4 de set. de 2007

O homem, que realidade é essa?

As pessoas vivem em grupos. Essa constatação não re-presenta a realidade total da evolução do ser humano nem da sociedade humana; também não esgota as características do ser humano, hoje visto e entendido como ser de relações. Outras questões precisam ser respondidas: as pessoas sem-pre viveram e sempre quiseram viver em grupo? O que moveu os indivíduos a se agruparem?
Parece que não é errado dizer que nem sempre os seres humanos viveram em grupo, formando o que chamamos de sociedade. Também não erramos quando afirmamos que o ser humano está, constantemente, insatisfeito. E se está insatisfeito é porque possui necessidades. Essa parece ser a principal e, talvez, primeira explicação para a organização das sociedades humanas. A satisfação das necessidades.
Sendo assim podemos dizer que as pessoas gostam de estar sozinhas, mas vivem em grupos. Gostam de estar sozi-nhas porque a solidão permite liberdades que não é possível no grupo. Mas necessitam do grupo porque nem tudo de que precisam conseguem isoladamente. A associação ocorre, portanto, não porque o ser humano é, essencialmente, gre-gário, mas é segregacionista, é sectério, e se agrupa por necessidade de sobrevivência. O grupo, portanto, nasce dos interesses pessoais e das necessidades dos indivíduos.
O que é, então, o ser humano?
Sabemos, inicialmente, que o ser humano é um animal que ganhou a classificação de racional. Aristóteles lhe afir-mou mais uma característica: é político, de onde a caracte-rística da sociabilidade. Racional porque consegue abstrair e aprender com as experiências. E, mais do que aprender, consegue reproduzir e ampliar as aplicações das experiên-cias adquiridas. Isso porque aprendeu a raciocinar. É, além disso, político porque vive, sobrevive e explora as relações sociais. Embora, como dissemos antes, goste do isolamento, prefere viver em grupo. O grupo, portanto, não é essencial, mas opção: para satisfazer suas necessidades, para satisfazer seus desejos, para superar seus medos, para superar suas fraquezas.
Nisso podem ser observadas mais algumas das caracte-rísticas desse ser, chamado homem. Diferentemente dos demais animais, o humano é frágil, desprovido de garras ou pele resistente aos ataques dos predadores e intempéries. Essa fragilidade produziu e ajudou no desenvolvimento de outra característica: o medo. Como mecanismo de superação dos medos os humanos desenvolvem mecanismos para conviver ou para superar adversidades da natureza. Um desses mecanismos é a vida grupal. Os humanos, portanto vivem em grupo, entre outros motivos, porque assim se protegem mutuamente. Tanto para enfrentar a natureza como para atingir objetivos comuns. O grupo passa ser um mecanismo de defesa. Os humanos aproveitam-se de suas fraquezas para produzir forças. A força do grupo nasce de uma característica muito marcante do ser humano: a capaci-dade de tirar benefício dos demais membros do grupo, o que indica outra característica do humano: o egocentrismo, sendo que o grupo aparece como refúgio, fortaleza e espaço de onde o indivíduo tira proveito e benefícios. As relações grupais não estão para o grupo, mas para os indivíduos do grupo. Trata-se, portanto, de uma relação interesseira.
Dessa forma é que devemos entender a característica humana da sociabilidade. A sociabilidade, ou a capacidade de o ser humano viver, sobreviver e existir em coletividade parece ser o que mais bem o caracteriza. Entretanto aqui precisamos fazer uma ressalva. Não nos parece que os hu-manos sejam, essencialmente, seres sociais, mas se fazem sociais a partir de suas necessidades e para superar seus medos.
Dizendo de outra forma, o ser humano é um ser sectário e tende a se isolar e a viver isolado. Socializa-se porque se percebe impotente diante da natureza, mais forte que ele. E, por ter medo de não sobreviver procura ajuda dos seus se-melhantes. Assim se faz sociável numa atitude tipicamente egocêntrica, medrosa e aproveitadora. Para fugir de seus medos e disfarçar sua fraqueza aproveita-se da fraqueza dos seus semelhantes. Assim sendo os indivíduos usam a socie-dade como caminho, preparação, para o isolamento, depois de se aproveitar das fraquezas dos outros seres, como ele, fracos e medrosos.
Além disso, o ser humano se percebe no mundo e se vê completamente diferente das demais realidades existentes. Em todas as correntes de filosofia encontramos a mesma afirmação: o ser humano é pensante. É ele quem dá sentido a existência dos existentes. Dá sentido porque pensa, porque se socializa e porque manipula os elementos da realidade, gerando cultura. Além disso, e sem entrar no mérito da discussão religiosa, pode-se dizer que o ser humano trans-cende à realidade humana.
Pensar não é só o que se pode entender etimologica-mente, com a palavra, dizendo que ser humano é capaz de pesar, avaliar. Esse pensar refere-se também à capacidade humana de fazer escolhas. O ser humano é aquele que ava-lia, escolhe, e faz isso a partir de um processo reflexivo que exige uma postura introspectiva. Esta por sua vez deriva da capacidade de abstração. Na verdade quando se diz que o ser humano é capaz de pensar pretende-se afirmar que ele é capaz de falar sobre as realidades com as quais não está em contato imediato. Ele pode representá-las, mentalmente e nisso se dá um processo de reflexão, pois se trata de “voltar a ver” o que não está presente.
Essas características (pensamento, abstração, manipula-ção...) permitem, que o ser humano produza o que chama-mos de progresso humano (outro nome da cultura). O pro-gresso é resultante da vida social, da superação dos medos e dos desafios. O progresso humano pode ser visto como resultado da capacidade humana de resolver problemas (capacidade reflexiva-pensante) e de se associar a outros humanos para fortalecer suas fraquezas diante das realida-des mais fortes e que demandam inteligência (ler o interior das realidades) e ação conjunta. Progredir implica em supe-rar as limitações humanas e naturais em benefício do grupo e, conseqüentemente, em benefício dos indivíduos. O pro-gresso ganha sentido, como toda ação humana, não em si mesmo, mas pelo benefício que produz.
Daí o sentido da produção humana. O ser humano ma-nipula o mundo e gera cultura. Ou seja, diferentemente de outras criaturas, a humana se autoproduz reproduzindo o meio que o circunda. Recria o mundo natural que o circunda e recria o já criado, dando-lhe novo significado. Sua insatis-fação o leva a re-significar as realidades mesmo as que já possuem significado; recria a utilização e a utilidade das realidades mesmo as que já têm significado e utilidade con-sagrada.
Graças a essa capacidade re-criadora o ser humano po-de produzir o mundo e reproduzir o que existe. Com isso dinamiza não só sua existência como as realidades que o circundam e seus concidadãos. Nesse processo cria ou re-cria a cultura uma das marcas mais tipicamente humanas, pois, principalmente pela sua capacidade de recriar a cultu-ra, o ser humano se diferencia dos demais existentes.

Neri de Paula Carneiro
(texto é parte de material didático para aulas de Filosofia da Moral e Ética Profissional - Se desejar o texto completo, solicite, gratuitamente, para neri.car@hotmail.com)

29 de ago. de 2007

A caminho da paz

O titulo acima é uma tradução da expressão latina “in viam pacis”. Gandhi afirmava que não havia caminho para a paz, ela é o caminho. Se a paz é o caminho,como podemos entendê-lo? Se a paz é o caminho, o conceito mesmo de caminho adquire uma dimensão profunda, radical e filosófica.
O termo caminho deriva do Latim “caminu”, entretanto é no Grego que existe maior riqueza de sentido e sutileza,pois caminho, para os gregos , podia ser concebido a partir de três idéias básicas, são elas:” odós “(caminho de um modo geral),” kèleuthos”(caminho estreito que tem atalho) e “atarpón”(caminho tão estreito que não se pode dar volta).
Dessas três idéias,tiram-se três visões de caminho conotativamente falando com relação à paz: 1. caminho enquanto condições ou possibilidades às quais todos têm acesso no que tange a paz; 2. Caminho enquanto dificuldades inerentes aos atos pacíficos,porém com chance de sucesso; 3. Caminho enquanto estado de paz ,sua garantia e permanência.
Diante desses caminhos, pergunto: por que não acolhê-los? O que nos impede de escolhermos a via da paz?

Everaldo Lins de Santana

28 de ago. de 2007

Filosofia Africana

O adjetivo “africana”, acima mencionado e que qualifica a palavra filosofia, é formado a partir do termo “África” que, segundo alguns estudiosos da linguagem, deriva do Grego “aphriké”, do Berbere “awrigas”, de “afryquah” significando colônia, e do Latim “aprica” significando “exposto ao sol”.
Desse último significado da palavra África, ou seja, exposto ao sol, e da inconstância sócio-econômico-política do continente africano, forja-se falaciosamente a idéia de que o povo africano não tem “queda” para filosofia, não tem “cabeça” para abstração, para metafísica. Será isso verdade? Não há nessa opinião um preconceito que remonta a Homero, Aristóteles, Platão e outros?
A expressão ”filosofia africana” pode parecer estranha para muitos, no entanto, o povo africano filosofa, tem “cabeça filosófica”. Senão vejamos: Metafisicamente falando, os africanos possuem palavras e termos que remetem à idéia, a conceitos ontológicos, tais como, em Iorubá (língua africana): “ni” significa ser, ”mõ” significa conhecer, ”ofifo” significa o nada.
Em Banto (outra língua africana): “ntu” expressa a idéia de ser. A partir do conceito de ser (ntu), a cultura banta deriva quatro categorias de tudo o que se pode conhecer: 1. “muntu” conceitua o ser-de-inteligência (o ser humano); 2. “kintu” significa o ser-sem-inteligência (as coisas); 3. “hantu” expressa o ser-localizador (lugar-tempo); 4. O ser-modal (modificação do ser).
Além dessas quatro categorias, na filosofia africana, especificamente a filosofia banta, são de suma importância estes conceitos: unificação de lugar e tempo, distinção entre o existir e o viver
Os bantos (etnia africana) chegam à idéia de que lugar e tempo são concomitantes, baseados na localização dos existentes, uma vez que "qualquer existente, assim que surge, supõe necessariamente o antes e o depois".Ao lado disso, a diferença entre o existir e o viver se faz, na filosofia banta, da seguinte forma: o existir é abrangente, geral, universal; enquanto que o viver é um momento do existir, é uma particularidade do existir.
Convém observar que alguns pensadores africanos entendem que os conceitos filosóficos chegam a eles através da música, da percussão, da religião e da dança.
Vê-se, dessa forma, que não há uma filosofia branca nem uma filosofia preta. Há, apenas, filosofia.
Everaldo Lins de Santana - Filósofo

27 de ago. de 2007

TA NA HORA

Ouvi alguém dizendo, com tristeza na voz:
Amazônia, terra rica, não pertence mais a nós.
É a privatização. É saúde, educação.
E agora vejam só: Estão querendo até nosso chão.

Sei que sou criança e tenho muito que aprender
Existem coisas que chateiam, mas eu tenho que dizer.
Tem gente dizendo: não somos brasileiros;
Qualquer dia acordamos e seremos estrangeiros.

Que furdúncio minha gente? Tá na hora de acordar
Este chão é todo nosso, não podemos entregar
Brasil, mostra tua cara, manda o gringo para lá
Esta terra já tem dono; e aqui vamos ficar

A tal dívida externa que o governo assumiu
Está grilando nossa terra, estão tomando o Brasil.
Nos mandaram um recado: Se não tem como pagar
Entrega logo a Amazônia, isso só pra começar.

Idalina V. Sanfelicce

Sobre a paz

O filósofo Sêneca afirmava que os homens foram criados para se ajudarem mutuamente; em Latim ele dizia “homo in adjutorium mutuum generatus est”.
Em relação à paz, os homens juntaram esforços concretizados no fato de que no século XV, Jorge de Podriebrady, da Boêmia, ter apresentado ao rei Luiz XI da França um projeto de paz.
Outras atitudes foram tomadas como: a fundação da primeira sociedade pacifista do mundo, no ano de 1810 em Boston com o nome de Sociedade Americana da Paz; no ano de 1816, foi criada na Inglaterra a Sociedade da Paz; nos anos de 1821 e 1830 respectivamente na França e na Suíça foram criadas fundações pacifistas; já em 1849 realizou-se em Londres e Paris o primeiro congresso sobre a paz. Além disso, na primeira conferência da paz, em Haia, em 1899, representantes de 27 nações firmam convênio para o ajuste pacífico dos conflitos internacionais. E em 1913, inaugurou-se solenemente o Palácio de Haia, conhecido como o templo da paz.
Todos esses foram esforços para sistematizar e vislumbrar o que futuramente será chamado de “cultura da paz”.

Everaldo Lins de Santana

24 de ago. de 2007

O CARNAVAL

Carnaval não existe só do Brasil. Existe no mundo todo desde há muito tempo.
No Egito, há quase 10 mil anos já se festejava os deuses Isis e Osiris com dança e cantoria em volta de fogueiras.
Na Grécia havia uma festa em que bebia-se vinho e comia-se bastante, agradecendo ao deus do vinho, Dionísio. A mesma idéia encontra-se nas festas ao deus Baco, de onde se originaram os Bacanais, em Roma. Entre os judeus, havia a festa do pão novo, como agradecimento pela colheita e como forma de esvaziar os celeiros. Outros povos antigos também faziam festas comemorativas e de agradecimento aos deuses da fertilidade pela fartura das colheitas. Nessas festas não faltava comida, bebida, alegria e relações sexuais, para evidenciar a fertilidade.
Como hoje, havia divisão social-econômica com ricos e pobres, muitas vezes em atritos e conflitos. Daí a necessidade de válvulas de escape. Uma delas eram as festas populares com comida, bebida e sexo. Em muitas dessas festas os foliões usavam máscaras, simbolizando a inexistência de classes sociais.
O significado da palavra é incerto. Para alguns a origem da palavra Carnaval é carrum navalis (carro naval – um carro alegórico da festa romanas antiga). Essa etimologia é duvidosa. Quando a festa foi ligada ao cristianismo passou-se a associar a expressão “carne levare”, afastar a carne, como sendo um último momento de alegria e festejos profanos antes do período de abstinência e tristesa da quaresma.
Ao ser associada à quaresma sua data foi vinculada à Páscoa deixando de ser ligada à fertilidade e à Natureza. Em qualquer caso, a festa se origina em momentos importantes da vida: colheitas, para alimentar a vida, bebida, para alimentar a alegria e sexo para alimentar a procriação e perpetuar a espécie. Depois associada à Páscoa, para alimentar o renascer em uma nova vida. O fato é que, em todos os casos, está associado à alegria.

Neri de paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador

18 de ago. de 2007

Dinâmicas para aulas de Filosofia.

a- SUGESTÕES METODOLÓGICAS:

-Superar o pré-conceito: O Professor precisa superar preconceitos e posições pré-concebidas de política partidária, religião, opção sexual...
-dinâmica de grupo: o professor precisa ter digerido bem o texto entendendo bem seu significado para poder propor questões interessantes a partir de um texto ou problemas interessantes.
- leitura de textos literários com alguma mensagem ou problema do cotidiano do estudante (droga, namoro, sexo...).
-Teatro: organizar apresentações teatrais a partir da leitura de textos ou de situações...
-Músicas/Paródia: ouvir músicas e elaborar paródias a fim de desenvolver o espírito e a capacidade criativa.
-Reproduzir: Através de desenho, colagens, nova redação... para um texto/problema/idéia já existente
-Interpretar desenhos, charges..
-O professor precisa ter claro que A melhor técnica / dinâmica / metodologia NÃO EXISTE. O que deu um excelente resultado em alguma atividade com uma turma, pode ser infrutífero com outra. O que dá para fazer é adaptar, recriar, reciclar.

b- Para dinamizar as aulas...

Eis algumas dicas que podem ajudar qualquer professor. Mas que podem dar excelentes resultados nas aulas de filosofia e de sociologia. E, talvez, mais de filosofia que qualquer outra área. Entretanto, como qualquer outra, estas dica não podem ser absolutizadas. É necessário aproveitar o saber dos alunos e criar sempre...

1- Como dar uma boa aula de filosofia
Não existe regra.
Depende da criatividade e dos conhecimentos prévios do professor.
Um professor de filosofia não se equivale ao de português ou de matemática. Ele precisa ser leitor atento, ler muito, ter conhecimentos de várias áreas. Gostar da dúvida e não se sentir dono da verdade.
Mesmo quando os alunos tentem “coloca-lo na parede” o professor precisa manter a atitude humilde de quem sabe que não sabe, pois os alunos também possuem seus saberes.
Sendo uma disciplina sobre a qual já se formou um preconceito, sobre a qual se diz uma porção de inverdades, ao professor cabe mostrar que a maioria das opiniões sobre filosofia não corresponde à Verdade sobre Filosofia.
Uma boa dose de ironia, bom humor, descontração e capacidade de improvisar e transformar as situações cotidianas em situação problema é uma das qualidades indispensáveis para o professor de filosofia.
Utilizar textos com mensagens já implícitas ou já conhecidos podem ajudar, mas podem, também, direcionar a reflexão; ou o que é pior podem impedir que se reflita, pois a mensagem já é conhecida...

2- O melhor texto de apoio
Não existe.
Qualquer texto pode ser usado, desde que previamente tenha sido bem estudado e direcionado para o objetivo que se quer alcançar.
Fica difícil trabalhar um tema, por exemplo, de Ecologia com um texto que fala sobre Sexo. Já um texto bem pornográfico pode ser um excelente link para uma aula sobre família ou sobre adolescentes e, obviamente sobre sexualidade, prostituição...
Isso implica dizer que o problema – e a solução do problema – está na capacidade criativa do professor. Por isso a necessidade de o professor ser leitor, superar preconceitos pessoais e, o que é mais importante, superar-se.
O importante não é o texto, mas a metodologia de abordagem do texto. Trata-se de fazer questionamentos ao texto. De fazer uma espécie de análise literária do texto estudado, localizando: personagens, o que fazem, por que fazem, onde o fato narrado acontece, por que acontece, qual a mensagem do texto...

3- A melhor técnica / dinâmica / metodologia
Não existe.
O que deu um excelente resultado em alguma atividade com uma turma, pode ser infrutífero com outra. O que dá para fazer é adaptar, recriar, reciclar.
Algumas dinâmicas, ou metodologias, ou técnicas podem ajudar. Entre as inúmeras que existem e que o professor pode inventar, podem ser mencionadas:
Dinâmica de grupo (ou trabalho em grupo)
Teatro/música/paródia
Recriar um texto na forma de desenho
Debate/seminário/mesa redonda
Interpretar desenhos, charges..

4- É Fundamental
Depois de tudo isso o fundamental é que o professor crie seus próprios exercícios. Estas podem ser desenvolvidas com alguns textos. O texto, na realidade é só um pretexto, um gancho, um link para aprofundar um outro tema. Sobre esse tema o professor deve estar preparado e acolher as respostas dos alunos, sem preconceitos, ajudando a devolve questionamentos a fim de continuar as reflexões. Importa que o professor não encerre o debate, que não dê respostas prontas, mas desafie o aluno....

Prof. Neri de Paula Carneiro

Interrogações

1. Tem uma porção de perguntas que me faço e faço a quem me aprece pela frente. Mas o diabo é que ninguém me responde. Por isso permaneço na ignorância. Veja só: já perguntei pra professor e aluno, pra padre e sacristão. Já perguntei a quem não fala e pra quem fala muito – não aos fofoqueiros, pois desses é bom manter distância!
2. E essa já uma das perguntas que faço e me faço, sem saber a resposta: Porque o fofoqueiro fofoqueia? Essa é só uma das perguntas, que talvez até tenha resposta fácil! O que me interessa são perguntas mais difíceis – que possivelmente tenham resposta mais fáceis.
3. Alguém poderia me dizer porque o limão é azedo? Ou, do lado contrário, porque a cana é doce? Mais ainda, porque a mesma terra que produz a cana doce e o limão azedo produz cada um com o seu sabor? E se plantarmos ambos numa mesma cova, o que faz com que não se misturem e permaneçam um azedo e outro doce? Afinal de contas, quem adoçou a cana e azedou o limão? E se o limão fosse doce, seria limão?
4. Isso não é tudo. Gostaria de saber quem pôs sal na água do mar? E por que a água do rio não é salgada? Se a água do rio, que é chamada de água doce, vai pro mar, por que não adoça a água do mar? Tem até um Mar Morto: quem o matou? Ou já nasceu morto? Morreu de quê? Já prenderam o assassino? Ou lá onde mataram o Mar Morto também impera a (in)justiça brasileira?
5. Tem mais. Quem ensinou o passarinho a voar? Por que ele não cai quando está voando? Será que ele não tem medo das alturas? Se é questão de pena, que pena, por que a galinha não voa, também?
6. E já que estamos no ar, quem foi que pintou o céu de azul? Será que usou rolo, pincel ou spray? Quem pintou o céu também pendurou nele as nuvens? Onde arrumaram tanto algodão para encher as nuvens? E quem foi que pendurou as estrelas? Será que deu muito trabalho? Por que elas só acendem à noite? Quem paga a conta da luz das estrelas? E quando amanhece, pra onde vaia luzinha delas?
7. Podemos continuar?! Tem outras perguntas que não querem calar! Onde fica o interruptor que acende e apaga o dia? Quando o dia fica acesso, pra onde vai o escuro? E dia se esconde aonde, quando vem a noite? E já que dizem que a noite tem boca, qual será o tamanho da escova que ela usa para escovar os dentes? Ou será que a boca da noite não tem dentes? Se não tem, quem qual foi o dentista que os extraiu?
8. Pra não deixar de falar da natureza, será que alguém sabe quem é que assopra o vento? Como é que ele faz para refrescar um dia de calor?
9. Espera aí. Ainda não acabou. Quem sabe me dizer quem esfriou o gelo? Quem esquentou o sol? Quem acendeu o fogo? Quem molhou a água?
10. Porque será que ainda não inventaram um gelo quente? Porque será que ainda não inventaram água em pó? – afinal já fazem quase tudo “em pó”... só falta a água. O problema é saber com o que se vai dissolver o pó da água!?
11. Tem até umas questões meio contraditórias: se o fogo é tão quente, porque se apaga com a água que é fria? Como pode, a mesma água que é tão fresca e que apaga o fogo, ferver ao fogo? Se a água apaga o fogo, como é que o fogo ferve a água que o apaga?
12. Não se desespere, que ainda tem mais: como pode a melancia, que é uma fruta tão grande, ser produzida por um cipozinho tão fininho, fracote, fajuto? Como pode ser tão preguiçosa uma árvore como o pé de manga, tão grande, e dar umas frutinhas tão pequenas? Mesmo a jaqueira não produz nada proporcional ao seu tamanho! E já que falamos nisso quem foi que melecou a jaca?
13. Mudando de assunto. Você sabe explicar por que a pena é tão leve, e mesmo assim, cai? E por falar em peso, qual é mais pesado, um quilo de algodão ou um de ferro?
14. Ainda tem mais: se o dia tem 24 horas por que só 12 é claro? Por que a noite faz parte do dia? Será que a noite foi feita para economizar a energia do dia?
15. Responda rápido: por que a roda é redonda? Por que o cubo não é quadrado? Por que a cobra anda, se não tem pernas?
16. Isso não é tudo. Tem mais pergunta que me deixa encafifado. Mas não vou perguntar tudo agora, se não você vai pensar que eu não sei nada! Mas eu sei, sim. Sei, por exemplo que o Sócrates, não o corintiano, costumava afirmar: “sei que nada sei”. Se ele que era sábio só sabia não saber, porque é que eu, que sou curioso não posso saber só perguntar?
17. E tem mais, dizem por aí que é mais esperto quem faz pergunta do que quem responde. Creio ser verdade, pois quando alguém responde uma pergunta sempre deixa a oportunidade de alguém lhe perguntar, como chegou a essa resposta? Por que você deu essa e não outra resposta? Há outra resposta?
18. Bom, já que “perguntar não ofende” vamos terminar por aqui. Quando é que a gente pode continuar?

Neri de Paula Carneiro

Greve? Greve!: Grave!

Greve é coisa grave, grave isto! E tem, isso, um significado grave: Significa que os dois lados da contraditória sociedade capitalista resolveram explicitar essa contradição em um conflito, radical, medindo forças.
Greve é a faca no pescoço. Os dois lados estão dispostos a morrer em nome ou em defesa daquilo que defendem: melhores condições de trabalho e melhorias salariais, reivindicam os trabalhadores; e manutenção dos padrões atuais, exigem os empregadores. E dizem isso principalmente porque a situação lhes é cômoda e o incomodo é gerado pela greve!
Qualquer categoria profissional tem direito constitucional de entrar em greve. E todos os empregadores dirão que isso é coisa de quem não quer trabalhar, é coisa de agitador... há tempos atrás se dizia, como forma de tentar ofender o trabalhador, que greve é coisa de comunista, ou de petista; mas com o apagão político que ocorre no país...
Para ser exato, no Brasil, o movimento grevista começou com a chegada dos anarquistas, no início do século XX. E, o mais importante, nenhum grande movimento histórico, nenhuma das grandes realizações da humanidade ocorreram sem que houvesse situação de atrito. Qualquer pessoa com um mínimo de inteligência pode olhar para a história e perceber que os movimentos reivindicatórios são executados pelos que pensam criticamente.
Com isso diante dos olhos, olhemos para os profissionais da educação. E aqui surgem alguns problemas, que não existem em outras categorias. Noutros países o sistema educacional é altamente valorizado. Paisinhos merrecas por aí, investem em seus sistemas escolares, com sucesso. Aqui o sistema educacional é visto como gerador de despesas. O descaso é tanto que organismos internacionais já falam em apagão na educação.
Em clima tórrido como o nosso, os alunos desmotivados por vários fatores, são obrigados a permanecer por quatro horas em uma sala, com outros trinta e poucos colegas, debaixo de um ventilador que não funciona. Duvida? Visite uma escola de periferia! Várias estão com aparelhos de ar condicionado, novos, estragando nos depósitos; e os alunos derretendo em salas superaquecidas.
Entre numa sala de aula e veja o desconforto das carteiras escolares e conte quantas estão quebradas; veja quantas lâmpadas queimadas... Não esqueça que a escola é pública, portanto não tem renda própria para comprar lâmpadas e instalar outros equipamentos. A verba que vem dos programas oficiais, tem destino específico, não pode ser direcionado para as reais necessidades das escolas, sob pena de o diretor ser preso por desvio de verba.
Nossas escolas, por força de lei, são obrigadas a acolher portadores de necessidades especiais (cegueira, paraplegia... etc), mas as instalações são inadequadas: os degraus dos pátios impedem a circulação e as valetas produzidas por enxurradas, são armadilhas para a segurança física das crianças.
Isso sem falar nos delinqüentes que são colocados no convívio com outras crianças, sem acompanhamento de nenhum agente da lei. Eles acabam ensinando a bandidagem aos demais alunos visto que ninguém das escolas tem autoridade sobre eles.
Nesses dois casos os professores são obrigados a se calar, pois a força absurda da lei não pergunta pela qualificação dos profissionais da educação, para trabalhar nessas situações. O argumento é que “deveriam estar preparados”, mas o fato é que não estão. Quem consegue se preparar por conta própria com salários defasados (cursos e treinamentos custam caro!). Por parte do poder público, mantenedor do sistema escolar, não foi oportunizada formação específica, depois de vários anos de existência dessas leis. Além disso, professor não é assistente social, nem carcereiro!!!
Devem ser usadas as novas tecnologias? Há escolas, em Rolim de Moura (e o mesmo ocorre em outras localidades), com mais de 1000 alunos e que possuem dois ou três aparelhos de TV e Vídeo/DVD. Computador? Tem alguns, mas muitas vezes inacessíveis à maioria dos alunos. Biblioteca? Num canto, meio escondida, como que com vergonha de seus poucos livros rotos. Salas de leitura? Existem, se montada pela iniciativa heróica de alguns professores, sacrificando suas horas de descanso. Reformas, nas escolas? Quando ocorrem demoram vários meses, atrapalhando as aulas ou colocando em risco a segurança dos alunos.
Com um quadro desse, com as devidas exceções e os respectivos agravantes, creio que falar em greve não é coisa fora do comum. E se os país se interessassem pelos filhos, eles é que fariam greve! Lembrando que os que entraram em greve só reivindicam duas coisas: melhores condições de trabalho e de salário.
Podemos, para concluir, propor uma troca: colocamos os membros do executivo, do legislativo, por um bimestre, sem seus assessores, para trabalhar em uma escola. Fazer tudo que os professores fazem – sem ajuda de seus assessores. (Podem manter seus salários de 15 mil). Terão que apresentar a mesma produtividade dos professores, sem ajuda dos assessores.
Depois de um bimestre, nas mesmas condições dos professores, sem seus assessores, veremos o resultado!
Greve é grave! É um teatro com artistas, em palcos diferentes, tentando convencer a platéia, de que o seu show é o melhor. Mas, quando falamos em educação, o objetivo não é o show, mas a platéia depois do espetáculo.

Neri de Paula Carneiro
Filósofo, teólogo, historiador

3 de ago. de 2007

Vôo da Morte

A morte não está voando, nem é mortal o fato e o ato de voar. A expressão está sendo usada para designar aquele vôo fatídico do Rio Grande do Sul a São Paulo, provocando aquelas centenas de mortes.
Foi uma tragédia. A mídia se deliciou! Prato literalmente quente para várias semanas!
Os outros eventos e fatos e tragédias se dissiparam. Nem o aquecimento global se impôs àquelas cenas chamuscantes e fumegantes. O caso dos senadores larápios esfriou diante do calor da explosão! O PAN foi chamuscado pelo fogo da TAM. O record da TAM acabou recebendo mais destaque que os recordes do PAN
As cores da tragédia se tingiram de um avermelhado que nem de longe lembra aquele momento primordial em que os homens aprenderam a dominar o fogo e com ele iniciaram a epopéia do desenvolvimento. O fogo vital dos primeiros tempos se apagou diante do fogo mortal das explosões.
Mas a questão, aqui não é o fogo nem as explosões, nem o vôo, em si mesmo. Não estou interessado naqueles mortos nem em seus familiares. Da mesma forma que não estou interessado se a pista estava ou não escorregadia. Não me interessa se o avião estava com defeito, se o defeito foi na torre de comando nem se houve falha humana.
Que houve falhas, isso é obvio. Ou não haveria acidente. E com isso não estou querendo me mostrar insensível à dor nem à perda de pessoas queridas. Pelo contrário, esta é a motivação deste desabafo.
Apenas que nossa questão é outra. A questão aqui se refere a uma falha, sim, mas de ordem ética, de caráter, de humanidade.
Digo “nossa questão” é outra por que ela atinge a mim e a você. Atinge aos simples mortais que morrem de cotidiano abandono. Ao passo que aquele problema dos aeroportos, seus aviões e seus mortos representa casos esporádicos. E atinge alguns figurões. O povo mesmo, morre de outras mortes. Por isso o nosso problema é cotidiano:
A fila no hospital público, pago com nosso dinheiro de impostos, permanece matando;
O caos e o desmando na educação pública, aquela que pagamos mesmo sem querer, através da imposição dos impostos, continua matando perspectivas de desenvolvimento;
A assustadora insegurança da chamada segurança pública faz medo e produz pivetes matando a mando de figurões acoitados nas dobras da legislação ou da impunidade ou da negligência, ou do próprio fato de ser um figurão: “você sabe com quem está falando?”
O transporte, visto como vias ou como meios de transporte, também nos mata. As vias são um buraco só. Faltam placas de sinalização e marcadores no solo da pista; os meios de transporte, tanto público como privado são um caos: o carro popular, além de poluente é inacessível em seu preço estratosférico; o transporte coletivo é uma lástima. Tanto o busão de linha intermunicipal e interestadual como o urbano - a chamada circular – além de ser caro é desconfortável, irregular, não respeita o passageiro.
Aqui estão nossos problemas e essa é a questão: tudo isso é “coisa de pobre”. São os pobres que usam transporte coletivo, saúde pública, educação publica... Assim sendo, que se explodam! Mas quando a classe média e alta se explode num avião, a coisa pega. Ficam procurando culpados e justificativas. Mas não encontram o culpado pelas estradas esburacadas e sem sinalização; não encontram os responsáveis pelo caos do transporte coletivo, nem da incapacidade administrativa que gera as filas mortais na saúde pública; nem a estultice da educação publica. Será que a vida de uns é mais importante que a de outros ou é a morte de alguns que vale mais que a morte de outros?
Se um ônibus lotado cai numa “barroca” e mata todos os passageiros, o noticiário gasta alguns segundos para comentar o fato lamentável. Há poucos dias um noticiário da TV mostrou um caminhão saindo de sua pista atravessando o canteiro central e atropelando vários veículos e provocando congestionamento na estrada. Tudo isso é menos de 20 segundos. Ali também estiveram envolvidos e prejudicados várias dezenas de pessoas... Mas um avião lotado cai no meio da rua e explode com tudo e com todos, o noticiário se prolonga por algumas semanas. O defunto rico fede menos que o defunto pobre? O mau cheiro do defunto pobre é mais desagradável para as “fuças” sensíveis dos divulgadores das tragédias? Ou não se noticia a tragédia com os pobres porque, para a mídia e para os donos do poder, os pobres, realmente, não contam? A questão é que os pobres que morrem nas filas e nos acidentes cotidianos, vítimas do desvio de verbas, da corrupção... só valem quando podem significar uns votos a mais para legitimar o safado no poder.
Faltou merenda na escola! Você viu a TV e outros jornais ficarem semanas a fio explorando e denunciando o fato? Morreu duas centenas de figurões num corriqueiro acidente aéreo, quanto tempo a mídia usa para explorar a catástrofe?
Ta essa balburdia toda em torno do acidente. Mas você já observou que não se trata de gente comum? Quantos deles eram trabalhadores em expediente de trabalho? Quantas das crianças e jovens que morreram ali eram filhos de pais desempregados, biscateiros e outros tantos sobreviventes da vida assalariada?
Você já percebeu que aquilo que pode ser de interesse da coletividade dos empobrecidos não permanece na mídia? Já percebeu que aquilo que diz respeito à vida de alguns privilegiados é noticiado à exaustão enquanto a tragédia do povo é esquecida? Ou, justamente, para ocultá-la?
Tá na hora, meu amigo, de começar a calcular o valor da tua vida, para os donos do poder!

Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador.