três poderes dão cascudo nos seus patrões, os contribuintes. Poderia fazer um rosário de situações em que isso ocorre ou poderia mencionar um tanto de vezes que eu próprio fui ultrajado. Não é a toa que os espanhóis forjaram aquele ditado tão real em nosso meio: “aos amigos os favores da lei; aos inimigos os rigores da lei”. Perceberam onde nasce a corrupção?
Mas não vamos aqui comentar essa dimensão da afronta a que é submetida a população. Vamos nos concentrar a duas agressões. Nós, os contribuintes, fomos agredidos em duas situações diferentes, em épocas distintas e por personagens alternados – alterados – recebemos o mesmo rótulo: VAGABUNDO.
Na primeira vez foi o Presidente da República e na outra o prefeito da maior cidade do país. Claro que nas duas vezes o destinatário imediato do rótulo – para não dizer xingamento – eram interlocutores do boca suja. Mas nas duas vezes se tratava de um membro do executivo eleito diretamente pela população – ou uma pequena parte da população. E, portanto, seu ato reflete-se não somente sobre o indivíduo-vítima, mas para a população como um todo. Mesmo que tenha sido eleito por uma parcela muito pequena da população – considerando os não eleitores, os não votantes, os que se abstiveram, votaram branco ou anularam o voto e, principalmente, os que votaram contra, por terem votado em outros candidatos – cada personagem eleito elege-se com um percentual bem reduzido do universo total da população. Mas, pela lei, representa toda a população (outra conversa é o questionamento sobre a legitimidade da lei!) E seus atos, portanto não são atos dirigidos para indivíduos, mas para a população.
O primeiro, um presidente, de triste memória, pelos tantos escândalos abafados em seu governo, chamou de vagabundos aos que questionavam seu projeto de alteração na aposentadoria. Lá com as palavras dele disse que quem deseja se aposentar é vagabundo – ele que na época já era aposentado como professor! O segundo, um prefeito em início de mandato – então já dá para imaginar o que ainda se pode esperar dele! – chamou um trabalhador de vagabundo. Notemos que esse trabalhador questionava uma lei paulistana que cerceava um campo de trabalho, ganha-pão de muita gente.
Nos dois casos, com quase uma década de distância, a mesma palavra de origem latina. Segundo o “Aurélio”, trata-se de uma pessoa que “leva uma vida errante; que vagueia; vagamundo, vadio, erradio, errante, nômade, andejo, mundeiro. Inconstante, volúvel, leviano. Velhaco, pelintra, canalha, biltre. De má qualidade; reles, ordinário. Troca-pernas. Indivíduo desocupado, ocioso”. Portanto nada que se assemelhe a um “muito obrigado, senhores eleitores, contribuintes, meus patrões, pelos votos a mim confiados”.
Agora vejamos. Quem busca aposentadoria? Pessoas que já trabalharam por um período de tempo considerável. E que contribuiu, com o fruto do seu trabalho, para a previdência social que é a instituição que paga a aposentadoria. Portanto, quem pede aposentadoria é alguém que está ou esteve trabalhando – e pede de volta o dinheiro que é seu, pois lhe foi descontado do salário! Quem foi o senhor escorraçado pelo prefeito? Um trabalhador, colocando seu problema por estar sendo impedido de exercer uma atividade. Portanto alguém que pode até não estar trabalhando, por força de uma lei municipal, mas que deseja trabalhar – tanto que estava interpelando o prefeito!
Nos dois casos, tratou-se de pessoas idosas e que já trabalharam muito durante suas décadas de inserção no “Mercado de Trabalho”. Mais ainda. Tratou-se de pessoas que produziram – ou produzem – riquezas, bens, serviços. Isso por que estamos considerando apenas os indivíduos diretamente insultados. Mas como se trata de um homem público, com poder legalmente instituído, representam toda a população e quando falam ou agem seus atos ou palavras atingem a toda a população.
Agora, alguém ai, me diga: o que produzem os tais homens públicos? O que produzem os políticos? Quais os benefícios que produzem para a totalidade da população de que são representantes?
Observando atentamente poderemos constatar que a ação dos “homens públicos”, dos políticos de modo geral, são atos que produzem mal-estar na população – não estamos querendo negar que existem aqueles que se beneficiam, que levam vantagem, que tiram proveito pessoal! Estamos falando da população como um todo e não daqueles gatos pingados que sobrevivem de uma atividade chamada “puxa-saquismo”.
O que produzem os políticos, além do infindo “cordão de puxa-sacos”?
O que produzem aqueles que são chamados de “vagabundos” é a riqueza do país. O progresso da nação. O desenvolvimento, cujos resultados são engolidos pelos corredores do poder e da corrupção.
Portanto se tem algum vagabundo nessa história não são aqueles que assim foram chamados – a população brasileira – por aqueles que deveriam representar a população. Se existe algum vagabundo, com todos os significados da palavra, esses são aqueles que assim chamam a população.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
23 de mai. de 2007
Tu! Tu! Tu!
Conta-se que naquela cidade havia um prefeito. Pessoa boníssima! Bom que não tinha rachado, como diz o gaúcho. Só não era perfeito porque não era Deus, pois dizem que Deus é perfeito...mas não é prefeito!
Mas aquele prefeito sentia-se meio deus...
O caso é que esse prefeito, em certa ocasião mandou executar uma série de obras, na cidade, beneficiando toda a população. E isso aumentou ainda mais sua popularidade!
Não que fosse vaidoso. Apenas gostava de receber elogios. Narciso no espelho d’água!
Foi nessa época que, em mais uma de suas boas obras em favor dos munícipes, mandou que se instalasse telefone na cidade. Naquela época telefone era coisa rara. Tão rara que funcionava e a gente só pagava as ligações que realmente havia feito.
Bem, o fato é que se instalou telefone na cidade. E, é claro, na prefeitura também!
E, como não poderia deixar de ser, havia um aparelho sobre a mesa do prefeito. E ele utilizava o aparelho, com freqüência: ligava para o governador, para outros prefeitos, para sua casa, para uma infinidade de lugares, a serviço ou só para “jogar conversa fora”, com costumava dizer, ao telefone.
Mas o interessante, da história não é isso. O interessante foi o que descobriu um de seus assessores.
Descobriu esse assessor que o prefeito, todos os dias, invariavelmente, chegava à prefeitura, entrava em seu gabinete, deixava a matula sobre a mesa e saía.
Postava-se debaixo dum orelhão, que mandara instalar em frente à prefeitura, e punha-se a discar, falava e ficava um bom tempo ouvindo.
Isso ainda no tempo em que os telefones públicos funcionavam com fichas...
Virou e mexeu que já estava dando o que falar!
Quase todos os funcionários da prefeitura falavam. Alguns até apostavam!
“O prefeito tem uma amante!”, “Não, ele está tramando desvio de verbas!” Ele faz ligação de lá por que se fizer da prefeitura descobrem seu esquema de corrupção!” e por aí andavam os comentários.
Antes de mais nada, o acessor era seu amigo pessoal. Depois de relutar, decidiu falar com o amigo!
- Estão falando mal do prefeito!
- Mas o quê andam dizendo?
- Prá falar pouco eles dizem que o prefeito tem alguma coisa a esconder!
- Esconder? Eu? O quê eu teria prá esconder? De quem? Por quê?
- As ligações que o prefeito anda fazendo, do orelhão! E o pior, andam falando que além do prefeito gastar muito com os telefones da prefeitura, ainda vai gastar fichinha no orelhão, ali da frente...
- Ah! É por isso! Mas não tem nada disso! Só estou fazendo pesquisa de opinião!
- Pesquisa de opinião? Mas se a questão é essa, então seria melhor contratar uma empresa especializada. Uma das suas, quem sabe...
- Prá quê gastar dinheiro à toa. Eu mesmo faço ali do telefone da frente...
- Mas não fica bem o prefeito gastar dinheiro público em fichas de telefone...
- Mas quem te disse que eu uso ficha?...
- Mas o prefeito não está fazendo pesquisa? Como, então, está fazendo para falar com os entrevistados?
- Ora essa! Muito fácil! Afinal sou prefeito! É cortesia! Simplesmente disco o número de algum dos munícipes e faço a pergunta: “Quem é o melhor prefeito desta cidade?”
- Sem colocar ficha? E daí, o que acontece?
- Eles não estão me vendo! Mas sabem que sou eu, me identificam pela voz e respondem: “TU-TU-TU-TU!”
Neri de Paula Carneiro
Mas aquele prefeito sentia-se meio deus...
O caso é que esse prefeito, em certa ocasião mandou executar uma série de obras, na cidade, beneficiando toda a população. E isso aumentou ainda mais sua popularidade!
Não que fosse vaidoso. Apenas gostava de receber elogios. Narciso no espelho d’água!
Foi nessa época que, em mais uma de suas boas obras em favor dos munícipes, mandou que se instalasse telefone na cidade. Naquela época telefone era coisa rara. Tão rara que funcionava e a gente só pagava as ligações que realmente havia feito.
Bem, o fato é que se instalou telefone na cidade. E, é claro, na prefeitura também!
E, como não poderia deixar de ser, havia um aparelho sobre a mesa do prefeito. E ele utilizava o aparelho, com freqüência: ligava para o governador, para outros prefeitos, para sua casa, para uma infinidade de lugares, a serviço ou só para “jogar conversa fora”, com costumava dizer, ao telefone.
Mas o interessante, da história não é isso. O interessante foi o que descobriu um de seus assessores.
Descobriu esse assessor que o prefeito, todos os dias, invariavelmente, chegava à prefeitura, entrava em seu gabinete, deixava a matula sobre a mesa e saía.
Postava-se debaixo dum orelhão, que mandara instalar em frente à prefeitura, e punha-se a discar, falava e ficava um bom tempo ouvindo.
Isso ainda no tempo em que os telefones públicos funcionavam com fichas...
Virou e mexeu que já estava dando o que falar!
Quase todos os funcionários da prefeitura falavam. Alguns até apostavam!
“O prefeito tem uma amante!”, “Não, ele está tramando desvio de verbas!” Ele faz ligação de lá por que se fizer da prefeitura descobrem seu esquema de corrupção!” e por aí andavam os comentários.
Antes de mais nada, o acessor era seu amigo pessoal. Depois de relutar, decidiu falar com o amigo!
- Estão falando mal do prefeito!
- Mas o quê andam dizendo?
- Prá falar pouco eles dizem que o prefeito tem alguma coisa a esconder!
- Esconder? Eu? O quê eu teria prá esconder? De quem? Por quê?
- As ligações que o prefeito anda fazendo, do orelhão! E o pior, andam falando que além do prefeito gastar muito com os telefones da prefeitura, ainda vai gastar fichinha no orelhão, ali da frente...
- Ah! É por isso! Mas não tem nada disso! Só estou fazendo pesquisa de opinião!
- Pesquisa de opinião? Mas se a questão é essa, então seria melhor contratar uma empresa especializada. Uma das suas, quem sabe...
- Prá quê gastar dinheiro à toa. Eu mesmo faço ali do telefone da frente...
- Mas não fica bem o prefeito gastar dinheiro público em fichas de telefone...
- Mas quem te disse que eu uso ficha?...
- Mas o prefeito não está fazendo pesquisa? Como, então, está fazendo para falar com os entrevistados?
- Ora essa! Muito fácil! Afinal sou prefeito! É cortesia! Simplesmente disco o número de algum dos munícipes e faço a pergunta: “Quem é o melhor prefeito desta cidade?”
- Sem colocar ficha? E daí, o que acontece?
- Eles não estão me vendo! Mas sabem que sou eu, me identificam pela voz e respondem: “TU-TU-TU-TU!”
Neri de Paula Carneiro
19 de mai. de 2007
Naquela Noite
Aquele instante, naquela noite, pareceu uma eternidade. Uma eternidade que carrego comigo, como a me lembrar do que não devo esquecer.
Talvez por tudo ter sido tão fugaz é que eu ainda carrego aquelas lembranças: tétricas sombras na me-mória. Sombras de lembranças que me acompanham como se aquele instante se houvesse transformado em parte de mim. Uma parte de mim que, mesmo que me esforce, não consigo apagar, nem deixar para traz: persegue-me e me atormenta.
É uma lembrança que não quero lembrar, mesmo assim ela me vem, nos momentos mais impróprios e indesejáveis. Às vezes não vem como lembrança. Me vem como algo que vejo e me persegue.
Por isso é que hoje, não sendo mais capaz de guardar esse segredo, me decidi partilha-lo com você. Não sei se você vai me entender; também não sei se estas minhas lembranças penetrarão em tua mente, fazendo-se presença concreta como são concretas as minhas lembranças.
O fato é que as coisas aconteceram tão rapidamente que não sei não foi justamente essa rapidez que fez com que tudo se tornasse tão presente. Tão presentes que me atormenta ao me acompanhar.
Claro que vou te contar não para que você seja mais um a ter essas lembranças, mas para que você entenda o que sou obrigado a ver todos os dias e várias vezes por dia.
Aconteceu naquela noite
Muitas vezes eu já havia passado por aquele local, inclusive à noite. E, a despeito das histórias escabrosas que ouvia, nunca havia visto nada de diferente. Nada havia visto ou sentido a não ser uma espécie de desdém diante do medo confessado por outros tantos. E me vangloriava de não ser medroso e não me assustar. Sentia que tinha nervos fortes e controle sobre minhas emoções.
Por tudo isso é que naquela noite andava, calmamente, voltando para casa. Nem vale a pena contar de onde estava voltando. Você não iria acreditar. Mesmo que eu jurasse ser verdade você ainda diria que estou mentindo.
Caminhava eu, lenta e calmamente, como calma estava a noite, sem uma brisa sequer. Tudo parado como se o próprio tempo estivesse esperando aquele momen-to.
Um só instante.
Foi quando aconteceu.
Foi quando vi aquela árvore
Aquela árvore e seus olhos de brasa, feito braços com os quais, em minha direção, brandia aquilo que parecia ser uma lâmina, cintilante ao brilho das estre-las.
Não estava escuro, mas também não havia lua no céu.
Também não havia nuvens. Talvez por isso as estrelas estivessem tão brilhantes. Ou talvez o brilho das estrelas fosse só um contraste para aquela escuridão.
Só sei que somente a luz alva das estrelas me avisou, denunciando aquele movimento. Um brusco e rápido movimento, justamente em minha direção.
Puro instinto de preservação foi o que me moveu: dei um passo para trás, inclinei, rápida e levemente o corpo e os galhos da árvore, com seus olhos em brasa empunhando aquela lâmina passou, sibilante, bem na altura em que estava meu pescoço.
Embora tudo tenha sido assim tão rápido ainda pude sentir a frieza das folhas me empurrando, na continuação do movimento roçante daquela lâmina, brilhante e mortal.
Por ter sobrevivido, vi a ira daqueles olhos de brasa. Olhavam-me como a me dizer que aquilo era só o começo. Como de fato foi, pois hoje, depois de tantos anos aquela cena me persegue. Pior. Aquela cena se repete...
Bem, naquele instante não pude perceber muitos detalhes, mas a lâmina parecia um cutelo, uma foice... Quem vê filmes de terror ou lê histórias em quadrinho vai me entender. Aquela lâmina lembrava aquele que se vê nessas histórias de terror. Mas não era uma historinha. Era um fato que estava acontecendo, ali, comi-go!
E havia um vulto!
Não!
Não se tratava daquele vulto que a gente se acostumou a ver desenhado nas histórias em quadrinho, ou nos filmes de terror, representando a morte. Era pior, pois era verdadeira. E seu golpe se dirigia a mim.
Era um vulto com uma veste que, naquele escuro semi-prateado, perecia ser preta. Preta a veste, como pretas estavam as verdes e frias folhas que me haviam tocado, como que empurrando, naquele balançar do cutelo.
Junto com meu grito, que saiu rouco de terror, minhas pernas tentaram correr.
Não pude.
Eu estava como que preso ao chão. O susto como que me paralisara. E, no reflexo da esquiva, ao dar um passo para trás, mais o esforço da fuga, se juntaram para me derrubar.
Caí!
Caí, não derrubado pelo medo, pois o terror que senti me impedia de ter medo. Caí derrubado pelo meu próprio movimento de auto-preservação.
Caí como se os próprios galhos gelados da árvore me tivesse agarrado e atirado ao chão.
Nesse instante, ainda mais aterrorizado, vi a árvore se levantar sobre suas raízes e vir em minha direção. Seus olhos brilhavam. Seus olhos, garras mortais, com aquela lâmina brilhante, caindo sobre mim.
Por um instante bem mais ínfimo e rápido, senti que meu fim se aproximava. Seria minha morte? Tive um átimo de tempo para me perguntar.
Olhei tudo novamente, nesse infinitesimal instante. Talvez por isso é que mal percebi o vulto que se ocul-tava ao se mostrar por entre as folhagens daquela árvore. Uma arvora que eu já não sabia se me atacava ou me protegia.
É mentira o que dizem quando afirmam que na hora da morte se vê o filme da vida passando diante dos olhos. Não vi nada. Só via o perigo. E sentia: meu fim estava pairando sobre mim e eu nada podia fazer. Nem teria tempo de dizer, “ai meu deus”, como se alguma divindade qualquer pudesse fazer algo para me salvar.
Numa situação de perigo não são as divindades ou seja lá o que for, que interferem para nos salvar. O que nos salva é nossa capacidade de perceber o perigo e reagir sobre ele – ou contra ele. Mas tem que reagir rápido. Essa rapidez é o que determina a nos salvação ou a morte.
Não morri.
Mas eu também não reagi. Nada! O medo me paralisou.
Mas o desespero, como que se personificando, me jogou para um lado. Naquele gesto de me preservar, perdi o equilíbrio. Pelo menos é isso que imagino, hoje, depois de tanto tempo já passado. Mas naquele momento não deu tempo de pensar nada disso. Tudo estava acontecendo – e aconteceu – rápido demais.
Rolei ladeira abaixo caindo sobre pedras pontiagu-das. Só percebi que parei de cair quando meu corpo foi penetrado pelas navalhas da água gelada daquele lago que a natureza, em eras remotíssimas havia colocado ali.
Até parece que ele sempre estivera ali para me aparar naquela queda.
É verdade que, quando criança, em tardes de verão, me banhava naquelas águas escuras. Fazia isso com o coração apertado pelo medo. Medo de ser apanhado fazendo uma peraltice – criança a banhar-se num lago era uma grande peraltice; medo dos assombros que me invadiam a consciência-criança, assustada com as histórias de coisa de outro mundo, que ouvia dos mais velhos.
Antes de afundar, ainda vi. Melhor dizendo, senti que meus ouvidos captavam o som satânico de uma gargalhada como a zombar de meu medo ou a me dar uma lição para minha incredulidade.
Antes de afundar na água gelada pude perceber que os olhos de brasa, dos galhos da árvore se acalmavam. E, misturado às ramagens escurecidas pela escuridão da noite estrelada pude ver novamente o vulto. Pude distinguir suas formas da forma da árvore. Pude perceber que aqueles olhos mortais com aquela lâmina que me atacaram eram diferentes dos olhos de brasa dos galhos da árvore.
Só então pude perceber que a árvore, apesar de ter me assustado e quase me agredido, não se levantara sobre suas raízes para me atacar, mas para me proteger – ou para me avisar do perigo.
Não sei se desmaiei ou o que aconteceu comigo. A última coisa que me lembro de ter percebido foi a dor daquelas lâminas da água gelada penetrando em meu corpo, naquela eternidade de alguns segundos.
Mas eu sobrevivi. Não sei como, mas sobrevivi.
Sobrevivi para poder contar que aquela cena me persegue, dia e noite.
Claro que hoje já não sinto mais medo. A convivência diária com aquilo foi se tornando algo que habita em mim.
Não sei como nem porque aquela cena, ou melhor, aquele vulto, com aquela lâmina mortal, me acompanha.
O que sei é que depois daquela noite muitos milhares de pessoas morreram. Pessoas que nunca imagina-va sequer que existiam. Claro que entre essas que morreram alguns eram conhecidos. E o pior de tudo, alguns amigos. Todos mortos com a minha participação.
Sim! Não duvide! Nem se assuste! Apenas preste atenção no que estou te dizendo!
Depois daquela noite, posso dizer que tive alguma participação na morte de cada um de todos os que morreram... depois daquela noite a morte passou a ser mi-nha companheira!
Não. Não matei ninguém!
Só que aquele vulto me persegue.
Quer dizer, não me persegue a mim. Eu é que o vejo.
Para cada pessoa amiga, ou conhecida, o mesmo estranha que encontro na rua e que está para morrer eu vejo aquele mesmo vulto, noturno, confundindo-se com aqueles galhos e aqueles olhos de brasa, daquela árvore em que vi aquele vulto.
E, ainda hoje, quando olho para alguém, olho duas vezes. Uma vez para ver a pessoa e outra vez para ver se não vejo aquele vulto. Mas muitas vezes o vejo...
Muitas vezes ele está lá. E quando ele está... sei que haverá uma morte. E isso me acompanha, diariamente, ao longo de anos.
Nesses anos todos pude ver e saber quem seria a próxima pessoa a morrer, pois para cada futuro defunto, eu vejo o vulto acompanhando aquela pessoa. Como que esperando o momento exato. O exato momento da morte.
Um vulto indefinido, mas que se torna nítido e per-ceptível, com aquela roupa escura e aquele cutelo nas mãos.
E então, cada vez mais vejo o vulto, distinto do vul-to da árvore, que me derrubou e me empurrou para a ladeira, para dentro das navalhas da água gelada, sei que alguém está marcado.
Cada vez que vejo aquele vulto, perto de alguém sei que aquela pessoa vai morrer.
E, ainda hoje, depois de tanto tempo, depois de tantos anos, cada vez que olho para alguém, olho duas vezes.
E muitas vezes eu vejo o vulto ao lado da pessoa.
Exatamente esse vulto que está atrás de você, do teu lado direito, levantando uma lâmina à altura do teu pescoço...
Neri de Paula Carneiro
Talvez por tudo ter sido tão fugaz é que eu ainda carrego aquelas lembranças: tétricas sombras na me-mória. Sombras de lembranças que me acompanham como se aquele instante se houvesse transformado em parte de mim. Uma parte de mim que, mesmo que me esforce, não consigo apagar, nem deixar para traz: persegue-me e me atormenta.
É uma lembrança que não quero lembrar, mesmo assim ela me vem, nos momentos mais impróprios e indesejáveis. Às vezes não vem como lembrança. Me vem como algo que vejo e me persegue.
Por isso é que hoje, não sendo mais capaz de guardar esse segredo, me decidi partilha-lo com você. Não sei se você vai me entender; também não sei se estas minhas lembranças penetrarão em tua mente, fazendo-se presença concreta como são concretas as minhas lembranças.
O fato é que as coisas aconteceram tão rapidamente que não sei não foi justamente essa rapidez que fez com que tudo se tornasse tão presente. Tão presentes que me atormenta ao me acompanhar.
Claro que vou te contar não para que você seja mais um a ter essas lembranças, mas para que você entenda o que sou obrigado a ver todos os dias e várias vezes por dia.
Aconteceu naquela noite
Muitas vezes eu já havia passado por aquele local, inclusive à noite. E, a despeito das histórias escabrosas que ouvia, nunca havia visto nada de diferente. Nada havia visto ou sentido a não ser uma espécie de desdém diante do medo confessado por outros tantos. E me vangloriava de não ser medroso e não me assustar. Sentia que tinha nervos fortes e controle sobre minhas emoções.
Por tudo isso é que naquela noite andava, calmamente, voltando para casa. Nem vale a pena contar de onde estava voltando. Você não iria acreditar. Mesmo que eu jurasse ser verdade você ainda diria que estou mentindo.
Caminhava eu, lenta e calmamente, como calma estava a noite, sem uma brisa sequer. Tudo parado como se o próprio tempo estivesse esperando aquele momen-to.
Um só instante.
Foi quando aconteceu.
Foi quando vi aquela árvore
Aquela árvore e seus olhos de brasa, feito braços com os quais, em minha direção, brandia aquilo que parecia ser uma lâmina, cintilante ao brilho das estre-las.
Não estava escuro, mas também não havia lua no céu.
Também não havia nuvens. Talvez por isso as estrelas estivessem tão brilhantes. Ou talvez o brilho das estrelas fosse só um contraste para aquela escuridão.
Só sei que somente a luz alva das estrelas me avisou, denunciando aquele movimento. Um brusco e rápido movimento, justamente em minha direção.
Puro instinto de preservação foi o que me moveu: dei um passo para trás, inclinei, rápida e levemente o corpo e os galhos da árvore, com seus olhos em brasa empunhando aquela lâmina passou, sibilante, bem na altura em que estava meu pescoço.
Embora tudo tenha sido assim tão rápido ainda pude sentir a frieza das folhas me empurrando, na continuação do movimento roçante daquela lâmina, brilhante e mortal.
Por ter sobrevivido, vi a ira daqueles olhos de brasa. Olhavam-me como a me dizer que aquilo era só o começo. Como de fato foi, pois hoje, depois de tantos anos aquela cena me persegue. Pior. Aquela cena se repete...
Bem, naquele instante não pude perceber muitos detalhes, mas a lâmina parecia um cutelo, uma foice... Quem vê filmes de terror ou lê histórias em quadrinho vai me entender. Aquela lâmina lembrava aquele que se vê nessas histórias de terror. Mas não era uma historinha. Era um fato que estava acontecendo, ali, comi-go!
E havia um vulto!
Não!
Não se tratava daquele vulto que a gente se acostumou a ver desenhado nas histórias em quadrinho, ou nos filmes de terror, representando a morte. Era pior, pois era verdadeira. E seu golpe se dirigia a mim.
Era um vulto com uma veste que, naquele escuro semi-prateado, perecia ser preta. Preta a veste, como pretas estavam as verdes e frias folhas que me haviam tocado, como que empurrando, naquele balançar do cutelo.
Junto com meu grito, que saiu rouco de terror, minhas pernas tentaram correr.
Não pude.
Eu estava como que preso ao chão. O susto como que me paralisara. E, no reflexo da esquiva, ao dar um passo para trás, mais o esforço da fuga, se juntaram para me derrubar.
Caí!
Caí, não derrubado pelo medo, pois o terror que senti me impedia de ter medo. Caí derrubado pelo meu próprio movimento de auto-preservação.
Caí como se os próprios galhos gelados da árvore me tivesse agarrado e atirado ao chão.
Nesse instante, ainda mais aterrorizado, vi a árvore se levantar sobre suas raízes e vir em minha direção. Seus olhos brilhavam. Seus olhos, garras mortais, com aquela lâmina brilhante, caindo sobre mim.
Por um instante bem mais ínfimo e rápido, senti que meu fim se aproximava. Seria minha morte? Tive um átimo de tempo para me perguntar.
Olhei tudo novamente, nesse infinitesimal instante. Talvez por isso é que mal percebi o vulto que se ocul-tava ao se mostrar por entre as folhagens daquela árvore. Uma arvora que eu já não sabia se me atacava ou me protegia.
É mentira o que dizem quando afirmam que na hora da morte se vê o filme da vida passando diante dos olhos. Não vi nada. Só via o perigo. E sentia: meu fim estava pairando sobre mim e eu nada podia fazer. Nem teria tempo de dizer, “ai meu deus”, como se alguma divindade qualquer pudesse fazer algo para me salvar.
Numa situação de perigo não são as divindades ou seja lá o que for, que interferem para nos salvar. O que nos salva é nossa capacidade de perceber o perigo e reagir sobre ele – ou contra ele. Mas tem que reagir rápido. Essa rapidez é o que determina a nos salvação ou a morte.
Não morri.
Mas eu também não reagi. Nada! O medo me paralisou.
Mas o desespero, como que se personificando, me jogou para um lado. Naquele gesto de me preservar, perdi o equilíbrio. Pelo menos é isso que imagino, hoje, depois de tanto tempo já passado. Mas naquele momento não deu tempo de pensar nada disso. Tudo estava acontecendo – e aconteceu – rápido demais.
Rolei ladeira abaixo caindo sobre pedras pontiagu-das. Só percebi que parei de cair quando meu corpo foi penetrado pelas navalhas da água gelada daquele lago que a natureza, em eras remotíssimas havia colocado ali.
Até parece que ele sempre estivera ali para me aparar naquela queda.
É verdade que, quando criança, em tardes de verão, me banhava naquelas águas escuras. Fazia isso com o coração apertado pelo medo. Medo de ser apanhado fazendo uma peraltice – criança a banhar-se num lago era uma grande peraltice; medo dos assombros que me invadiam a consciência-criança, assustada com as histórias de coisa de outro mundo, que ouvia dos mais velhos.
Antes de afundar, ainda vi. Melhor dizendo, senti que meus ouvidos captavam o som satânico de uma gargalhada como a zombar de meu medo ou a me dar uma lição para minha incredulidade.
Antes de afundar na água gelada pude perceber que os olhos de brasa, dos galhos da árvore se acalmavam. E, misturado às ramagens escurecidas pela escuridão da noite estrelada pude ver novamente o vulto. Pude distinguir suas formas da forma da árvore. Pude perceber que aqueles olhos mortais com aquela lâmina que me atacaram eram diferentes dos olhos de brasa dos galhos da árvore.
Só então pude perceber que a árvore, apesar de ter me assustado e quase me agredido, não se levantara sobre suas raízes para me atacar, mas para me proteger – ou para me avisar do perigo.
Não sei se desmaiei ou o que aconteceu comigo. A última coisa que me lembro de ter percebido foi a dor daquelas lâminas da água gelada penetrando em meu corpo, naquela eternidade de alguns segundos.
Mas eu sobrevivi. Não sei como, mas sobrevivi.
Sobrevivi para poder contar que aquela cena me persegue, dia e noite.
Claro que hoje já não sinto mais medo. A convivência diária com aquilo foi se tornando algo que habita em mim.
Não sei como nem porque aquela cena, ou melhor, aquele vulto, com aquela lâmina mortal, me acompanha.
O que sei é que depois daquela noite muitos milhares de pessoas morreram. Pessoas que nunca imagina-va sequer que existiam. Claro que entre essas que morreram alguns eram conhecidos. E o pior de tudo, alguns amigos. Todos mortos com a minha participação.
Sim! Não duvide! Nem se assuste! Apenas preste atenção no que estou te dizendo!
Depois daquela noite, posso dizer que tive alguma participação na morte de cada um de todos os que morreram... depois daquela noite a morte passou a ser mi-nha companheira!
Não. Não matei ninguém!
Só que aquele vulto me persegue.
Quer dizer, não me persegue a mim. Eu é que o vejo.
Para cada pessoa amiga, ou conhecida, o mesmo estranha que encontro na rua e que está para morrer eu vejo aquele mesmo vulto, noturno, confundindo-se com aqueles galhos e aqueles olhos de brasa, daquela árvore em que vi aquele vulto.
E, ainda hoje, quando olho para alguém, olho duas vezes. Uma vez para ver a pessoa e outra vez para ver se não vejo aquele vulto. Mas muitas vezes o vejo...
Muitas vezes ele está lá. E quando ele está... sei que haverá uma morte. E isso me acompanha, diariamente, ao longo de anos.
Nesses anos todos pude ver e saber quem seria a próxima pessoa a morrer, pois para cada futuro defunto, eu vejo o vulto acompanhando aquela pessoa. Como que esperando o momento exato. O exato momento da morte.
Um vulto indefinido, mas que se torna nítido e per-ceptível, com aquela roupa escura e aquele cutelo nas mãos.
E então, cada vez mais vejo o vulto, distinto do vul-to da árvore, que me derrubou e me empurrou para a ladeira, para dentro das navalhas da água gelada, sei que alguém está marcado.
Cada vez que vejo aquele vulto, perto de alguém sei que aquela pessoa vai morrer.
E, ainda hoje, depois de tanto tempo, depois de tantos anos, cada vez que olho para alguém, olho duas vezes.
E muitas vezes eu vejo o vulto ao lado da pessoa.
Exatamente esse vulto que está atrás de você, do teu lado direito, levantando uma lâmina à altura do teu pescoço...
Neri de Paula Carneiro
17 de mai. de 2007
Devastação total
No final do ano passado comentei uma entrevista do inglês, James Lovelock, na edição de 25/10/2006, da revista Veja. E agora, tendo visto os noticiários comentando o Relatório da ONU sobre o aquecimento Global lembrei-me dele.
É que agora, em nome da “segurança nacional” a ONU e os países donos do mundo resolveram ouvir o que os ambientalistas há décadas vêm falando: o planeta está doente. Com o agravante de que agora está doente em estado terminal. Naquela entrevista, James Lovelock, afirmava que devido ao aquecimento global a terra será “insuportável lá por 2040”. O relatório da Organização das Nações Unidas – na verdade feito por cerca de 120 cientistas de várias nacionalidades, a pedido da ONU – divulgado na véspera da Páscoa, antecede a catástrofe. Prevê a devastação para 2020: daqui a 13 anos!
Mas o impressionante disso é que a catástrofe não acontecerá em 2020, como um maremoto, um terremoto, uma erupção vulcânica ou uma tsunami... A catástrofe vem se instalando. Está se instalando. Já se instalou lentamente, tragicamente. Não há como fugir. Não tem para onde fugir... e não é filme de ficção científica. É morte, mesmo! Talvez eu e você nem sintamos tanto, pois podemos já estar com várias décadas de vida e quando as coisas estiverem piores, pode ser que nem estejamos mais vivos. Mas você já pensou no mundo que está se formando e que você está ajudando a produzir para seu filho ou filha, para seus netos?...
O fato é que o inglês fez uma previsão otimista, em relação ao que o atual relatório das Nações Unidas, afirma. O comentário da repórter Viviam Oswald, disponível em diz que é “sombrio o cenário traçado pelo novo relatório da ONU sobre as mudanças climáticas, cuja versão preliminar teve partes reveladas no domingo.” E a repórter continua: “O relatório adverte que se nada for feito para conter o atual ritmo de aquecimento global, as geleiras dos Andes tropicais desaparecerão em 15 anos. Nem a mais alta cadeia de montanhas da Terra escapará: o Himalaia pode perder um quinto de suas geleiras até 2030. Nos dois casos, a conseqüência será drástica redução da oferta de água para muitos países”. No caso dos Andes a redução das águas afetará a região da bacia amazônica que, como sabemos, não se alimenta somente das chuvas que se reduzirão, mas também, do ritmo das neves andinas.
A Agencia Brasil (Radiobrás) comenta o aumento da emissão de poluentes, em notícia disponível em, dizendo que o mundo aumentou “em 10% a emissão de gases poluentes, passando de 23 bilhões de toneladas ao ano em 1990 para mais de 26 bilhões de toneladas entre os anos de 2002 e 2005”. E, com o aumento do desmatamento e agressão aos mares, a natureza não está dando conta de restaurar o equilíbrio!
“E o que é que eu tenho com isso”? você pode estar se perguntando, como a me dizer que não pode fazer nada. Realmente! Possivelmente eu e você, como muitos outros, somos apenas vítimas. Mas somos vítimas coniventes. Pior ainda. Somos umas vítimas acomodadas. Enquanto algumas poucas nações e empresas estão banburrando de ganhar dinheiro enquanto matam o mundo, nós, a população que compramos seus produtos, ficamos assistindo. Quer dizer somos tão “toupeiras”, tão “antas” que pagamos para os privilegiados nos matarem. E ainda ficamos nos vangloriando e dizendo: “não tenho nada com isso!”
A questão é que a coisa vai nos atingir direitinho. Vai atingir a nós que estamos na maior reserva de água doce, do mundo. Ela está para secar – lembrem-se do ano passado, quando os noticiários mostraram aquelas cenas de peixes mortos por falta de água nos rios da Amazônia! E isso ocorreu por falta de chuvas que diminuirão ainda mais, em virtude do descongelamento dos Andes – o gelo derrete, escorre e não volta mais!
Alguém pode argumentar que no sul e sudeste as chuvas vão aumentar. Mas isso ao preço de aumento dos deslizamentos de encostas, atingindo favelas e provocando enchentes... e mortes! Mas uma grande parte do planeta vai ter diminuição das chuvas. No Nordeste do Brasil, que já é bastante castigado pela seca, o sertão vai virar deserto. A reposição de água dos depósitos subterrâneos deve cair em 70% até 2050. E o que diz respeito a nós: grande parte da Amazônia vai se transformar em cerrado
Segundo os noticiários o que foi mostrado é a parte boa do relatório. Então imagine o que tem de pior. Imagine as multidões de esfomeados e sedentos em crescentes guerras por água e comida. Imagine que as nações ricas se beneficiarão com isso. Imagine que as populações mais pobres serão ainda mais maltratadas...
Os otimistas dizem que ainda dá tempo de minimizar esses estragos. Um dos recursos seria as grandes indústrias poluidoras diminuírem a emissão de gazes poluentes. Mas isso é lá com eles. Isso é lá com os que decidem os destinos do mundo. Deles somos apenas vítimas.
O que nós podemos fazer é aqui em nossa região: iniciar um processo de reflorestamento e tentativa de salvar as nascentes. Principalmente nós de Rondônia que já devastamos mais da metade do estado. Nós não só podemos como devemos iniciar um processo de resgate. Nosso estado está agonizante: veja o volume de chuvas que diminui ano a ano!
Caso não façamos isso, além de sofrer a ação devastatória dos donos do mundo, sofreremos as conseqüências da nossa própria ação de acomodação criminosa. Se fossemos honestos, e não covardemente acomodados, começaríamos a nos mobilizar para resgatar o que nos cabe e cobrar medidas daqueles que podem agir politicamente.
Mas nosso medo de agir nos matará na acomodação omissa.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
É que agora, em nome da “segurança nacional” a ONU e os países donos do mundo resolveram ouvir o que os ambientalistas há décadas vêm falando: o planeta está doente. Com o agravante de que agora está doente em estado terminal. Naquela entrevista, James Lovelock, afirmava que devido ao aquecimento global a terra será “insuportável lá por 2040”. O relatório da Organização das Nações Unidas – na verdade feito por cerca de 120 cientistas de várias nacionalidades, a pedido da ONU – divulgado na véspera da Páscoa, antecede a catástrofe. Prevê a devastação para 2020: daqui a 13 anos!
Mas o impressionante disso é que a catástrofe não acontecerá em 2020, como um maremoto, um terremoto, uma erupção vulcânica ou uma tsunami... A catástrofe vem se instalando. Está se instalando. Já se instalou lentamente, tragicamente. Não há como fugir. Não tem para onde fugir... e não é filme de ficção científica. É morte, mesmo! Talvez eu e você nem sintamos tanto, pois podemos já estar com várias décadas de vida e quando as coisas estiverem piores, pode ser que nem estejamos mais vivos. Mas você já pensou no mundo que está se formando e que você está ajudando a produzir para seu filho ou filha, para seus netos?...
O fato é que o inglês fez uma previsão otimista, em relação ao que o atual relatório das Nações Unidas, afirma. O comentário da repórter Viviam Oswald, disponível em
A Agencia Brasil (Radiobrás) comenta o aumento da emissão de poluentes, em notícia disponível em
“E o que é que eu tenho com isso”? você pode estar se perguntando, como a me dizer que não pode fazer nada. Realmente! Possivelmente eu e você, como muitos outros, somos apenas vítimas. Mas somos vítimas coniventes. Pior ainda. Somos umas vítimas acomodadas. Enquanto algumas poucas nações e empresas estão banburrando de ganhar dinheiro enquanto matam o mundo, nós, a população que compramos seus produtos, ficamos assistindo. Quer dizer somos tão “toupeiras”, tão “antas” que pagamos para os privilegiados nos matarem. E ainda ficamos nos vangloriando e dizendo: “não tenho nada com isso!”
A questão é que a coisa vai nos atingir direitinho. Vai atingir a nós que estamos na maior reserva de água doce, do mundo. Ela está para secar – lembrem-se do ano passado, quando os noticiários mostraram aquelas cenas de peixes mortos por falta de água nos rios da Amazônia! E isso ocorreu por falta de chuvas que diminuirão ainda mais, em virtude do descongelamento dos Andes – o gelo derrete, escorre e não volta mais!
Alguém pode argumentar que no sul e sudeste as chuvas vão aumentar. Mas isso ao preço de aumento dos deslizamentos de encostas, atingindo favelas e provocando enchentes... e mortes! Mas uma grande parte do planeta vai ter diminuição das chuvas. No Nordeste do Brasil, que já é bastante castigado pela seca, o sertão vai virar deserto. A reposição de água dos depósitos subterrâneos deve cair em 70% até 2050. E o que diz respeito a nós: grande parte da Amazônia vai se transformar em cerrado
Segundo os noticiários o que foi mostrado é a parte boa do relatório. Então imagine o que tem de pior. Imagine as multidões de esfomeados e sedentos em crescentes guerras por água e comida. Imagine que as nações ricas se beneficiarão com isso. Imagine que as populações mais pobres serão ainda mais maltratadas...
Os otimistas dizem que ainda dá tempo de minimizar esses estragos. Um dos recursos seria as grandes indústrias poluidoras diminuírem a emissão de gazes poluentes. Mas isso é lá com eles. Isso é lá com os que decidem os destinos do mundo. Deles somos apenas vítimas.
O que nós podemos fazer é aqui em nossa região: iniciar um processo de reflorestamento e tentativa de salvar as nascentes. Principalmente nós de Rondônia que já devastamos mais da metade do estado. Nós não só podemos como devemos iniciar um processo de resgate. Nosso estado está agonizante: veja o volume de chuvas que diminui ano a ano!
Caso não façamos isso, além de sofrer a ação devastatória dos donos do mundo, sofreremos as conseqüências da nossa própria ação de acomodação criminosa. Se fossemos honestos, e não covardemente acomodados, começaríamos a nos mobilizar para resgatar o que nos cabe e cobrar medidas daqueles que podem agir politicamente.
Mas nosso medo de agir nos matará na acomodação omissa.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
12 de mai. de 2007
OBSERVAÇÕES DE MÃE
Este texto não é laudatório às mães e nem uma alusão ao dia das mães. Trata-se apenas de algumas considerações que podem ser feitas a partir do que algumas mães me disseram terem ouvido de professores.
Este, portanto, é um texto com a finalidade de polemizar com meus colegas professores.
Dia desses ouvi esta observação, de uma mãe indignada. Ela dizia que, como sempre faz, procurou a escola para ver o desenvolvimento de seu filho, de 5ª série. Fim de ano chegando, notas baixas, essas coisas. E quis, com razão, saber o por que das notas baixas. E ouviu da professora de matemática: “É problema de interpretação! As crianças chegam à 5ª série sem saber interpretar o que lêem. As professoras de 1ª à 4ª série são despreparadas”
E a mãe, em questão disse que teve que concordar, pois seu filho mal sabe ler. E não sabe dizer o que leu! Mas a indignação dessa mãe não foi por causa disso. Foi porque a professora de matemática, primeiro: não está ensinando essa criança a interpretar, pois se já sabe que o problema é esse, então que o solucione. Segundo: tirou a responsabilidade de suas costas e lançou a culpa em um colega, que não pode se defender. Terceiro: essa professora de matemática simplesmente está fugindo do problema.
Mas as observações não param por aí. Outra mãe, também preocupada com as notas baixas do filho ouviu da supervisora: “não se preocupe com as notas baixas. Ainda tem exame e recuperação, até o fim do ano!” Quer dizer, então, que ainda no meio do ano a escola já pensa em aprovar o aluno através da recuperação e do exame? Mas é essa a finalidade da escola? Eu pensava que a finalidade era ajudar o aluno a aprender. Como fica a questão do ensino-aprendizagem? Eu estou enganado ou não vale mais aquela afirmação de que se o aluno sabe a nota vem como conseqüência?! E para ele saber tem-se que lhe ensinar!
Percebam como a observação da primeira mãe se encaixa com a segunda. A escola preocupada em aprovar através do exame e recuperação está se esquecendo de ensinar. E não ensinando a criança “passa de ano” sem saber. E lá na frente encontra um professor que, para fugir de sua responsabilidade diz: “eles não sabem interpretar!”
Esta dispensa comentário. A mãe disse que sua filha sempre gostou de inglês (não sei se sebe bem o português!). E lá pelas tantas a menina de oitava série pediu para ir ao banheiro. Só que falou em inglês – na aula de inglês – e o professor (de inglês) não sabia o significado da expressão proferida pela menina! (claro que aqui pode entrar o problema da pronuncia, etc.) Mas, diz a mãe, sua filha sempre foi elogiada pela facilidade e fluência. Aí fica a indagação: ou os professores anteriores não sabiam e “empurraram” a menina ou o atual professor é que não sabe... de qualquer forma esse problema leva a outra situação, também comentada por, desta vez, um pai.
Esse pai, também reclamando do falta de preparo de um professor disse que ouviu do diretor da escola: “sinto muito, mas não podemos fazer nada. Sabemos que o professor é despreparado, mas é o que a representação de ensino nos mandou. Se não aceitarmos esse ficaremos sem professor. O senhor não quer que seu filho fique sem professor, não é mesmo?!”
Perceberam o tom de ameaça! Ou você aceita esse professor (despreparado, que não preparará o aluno. E no futuro outros professores dirão que ele não foi bem preparado nas séries seguintes...) ou seu filho fica sem professor! Que dilema, né! Será que não existe um controle de qualidade? Um PROCON? O que é melhor: ter um professor despreparando o estudante ou não ter o professor? E o pior de tudo é o diretor dizendo que não pode fazer nada! Se não pode fazer nada então não tem por que ter direção (e supervisão e orientação e tudo o mais) numa escola!
Mas a maior vem agora. Eu mantenho um cursinho pré-vestibular. Portanto seria legítimo de minha parte, esperar que as escolas deixassem os alunos mal preparados para que eles venham procurar o cursinho para passar no vestibular. Mas acontece que pago imposto e quero que meu dinheiro seja bem aplicado. Principalmente o dinheiro destinado à educação. Por isso acredito ser inaceitável que a escola faça este tipo de recomendação aos pais. Principalmente neste caso desta avó, que vive de aposentadoria.
A velhinha nos procurou, junto com seu neto da oitava série. Queria aulas particulares. “a professora disse que se meu neto não fizer umas aulas particulares não terá condição de passar!”
O que esse tipo de professor está fazendo numa escola? Se o professor manda seu aluno procurar aula particular é porque está confessando sua burrice e não merece o salário que recebe, pois não está ensinando! – É bom lembrar que o professor recebe um salário que não é de jogar fora (podia ser melhor, mas o de Rondônia já é um dos bons, que se paga no Brasil)
Não me cabe, aqui, fazer um julgamento de alguns maus colegas ou do sistema escolar. Mas é bom lembrar que o servidor público é servidor da população que lhe paga os salários. Nem que seja só por isso a população merece ser melhor atendida. E isso vale para a saúde, segurança e outros serviços públicos!
Neri de Paula Carneiro
Este, portanto, é um texto com a finalidade de polemizar com meus colegas professores.
Dia desses ouvi esta observação, de uma mãe indignada. Ela dizia que, como sempre faz, procurou a escola para ver o desenvolvimento de seu filho, de 5ª série. Fim de ano chegando, notas baixas, essas coisas. E quis, com razão, saber o por que das notas baixas. E ouviu da professora de matemática: “É problema de interpretação! As crianças chegam à 5ª série sem saber interpretar o que lêem. As professoras de 1ª à 4ª série são despreparadas”
E a mãe, em questão disse que teve que concordar, pois seu filho mal sabe ler. E não sabe dizer o que leu! Mas a indignação dessa mãe não foi por causa disso. Foi porque a professora de matemática, primeiro: não está ensinando essa criança a interpretar, pois se já sabe que o problema é esse, então que o solucione. Segundo: tirou a responsabilidade de suas costas e lançou a culpa em um colega, que não pode se defender. Terceiro: essa professora de matemática simplesmente está fugindo do problema.
Mas as observações não param por aí. Outra mãe, também preocupada com as notas baixas do filho ouviu da supervisora: “não se preocupe com as notas baixas. Ainda tem exame e recuperação, até o fim do ano!” Quer dizer, então, que ainda no meio do ano a escola já pensa em aprovar o aluno através da recuperação e do exame? Mas é essa a finalidade da escola? Eu pensava que a finalidade era ajudar o aluno a aprender. Como fica a questão do ensino-aprendizagem? Eu estou enganado ou não vale mais aquela afirmação de que se o aluno sabe a nota vem como conseqüência?! E para ele saber tem-se que lhe ensinar!
Percebam como a observação da primeira mãe se encaixa com a segunda. A escola preocupada em aprovar através do exame e recuperação está se esquecendo de ensinar. E não ensinando a criança “passa de ano” sem saber. E lá na frente encontra um professor que, para fugir de sua responsabilidade diz: “eles não sabem interpretar!”
Esta dispensa comentário. A mãe disse que sua filha sempre gostou de inglês (não sei se sebe bem o português!). E lá pelas tantas a menina de oitava série pediu para ir ao banheiro. Só que falou em inglês – na aula de inglês – e o professor (de inglês) não sabia o significado da expressão proferida pela menina! (claro que aqui pode entrar o problema da pronuncia, etc.) Mas, diz a mãe, sua filha sempre foi elogiada pela facilidade e fluência. Aí fica a indagação: ou os professores anteriores não sabiam e “empurraram” a menina ou o atual professor é que não sabe... de qualquer forma esse problema leva a outra situação, também comentada por, desta vez, um pai.
Esse pai, também reclamando do falta de preparo de um professor disse que ouviu do diretor da escola: “sinto muito, mas não podemos fazer nada. Sabemos que o professor é despreparado, mas é o que a representação de ensino nos mandou. Se não aceitarmos esse ficaremos sem professor. O senhor não quer que seu filho fique sem professor, não é mesmo?!”
Perceberam o tom de ameaça! Ou você aceita esse professor (despreparado, que não preparará o aluno. E no futuro outros professores dirão que ele não foi bem preparado nas séries seguintes...) ou seu filho fica sem professor! Que dilema, né! Será que não existe um controle de qualidade? Um PROCON? O que é melhor: ter um professor despreparando o estudante ou não ter o professor? E o pior de tudo é o diretor dizendo que não pode fazer nada! Se não pode fazer nada então não tem por que ter direção (e supervisão e orientação e tudo o mais) numa escola!
Mas a maior vem agora. Eu mantenho um cursinho pré-vestibular. Portanto seria legítimo de minha parte, esperar que as escolas deixassem os alunos mal preparados para que eles venham procurar o cursinho para passar no vestibular. Mas acontece que pago imposto e quero que meu dinheiro seja bem aplicado. Principalmente o dinheiro destinado à educação. Por isso acredito ser inaceitável que a escola faça este tipo de recomendação aos pais. Principalmente neste caso desta avó, que vive de aposentadoria.
A velhinha nos procurou, junto com seu neto da oitava série. Queria aulas particulares. “a professora disse que se meu neto não fizer umas aulas particulares não terá condição de passar!”
O que esse tipo de professor está fazendo numa escola? Se o professor manda seu aluno procurar aula particular é porque está confessando sua burrice e não merece o salário que recebe, pois não está ensinando! – É bom lembrar que o professor recebe um salário que não é de jogar fora (podia ser melhor, mas o de Rondônia já é um dos bons, que se paga no Brasil)
Não me cabe, aqui, fazer um julgamento de alguns maus colegas ou do sistema escolar. Mas é bom lembrar que o servidor público é servidor da população que lhe paga os salários. Nem que seja só por isso a população merece ser melhor atendida. E isso vale para a saúde, segurança e outros serviços públicos!
Neri de Paula Carneiro
Mais que você
Nesta arrancada final para o fim do ano e começo das dores de barriga diante das provas do vestibular, quero levar um papo com os futuros universitários. Não que deseje fazer distinção ou discriminação de pessoas, mas por este Brasilzão que se esparrama de norte a sul e de leste a oeste tem um bocado de gente que não vai passar no vestibular.
E não vai passar, não por que não tenha estudado, mas porque não sabe pensar. E, como não sabe pensar, não consegue interpretar as questões. E não interpretando as questões... por isso é que este texto, também não será compreendido a não ser por aqueles que serão os próximos universitários. E é a esses que me dirijo.
O que estou querendo dizer é que tenho, não alguns conselhos aos candidatos à universidade, mas uma proposta de reflexão. Também quero dizer que na prática, a coisa não é tão simples como se apresenta nesta reflexão. Mas um pouco de pensamento positivo também ajuda. E isso já é uma forma refletir: quem pensa negativo corre o risco de ficar no saldo negativo.
A primeira reflexão é sobre a necessidade de manter a calma! Quem se desespera tem muito mais chances de errar e se dar mal. Portanto, esfrie a cabeça! Relaxe e ... Aproveite cada momento da vida, sem deixar de se preparar com muita leitura e atenção às aulas (para os que ainda não concluíram o terceiro ano ou estão em algum cursinho). E para quem não está estudando, estude!
Outra dica é sobre a análise da concorrência. Não se desespere. Também aqui vale o preceito de manter a calma. E faça o raciocínio que lhe proponho. Veja qual o número de candidatos por vaga. Suponha que sejam 50 vagas e a concorrência esteja na ordem de onze por um.
Neste ponto eu tomo emprestada uma história que se costuma contar em treinamento de empresários a fim de motivá-los para a superação das dificuldades e da concorrência.
Conta-se que dois homens, possivelmente turistas, andavam, calmamente numa savana africana. Lá pelas tantas aparece um leão faminto disposto a almoçar os turistas. O primeiro dos homens olha para o outro e diz: vamos correr! E o outro concorda. É necessário começar a corrida pela vida.
Só que o outro, calmamente, se senta num tronco. Tira a mochila das costas e de dentro tira um calçado próprio para corrida. O primeiro, com calçado inadequado, começa a fazer gozação com o outro: “Prá que essa preparação toda? Por acaso você pensa que vai conseguir correr mais do que o leão, só por que está com esse tênis novo e próprio para corrida?”
Enquanto acabava de se calçar, e com a maior calma que se pode imaginar em uma situação como esta, o outro responde: “Não estou querendo correr mais do que o leão! Eu só tenho que correr mais do que você!”
Então retomemos o número de vagas, que nesta nossa conversa é hipotética 50 vagas numa ordem de 11 por 1. Quer dizer, para cada uma das cinqüenta vagas existem onze candidatos.
É nessa hora que os candidatos despreparados se desesperam...
E aqui entra o candidato esperto. Entra com sua esperteza e para a universidade. Entra com a esperteza porque o despreparado se desespera. E, como sabemos, o desespero é mau conselheiro. Mal aconselhado o vestibulando desesperado esquenta a cabeça e se perde na hora de responder às questões: ou se esquece do que sabia ou marca errado no gabarito. Tudo isso porque sabe que tem onze por um.
Já o esperto, ao ficar sabendo o índice de concorrência se acalma. E diz: “tá no papo!” e papa uma das vagas. O candidato esperto sabe que não tem que concorrer pelas 50 vagas. Sabe que só tem que assegurar uma vaga. O candidato esperto sabe que não importa se entra na primeira ou na qüinquagésima vaga. Sabe que tem que entrar, e entra.
O candidato esperto faz o que fez um daqueles dois turistas, na savana africana. Preparou-se, calmamente. E sabe que seus concorrentes não fizeram a sua preparação. Aí, então ele se senta. Acalma-se e sua calma inspira mais agitação aos concorrentes. E se alguns de seus concorrentes lhe perguntam o motivo de sua calma, ele responde que não são muitos concorrentes. E diz que só tem que superar dez concorrentes. Até pode usar a expressão: “não tenho que correr mais do que o leão; tenho que correr mais que você!” E acrescenta que os outros quarenta e nove que entrarão para a universidade, eliminarão, cada um, outros dez concorrentes. E assim os cinqüenta mais preparados entram para a universidade.
E entram por que sabem que não precisam correr mais do que o leão.
Então meu amigo que se prepara para passar no vestibular. Não precisa perder a calma. Basta olhar para seus próprios méritos, acreditar em si mesmo e partir para a corrida, sabendo que tem um lugar esperando por você!
Neri de Paula Carneiro
E não vai passar, não por que não tenha estudado, mas porque não sabe pensar. E, como não sabe pensar, não consegue interpretar as questões. E não interpretando as questões... por isso é que este texto, também não será compreendido a não ser por aqueles que serão os próximos universitários. E é a esses que me dirijo.
O que estou querendo dizer é que tenho, não alguns conselhos aos candidatos à universidade, mas uma proposta de reflexão. Também quero dizer que na prática, a coisa não é tão simples como se apresenta nesta reflexão. Mas um pouco de pensamento positivo também ajuda. E isso já é uma forma refletir: quem pensa negativo corre o risco de ficar no saldo negativo.
A primeira reflexão é sobre a necessidade de manter a calma! Quem se desespera tem muito mais chances de errar e se dar mal. Portanto, esfrie a cabeça! Relaxe e ... Aproveite cada momento da vida, sem deixar de se preparar com muita leitura e atenção às aulas (para os que ainda não concluíram o terceiro ano ou estão em algum cursinho). E para quem não está estudando, estude!
Outra dica é sobre a análise da concorrência. Não se desespere. Também aqui vale o preceito de manter a calma. E faça o raciocínio que lhe proponho. Veja qual o número de candidatos por vaga. Suponha que sejam 50 vagas e a concorrência esteja na ordem de onze por um.
Neste ponto eu tomo emprestada uma história que se costuma contar em treinamento de empresários a fim de motivá-los para a superação das dificuldades e da concorrência.
Conta-se que dois homens, possivelmente turistas, andavam, calmamente numa savana africana. Lá pelas tantas aparece um leão faminto disposto a almoçar os turistas. O primeiro dos homens olha para o outro e diz: vamos correr! E o outro concorda. É necessário começar a corrida pela vida.
Só que o outro, calmamente, se senta num tronco. Tira a mochila das costas e de dentro tira um calçado próprio para corrida. O primeiro, com calçado inadequado, começa a fazer gozação com o outro: “Prá que essa preparação toda? Por acaso você pensa que vai conseguir correr mais do que o leão, só por que está com esse tênis novo e próprio para corrida?”
Enquanto acabava de se calçar, e com a maior calma que se pode imaginar em uma situação como esta, o outro responde: “Não estou querendo correr mais do que o leão! Eu só tenho que correr mais do que você!”
Então retomemos o número de vagas, que nesta nossa conversa é hipotética 50 vagas numa ordem de 11 por 1. Quer dizer, para cada uma das cinqüenta vagas existem onze candidatos.
É nessa hora que os candidatos despreparados se desesperam...
E aqui entra o candidato esperto. Entra com sua esperteza e para a universidade. Entra com a esperteza porque o despreparado se desespera. E, como sabemos, o desespero é mau conselheiro. Mal aconselhado o vestibulando desesperado esquenta a cabeça e se perde na hora de responder às questões: ou se esquece do que sabia ou marca errado no gabarito. Tudo isso porque sabe que tem onze por um.
Já o esperto, ao ficar sabendo o índice de concorrência se acalma. E diz: “tá no papo!” e papa uma das vagas. O candidato esperto sabe que não tem que concorrer pelas 50 vagas. Sabe que só tem que assegurar uma vaga. O candidato esperto sabe que não importa se entra na primeira ou na qüinquagésima vaga. Sabe que tem que entrar, e entra.
O candidato esperto faz o que fez um daqueles dois turistas, na savana africana. Preparou-se, calmamente. E sabe que seus concorrentes não fizeram a sua preparação. Aí, então ele se senta. Acalma-se e sua calma inspira mais agitação aos concorrentes. E se alguns de seus concorrentes lhe perguntam o motivo de sua calma, ele responde que não são muitos concorrentes. E diz que só tem que superar dez concorrentes. Até pode usar a expressão: “não tenho que correr mais do que o leão; tenho que correr mais que você!” E acrescenta que os outros quarenta e nove que entrarão para a universidade, eliminarão, cada um, outros dez concorrentes. E assim os cinqüenta mais preparados entram para a universidade.
E entram por que sabem que não precisam correr mais do que o leão.
Então meu amigo que se prepara para passar no vestibular. Não precisa perder a calma. Basta olhar para seus próprios méritos, acreditar em si mesmo e partir para a corrida, sabendo que tem um lugar esperando por você!
Neri de Paula Carneiro
8 de mai. de 2007
Burocracia
Burocracia, em nossa bela língua nacional, é uma corruptela de uma palavra francesa que significa escritório – digo isso porque o mico que hoje pagamos pelos americanismos já o pagávamos, tempos atrás, pelo modismo francês. Mas isso pouco tem a ver com o que hoje quero comentar. Hoje quero falar da burocracia que impera e emperra este país.
Acredite ou não o que vou contar é a mais pura verdade e, não duvido, você deve conhecer casos semelhantes – ou piores!
Um amigo meu dia desses precisou de uns documentos que deveriam ser expedidos por um determinado órgão público. Chegou lá. Informou-se sobre os procedimentos para solicitar e receber o tal documento: “você tem que preencher este formulário, requerendo” – disse a pessoa que atendia. Meu amigo, que tinha pressa do documento, pegou sua caneta e preencheu o formulário; assinou e entregou. “Não, meu amigo, você tem que preencher usando aquela máquina ali”, retorna o atendente, apontando para uma velha máquina de datilografia, ao lado. Meu amigo pediu desculpa – quem precisa de um documento tem que se sujeitar a certas humilhações – e pediu outro formulário, pois o primeiro fora preenchido à caneta, na frente do funcionário que atendia e que exigia que o preenchimento fosse à máquina.
Não pense que a história acabou com o fornecimento de um novo formulário. O funcionário dessa dita repartição pública – o escritório que se traduz por “burrô”, em francês, de onde deriva a tal burocracia! – procurou pelas gavetas e não achou outra via do tal formulário. Ato contínuo, foi ao computador, selecionou um documento e o imprimiu – era o formulário. Meu amigo só pensou, mas não quis perguntar: “Já que o formulário está no computador, por que, o próprio funcionário não o preenche e o requerente só assina....?” Meu amigo é amigo da burocracia. Pegou a nova cópia, foi para a empoeirada máquina de datilografia e preencheu o formulário que poderia ser agilizado pelo computador.
A história ainda não terminou. Depois de assinar e entregar o requerimento, meu amigo ouviu a sentença: “O senhor pode passar aqui amanhã, às 10 horas!”. Meu amigo saiu. E voltou no outro dia às 10 horas. O documento estava pronto. Só faltava o chefe assinar!
O chefe estava na mesa ao lado. Meia hora depois o documento estava assinado. Meu amigo recebeu o documento e passou os olhos para conferir. Seu nome estava escrito errado. Sentiu o coração esfriar, pensando na dificuldade que deveria enfrentar novamente para receber o documento; pensou que receberia o documento só no outro dia...
Mas não foi o que aconteceu. Meu amigo mostrou que seu nome estava errado, o funcionário conferiu e constatou o erro – só disse que quem havia digitado fora seu colega – e foi para o computador que fora usado na véspera para emitir o formulário. E o funcionário deu os comandos, corrigiu a letra que estava errada e imprimiu o novo documento. Menos de 5 minutos depois o meu amigo estava saindo com o documento que necessitava....
Conseguiu sentir o drama dos brasileiros: 24 horas de espera (sem contar a meia hora de espera pela assinatura!) por um documento que poderia ser emitido em menos de 5 minutos.
Dispensa comentários, não é mesmo?!
Mas vou comentar! Se não fizer isso não fica um texto burocrático!!!!
Pense um pouquinho: um órgão público tem a função de atender – e bem – ao público. Então esse órgão e informatizado. A gente pensa que isso é para melhorar o atendimento, apressar o processo. Mas não. O requerente tem que preencher, numa velha máquina de escrever (nada contra ela, que teve seu espaço e foi muito útil, até ser substituída pela nova tecnologia informatizada!), um formulário que poderia ser preenchido no computador. Aliás não há necessidade desse formulário, pois o requerente está ali na frente, e o documento solicitado está disponível no mesmo computador... Note-se que poderia se ter acesso a essas informações em nossa própria casa, pela internet, como se tem para várias certidões da receita federal, por exemplo....
Com os programas de busca, o computador realiza a procura da ficha da pessoa em segundos. É só atualizar os dados exigidos e mandar imprimir. E alguns órgãos públicos – e alguns privados também! – mandam o sujeito esperar 24 horas por um documento que pode ser emitido em apenas alguns minutos.
Será que estão brincando de serviço público. Ou será que estão pensando que o contribuinte – que paga impostos, que paga o salário daquele servidor que atende de má vontade – procura o órgão de serviço público só por brincadeira? Será que pensam que o povo não percebe a má vontade em atender? Será que quem gerencia os órgãos públicos ... ?
Neri de Paula Carneiro
Colégio Galileu Galilei
R. Moura
(Publicado em 2005 em Folha da Mata)
Acredite ou não o que vou contar é a mais pura verdade e, não duvido, você deve conhecer casos semelhantes – ou piores!
Um amigo meu dia desses precisou de uns documentos que deveriam ser expedidos por um determinado órgão público. Chegou lá. Informou-se sobre os procedimentos para solicitar e receber o tal documento: “você tem que preencher este formulário, requerendo” – disse a pessoa que atendia. Meu amigo, que tinha pressa do documento, pegou sua caneta e preencheu o formulário; assinou e entregou. “Não, meu amigo, você tem que preencher usando aquela máquina ali”, retorna o atendente, apontando para uma velha máquina de datilografia, ao lado. Meu amigo pediu desculpa – quem precisa de um documento tem que se sujeitar a certas humilhações – e pediu outro formulário, pois o primeiro fora preenchido à caneta, na frente do funcionário que atendia e que exigia que o preenchimento fosse à máquina.
Não pense que a história acabou com o fornecimento de um novo formulário. O funcionário dessa dita repartição pública – o escritório que se traduz por “burrô”, em francês, de onde deriva a tal burocracia! – procurou pelas gavetas e não achou outra via do tal formulário. Ato contínuo, foi ao computador, selecionou um documento e o imprimiu – era o formulário. Meu amigo só pensou, mas não quis perguntar: “Já que o formulário está no computador, por que, o próprio funcionário não o preenche e o requerente só assina....?” Meu amigo é amigo da burocracia. Pegou a nova cópia, foi para a empoeirada máquina de datilografia e preencheu o formulário que poderia ser agilizado pelo computador.
A história ainda não terminou. Depois de assinar e entregar o requerimento, meu amigo ouviu a sentença: “O senhor pode passar aqui amanhã, às 10 horas!”. Meu amigo saiu. E voltou no outro dia às 10 horas. O documento estava pronto. Só faltava o chefe assinar!
O chefe estava na mesa ao lado. Meia hora depois o documento estava assinado. Meu amigo recebeu o documento e passou os olhos para conferir. Seu nome estava escrito errado. Sentiu o coração esfriar, pensando na dificuldade que deveria enfrentar novamente para receber o documento; pensou que receberia o documento só no outro dia...
Mas não foi o que aconteceu. Meu amigo mostrou que seu nome estava errado, o funcionário conferiu e constatou o erro – só disse que quem havia digitado fora seu colega – e foi para o computador que fora usado na véspera para emitir o formulário. E o funcionário deu os comandos, corrigiu a letra que estava errada e imprimiu o novo documento. Menos de 5 minutos depois o meu amigo estava saindo com o documento que necessitava....
Conseguiu sentir o drama dos brasileiros: 24 horas de espera (sem contar a meia hora de espera pela assinatura!) por um documento que poderia ser emitido em menos de 5 minutos.
Dispensa comentários, não é mesmo?!
Mas vou comentar! Se não fizer isso não fica um texto burocrático!!!!
Pense um pouquinho: um órgão público tem a função de atender – e bem – ao público. Então esse órgão e informatizado. A gente pensa que isso é para melhorar o atendimento, apressar o processo. Mas não. O requerente tem que preencher, numa velha máquina de escrever (nada contra ela, que teve seu espaço e foi muito útil, até ser substituída pela nova tecnologia informatizada!), um formulário que poderia ser preenchido no computador. Aliás não há necessidade desse formulário, pois o requerente está ali na frente, e o documento solicitado está disponível no mesmo computador... Note-se que poderia se ter acesso a essas informações em nossa própria casa, pela internet, como se tem para várias certidões da receita federal, por exemplo....
Com os programas de busca, o computador realiza a procura da ficha da pessoa em segundos. É só atualizar os dados exigidos e mandar imprimir. E alguns órgãos públicos – e alguns privados também! – mandam o sujeito esperar 24 horas por um documento que pode ser emitido em apenas alguns minutos.
Será que estão brincando de serviço público. Ou será que estão pensando que o contribuinte – que paga impostos, que paga o salário daquele servidor que atende de má vontade – procura o órgão de serviço público só por brincadeira? Será que pensam que o povo não percebe a má vontade em atender? Será que quem gerencia os órgãos públicos ... ?
Neri de Paula Carneiro
Colégio Galileu Galilei
R. Moura
(Publicado em 2005 em Folha da Mata)
7 de mai. de 2007
Visual Deslumbrante
Ao acordar, de manhã, a situação é desesperadora. O desalinho dos cabelos emaranhados e esgadelhados recebe uma escovadela: Estou pronto!
Saindo para rua, em direção ao trabalho, qualquer pé-de-vento põe a perder todo o tempo gasto diante do espelho e a revoada é geral: cabelos para todo lado!
No ambiente de trabalho sempre tem um desesperado para ligar o ventilador, conturbando ainda mais o emaranhado capilar que teve origem com a ventania da rua. Não sei quando vão me poupar desse constrangimento e instalar um ar condicionado!
As obrigações do trabalho não permitem tempo para paradas de embelezamento e por isso vejo-me obrigado a passar o dia trabalhando com os cabelos despenteados pelo vento e atiçados pelo ventilador: Sou um leão de juba eriçada!
Volto para casa, ao final do expediente, todo despenteado, cansado, suado, esbodegado: um bagaço!
Em casa, depois de um rapidíssimo descanso, o reconforto de um banho e um novo problema: a parada diante do espelho tentando arrumar, pentear, colocar em ordem a melena ondulada, pois tenho que sair novamente. Mais Trabalho!
Chego outra vez à escola, entro em sala de aula ainda bem arrumado, penteado e reconfortado, mas um acalorado atrasadinho não esquece do ventilador e o suplício recomeça com uma revoada de cabelos a fazer cócegas pela fronte, a ponta dos fios de cabelo são formigas andando sem rumo movidos pelo ventilar ventilante do ventilador!
Mas estou pelo pescoço!
Um dia desses tomo a resolução definitiva e radicalizo: Logo de manhã, logo ao acordar, antes de perder tempo penteando e arrumando os cabelos para serem novamente desarrumados eu dou um basta! E não mais os usarei longos!
Um dia desses, bem cedinho deixarei de ser incomodado. E a solução final será radical. Usarei lâmina do barbeador para dar o toque radical. Chega de ser incomodado por essa meia dezena de fios de cabelos!
Nesse dia esse dia será o grande dia! Nesse dia serei livre e nunca mais serei careca de alguns fios de cabelo. Nesse dia e a partir desse dia nunca mais. A partir desse dia serei um careca completo, radical, assumido.
Neri de Paula Carneiro
Saindo para rua, em direção ao trabalho, qualquer pé-de-vento põe a perder todo o tempo gasto diante do espelho e a revoada é geral: cabelos para todo lado!
No ambiente de trabalho sempre tem um desesperado para ligar o ventilador, conturbando ainda mais o emaranhado capilar que teve origem com a ventania da rua. Não sei quando vão me poupar desse constrangimento e instalar um ar condicionado!
As obrigações do trabalho não permitem tempo para paradas de embelezamento e por isso vejo-me obrigado a passar o dia trabalhando com os cabelos despenteados pelo vento e atiçados pelo ventilador: Sou um leão de juba eriçada!
Volto para casa, ao final do expediente, todo despenteado, cansado, suado, esbodegado: um bagaço!
Em casa, depois de um rapidíssimo descanso, o reconforto de um banho e um novo problema: a parada diante do espelho tentando arrumar, pentear, colocar em ordem a melena ondulada, pois tenho que sair novamente. Mais Trabalho!
Chego outra vez à escola, entro em sala de aula ainda bem arrumado, penteado e reconfortado, mas um acalorado atrasadinho não esquece do ventilador e o suplício recomeça com uma revoada de cabelos a fazer cócegas pela fronte, a ponta dos fios de cabelo são formigas andando sem rumo movidos pelo ventilar ventilante do ventilador!
Mas estou pelo pescoço!
Um dia desses tomo a resolução definitiva e radicalizo: Logo de manhã, logo ao acordar, antes de perder tempo penteando e arrumando os cabelos para serem novamente desarrumados eu dou um basta! E não mais os usarei longos!
Um dia desses, bem cedinho deixarei de ser incomodado. E a solução final será radical. Usarei lâmina do barbeador para dar o toque radical. Chega de ser incomodado por essa meia dezena de fios de cabelos!
Nesse dia esse dia será o grande dia! Nesse dia serei livre e nunca mais serei careca de alguns fios de cabelo. Nesse dia e a partir desse dia nunca mais. A partir desse dia serei um careca completo, radical, assumido.
Neri de Paula Carneiro
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