21 de dez. de 2007

Fechando para Balanço

Neri de Paula Carneiro – Filósofo, teólogo, historiador
Leia mais: www.filohistoria.com.br

Nestes tempos de fim de ano, é comum fazermos balanços, avaliando a quantas anda nosso final de estoque.
Muitas vezes nos orgulhamos – ou nos envergonhamos – pelo que realizamos; agradecemos por não ter realizado algo que poderíamos ter feito e que parecia bom, mas que, depois constatamos, não o seria tanto assim; ou lamentamos por ter deixado de fazer algo que parecia péssimo, mas que, no transcorrer do processo, constatamos que teria sido excelente...
Nestes tempos de fim de ano é tempo em que fazemos avaliações em função do passado – ao quê não temos mais acesso e não há como recuperar, nem reviver, nem concertar... é tempo de sonhar com o que queremos e, em função disso, planejar o futuro – realidade sobre a qual também não temos acesso, na qual não podemos mexer, nem tocar... só sonhar, com o risco de acordar num pesadelo!
Muitas vezes nos deparamos com nossas energias concentradas no passado, ou no futuro, sem forças para viver o já... que já foi... e quando nos damos conta percebemos que o instante que vivemos é fluído demais ao ponto de nem o percebermos claramente, sobrando-nos o lamento... ou o agradecimento. E, novamente constatamos: não temos tempo...
Nestes tempos de fim de ano é quando mais nos damos conta de que não temos tempo!
Muitas vezes, em razão da falta de tempo, nos desesperamos pelo tanto que sonhamos fazer enquanto constatamos que não será possível realizar... ou, por percebermos que não dá tempo, deixamos de fazer o que podemos... e, nos dois casos, deixamos de viver intensamente o instante fluído do instante em que vivemos.
Nestes tempos de fim de ano, também olhamos para o mundo e constatamos, estarrecidos, quão errado tudo está. Tantas malandragens se impondo sobre nossos, e de outros, honrados esforços para conseguir um lugar ao sol.
Muitas vezes nos vem aquela vontade, ou mais que vontade, de jogar no lixo todos os valores nos quais fomos formados e aos quais nos agarramos para sobreviver e nos dar objetivos. Isso ocorre, principalmente, quando vemos aquele salafrário de nosso colega de trabalho se dando bem, surfando na malandragem... e nós, afogados na honestidade, na lealdade, no altruísmo... nos damos conta de que não passamos de pedra de tropeço... não passamos de degraus que outros estão usando para chegar lá onde nós temos certeza que deveríamos estar, não por puxasaquismo, ou apadrinhamento, mas por mérito e capacidade.
Nestes tempos de fim de ano é quando, com mais ira, nos sobrevém aquela triste constatação de que precisamos, com urgência, rever nossos conceitos, nossos valores, nossas expectativas sobre o mundo e as pessoas... É quando, com a mais pura transparência, percebemos, num clima de paz, harmonia, festividade, a essencial maldade humana. É quando vemos a constante ausência ser compensada com presentes que deveriam ser uma forma de manter a presença do presenteador ao presenteado, mas acaba sendo uma confissão de que nada vai mudar e as pessoas permanecerão isoladas em seus mundos mesquinhos.
Muitas vezes constatamos que o clima natalino e o de sonho de paz e fraternidade que se atribui à passagem de ano, nada mais é do que uma forma de manter e alimentar o comércio. É quando aumentam os lucros e não o processo de construção de mais humanização. É quando nos vem a mente a letra daquela música natalina:
“O tempo vai passando sutilmente
De repente,
A gente lembra que o natal
Já vai chegar...”
Nestes tempos de fim de ano é quando percebemos a fluidez do tempo que se esvai, como o sangue de nossa artéria-vida que verte inexoravelmente, nos levando para um encontro definitivo. Para fugir disso é que as pessoas fazem o que diz a continuação da mesma música:
“A praça apareceu iluminada
Na calçada
O povo pensa que em pacotes
Compra a paz”
Muitas vezes somos enganados e noutras tentamos enganar, ou nos enganar, dizendo ou fazendo de conta que o clima festivo do final do ano dará conta de resolver, como se fosse um truque de magia de mau gosto, todas as mazelas nossas, das pessoas com quem convivemos e do mundo. Mas nos pacotes de presentes que trocamos, não está aquilo que mais almejamos e com o quê sonhamos. Nos pacotes trocados, presentes dados e recebidos, está somente o gosto amargo da ausência, e uma confissão/constatação: ainda não fomos capazes!!!
Muitas vezes temos visto, ano a ano, os fins dos anos chegarem. E, como sempre, neste fim de ano veremos o fim anunciando o começo. E nestes tempos de fim de ano seria bom, e isto já é mais um sonho de fim de ano, se fossemos capazes de não criar sonhos a mais, mas traçar metas e cumpri-las. Teríamos que nos dar conta de que nosso problema não é a falta de metas, mas o não cumprimento de metas traçadas.
Nestes tempos de fins de anos, com o estoque reduzido, poderíamos não fechar para balanço, pois teremos que reabrir... e, depois do balanço, anda teremos o estoque antigo...

14 de dez. de 2007

Adolescente dá a luz

Neri de paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador - Rolim de Moura
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Inacreditável!
Um fato esplendoroso!
Aconteceu há mais de 2000 anos.
Parece ser mentira.
Mas aconteceu!
Aconteceu para ser um evento de paz num canto do mundo que ainda clama pela paz. E embora esse canto do mundo tenha se tornado um centro, não é, ainda, um centro que irradia paz.
Mas aconteceu. E foi numa cidadezinha, perdida entre as montanhas da Palestina. Foi em Belém, na Judéia. Numa época de recenseamento. Numa situação de pobreza extrema. Numa época de conflito e de insegurança. Foi aí que uma jovem, recém-casada com o carpinteiro José, se alojou.
José e a jovem senhora saíram de sua terra para se alistar. As circunstâncias e a necessidade os levaram a alojar-se nos arredores de Belém. Num lugar público, para que o fato se tornasse mais público!
Sem casa. Sem terra. Sem teto, alojaram-se naquela gruta: espécie de estrebaria. Noite fria!
Todo mundo já notava aquela barriga: gravidez avançada! Todo mundo notava, e falava: sem casa... por que deixar nascer?... sem terra... irá sobreviver? Sem nada... nada impede que seja mais um menor carente. Padecente. Mais um filho da pobreza. Mais um menor que já nasce etiquetado, marginalizado, rotulado. Noite fria!
Gravidez avançada, ela já cansada. O jovem casal dialogante, dialogando aloja-se, marginalizadamente, ente os marginais. Nas margens da cidade que os marginaliza. Estão sós ma não a sós... e só os marginalizados, os sem nome, os mais miseráveis é que os acolhem.
Noite fria! Noite de incertezas! Noite de angústias!
A jovem senhora, cerca de 14 anos, não mais, está apreensiva: a tensão da viagem, dúvidas do porvir... quê virá, a seguir?
Mesmo assim, no meio de incerteza a jovem senhora, Maria é seu nome, sonha... e acredita!
Sonha esperanças milenares e acredita com saudades do futuro: os pobres serão exaltados... Os famintos serão saciados.. Os ricos de mãos vazias... Mas quando?
A noite é fria! As pessoas são frias! É noite... É a noite escura das incertezas...
Gravidez avançada! Noite de dúvidas! Noite de expectativas! Um sonho! O sonho é esperança! A esperança quer brilhar! E os menores? E os sem casa? E os sem terra? E os que nem chegam a nascer? E os que nascem só para morrer? E os sem futuro? É noite escura... e nesse escuro é que se espera uma luz...
A jovem senhora, nos braços da pobreza, sonha! Até quando isso?
A gravidez é um sonho! A gravidez é uma esperança!
Mas é noite... e na noite se sonha e os sonhos na noite são dores. O parto: as dores do povo sofrendo. Sem casa, sem terra, sem nome... com fome!
As dores! Uma dor brilhante! A noite grita: as dores da miséria, dos menores abandonados...! A jovem senhora estremece, soluça com o pranto de seu povo, mas sonha e crê. Mais do que sonho, ela tem uma certeza: um filho.
Na certeza, superando a incerteza, a jovem senhora dá à luz uma esperança!... ela dá a luz!
Uma esperança que teima em continuar...
Maria é mãe... Maria é mulher... Maria chora soluços de alegria: o menino é Jesus.
O sonho nasceu!
O menino é o sonho: ela ri, soluçando com seu povo. Ela ri: sabe que o sonho é esperança. Ela reza: sabe que o sonho é certeza! Ela se sabe iluminada, seu povo, os marginalizados, têm a Luz.
A Luz veio aos homens!
Através da adolescente, um menino, uma esperança, uma luz, uma certeza...
Através da adolescente, Maria, a mulher, ilumina!
Através da adolescente a Luz veio à luz!
E, ainda hoje a luz quer brilhar!!!
E a luz precisa e espaço para se irradiar, iluminar!!!

11 de dez. de 2007

MUSICOSOFIA: A música nas aulas de filosofia

Prof. Neri P. Carneiro - neri.car@hotmail.com

A filosofia pode ser uma atividade agradável e con-vidativa, no ambiente escolar secundarista e do ensino superior? Como fazer das aulas de filosofia um momento agradável, sem perder a capacidade de desenvolver a crítica que caracteriza essa área do conhecimento?
O que aqui nos move, portanto não é a discussão so-bre filosofia, mas sobre uma possível metodologia que possa ajudar aos professores a melhor desenvolver suas atividades com filosofia.

Algumas considerações.

Para isso são necessárias algumas considerações.
Em primeiro lugar é preciso dizer que a filosofia dis-tingue-se das ciências e de outras disciplinas escolares por várias razões. Uma delas é o fato de não ter como preocupação primeira a apresentação de respostas, mas a proposição de duvidas. São as dúvidas que conduzem às respostas e estas provocam o desenvolvimento ou ampli-ação do saber.
Como as ciências e disciplinas escolares, ela leva em consideração o que disseram os antigos, mas não se limi-ta a repetir o que eles disseram. E nisso está mais uma diferença em relação às outras áreas do saber. Podemos dizer que as outras áreas do conhecimento se desenvol-vem, de modo geral, reforçando o que já foi dito, ou seja, a partir da afirmação de uma verdade. A filosofia se de-senvolve colocando em dúvida a verdade apresentada. O melhor discípulo de um filósofo não é o que divulga suas idéias, mas o que o supera, como sugere R. Gomes, em “A Crítica da Razão Tupiniquim” (1982, p. 32): “Imedia-tamente após o período da criação, surge a cristalização e a esterilidade – aí encontramos os pretensos seguidores. É quando aquela intuição originária se perde nalguma escolástica. Só mais tarde surgirá o verdadeiro sucessor: aquele que disser o contrário”.
A postura negadora, da filosofia, é o que lhe dá vita-lidade, vigor e prestígio. A partir do espírito da crítica – que é a negação do que foi afirmado – desenvolve-se não a filosofia, mas o filosofar, como sugeriu E. Kant. E nisso se manifesta outra de suas características: filosofia não é algo que se ensina, como se fora regra de três ou normas de acentuação gráfica. Filosofia não se ensina, mas propõe-se desafio ao processo do filosofar. Não se ensina porque tudo que se disser sobre Filosofia será, sempre, uma caricatura; a filosofia, portanto, se caracte-riza não por ou com uma definição, mas no processo; o que importa é o processo, pois este se aproxima da dina-micidade da busca, que a caracteriza. Filosofia não é o que está pronto, mas nasce no processo do filosofar.
Claras são as palavras de Nietzsche, ao afirmar, no prólogo de Ecce Homo, que a filosofia ainda há de ven-cer pois “até agora a única coisa que foi proibida sempre, por princípio, foi a verdade”. Isso porque, diz ele, a filo-sofia é busca.

“A filosofia, como a compreendi e a vivi até agora, é vida voluntária no meio do gelo e nas altas mon-tanhas — é a busca de tudo o que é estranho e du-vidoso na existência, de tudo o que foi até agora proscrito pela moral. A longa experiência, propor-cionada por esse caminhar no proibido me ensinou a contemplar tudo de forma completamente dife-rente do que se poderia pensar as razões pelas quais até agora se moralizou e se idealizou: a história o-culta dos filósofos, a psicologia de seus grandes nomes se revelou para mim. Quanta verdade um espírito pode suportar, quanta pode arriscar um es-pírito? Isso foi se convertendo cada vez mais para mim no verdadeiro critério do valor. O erro (a crença no ideal) não é cegueira, o erro é covardia... Cada conquista, cada passo em frente no conheci-mento é conseqüência da coragem, da dureza con-sigo mesmo, da limpeza para consigo...” (NI-ETZSCHE, [2006?], p. 16)

Como tudo isso pode ser aplicado ao contexto esco-lar? A primeira dica é: Não devemos fazer das aulas de filosofia uma cantilena de repetição do que já foi dito, mas a partir do que foi falado, propor a novidade. No contexto escolar é necessário encontrar não uma forma de ensinar a filosofia, mas um mecanismo que ajude a filosofar.
E assim podemos fazer algumas afirmações, categó-ricas:

Como dar uma boa aula de filosofia?

Não existe regra.
Depende da criatividade e dos conhecimentos pré-vios do professor. Um professor de filosofia não se equi-vale ao de português ou de matemática. Ele precisa ser leitor atento, ler muito, ter conhecimentos/informações de várias áreas. Gostar da dúvida e não se sentir dono da verdade.
Mesmo quando os alunos tentem “colocá-lo na pare-de” o professor precisa manter a atitude humilde de quem sabe que não sabe, pois os alunos também possuem seus saberes.
Sendo uma disciplina sobre a qual já se formou um preconceito, sobre a qual se diz uma porção de inverda-des, ao professor cabe mostrar que a maioria das opiniões sobre filosofia não corresponde à Verdade sobre Filosofi-a.
Uma boa dose de ironia, bom humor, descontração e capacidade de improvisar e transformar as situações coti-dianas em situação problema é uma das qualidades indis-pensáveis para o professor de filosofia. Utilizar textos com mensagens já implícitas ou já conhecidos podem ajudar, mas podem, também, direcionar a reflexão; ou o que é pior podem impedir que se reflita, pois a mensagem já é conhecida...

Qual o melhor texto de apoio?

Não existe.
Qualquer texto pode ser usado, desde que previa-mente tenha sido bem estudado e direcionado para o objetivo que se quer alcançar.
Fica difícil trabalhar um tema, por exemplo, de Eco-logia com um texto que fala sobre Sexo. Já um texto bem pornográfico pode ser um excelente link para uma aula sobre família ou sobre adolescentes e, obviamente sobre sexualidade, prostituição... Isso implica dizer que o pro-blema – e a solução do problema – está na capacidade criativa do professor. Por isso a necessidade de o profes-sor ser leitor, superar preconceitos pessoais e, o que é mais importante, superar-se.
O importante não é o texto, mas a metodologia de abordagem do texto. Trata-se de fazer questionamentos ao texto. De fazer uma espécie de análise literária do texto estudado, localizando: personagens, o que fazem, por que fazem, onde o fato narrado acontece, por que acontece, qual a sua mensagem...

Qual a melhor técnica, dinâmica, metodologia?

Não existe.
O que deu um excelente resultado em alguma ativi-dade com uma turma, pode ser infrutífero com outra. O que dá para fazer é adaptar, recriar, reciclar.
Algumas dinâmicas, ou metodologias, ou técnicas podem ajudar. Entre as inúmeras que existem e que o professor pode inventar, podem ser mencionadas: Dinâ-mica de grupo (ou trabalho em grupo); Tea-tro/música/paródia; Recriar um texto na forma de dese-nho; Debate/seminário/mesa redonda; Interpretar dese-nhos, charges...
Mas acima de tudo e o que realmente importa é a-daptar e recriar.

É Fundamental!

Depois de tudo isso o fundamental é que o professor crie seus próprios exercícios. Estas podem ser desenvol-vidas com alguns textos. O texto, na realidade é só um pretexto, um gancho, um link para aprofundar o tema que se deseja trabalhar. Sobre esse tema o professor deve estar preparado e acolher as respostas dos alunos, sem preconceitos, ajudando a devolver questionamentos a fim de continuar as reflexões. Importa que o professor não encerre o debate, que não dê respostas prontas, mas desa-fie o aluno...
Não é demais reafirmar: Para o ensino de filosofia não existe receita. Podemos dizer, por um lado, que não podemos ficar presos às falas dos filósofos, mas, por outro lado, não podemos nos alienar em textos descone-xos. Aquele amontoado de textos aleatórios são mais prejudiciais para a filosofia do que as falas dos “grandes” filósofos.
Um caminho que pode ser experimentado é o de ler alguns trechos dos grandes pensadores e procurar contex-tualizá-las a partir de outros textos do nosso cotidiano. Seria algo como ouvir o eco daquele pensador no cotidi-ano das pessoas, nas artes, na literatura, nas músicas. Não de forma repetitiva, mas de forma criativa.
E por falar em música podemos fazer um largo estu-do da história da filosofia a partir de várias vertentes. Uma delas pode ser a música. Estamos propondo, portan-to, que façamos uma viagem pela história da filosofia a partir da musica popular brasileira.

Dois Exemplos

Tomemos dois exemplos, dos pré-socráticos, para ilustrar essa idéia. “Tudo se faz por contrastes; dessa luta dos contrários nasce a mais bela harmonia”, teria dito Heráclito, por volta do século VI aC. Outra de suas afir-mações é que “O frio torna-se quente, o quente frio, o úmido seco e o seco úmido”. Mas, talvez, uma de suas mais célebres frases seja esta, afirmando que “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Dispersa-se e reú-ne-se; avança e se retira” (BORNHEIM, [198?]). Com isso está procurando afirmar que a realidade é dinâmica, é movimento. Podemos relacionar essas idéias à música, cantada por Lulu Santos, “Como uma onda”:

Como uma onda
Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa, tudo sempre passará
A vida vem em ondas, como um mar
Num indo e vindo infinito
Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente viu a um segundo
Tudo muda o tempo todo no mundo
Não adianta fugir
Nem mentir pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre
Como uma onda no mar

Entre outras coisas, a filosofia se desenvolve de forma dialética. Pela oposição de idéias. É o que po-demos observar quando comparamos as afirmações antagônicas de pensadores contemporâneos. Se Herá-clito afirmava a essencialidade do movimento, o opos-to de sua posição encontraremos em Parmênides. Para este pré-socrático a essencialidade do existente é per-manente e constante. Daí uma de suas afirmações mais conhecidas sobre os princípios ou caminhos do conhecimento e sobre a imutabilidade do ser. Afirma ele que “o ser é e o não ser não é”. Nossa idéia de imu-tabilidade do destino também se origina em Parmêni-des: “Pouco me importa por onde comece, pois para lá sempre voltarei novamente.” Esse pensador é um dos primeiros a propor algumas características do “Ser”: eterno, imutável, imóvel, indivisível. O Ser, “perma-necendo idêntico e em um mesmo estado, descansa em si próprio, sempre imutavelmente fixo e no mesmo lugar”
A idéia de permanência, parmenidiana pode ser vista na música, “Cotidiano”, de Chico Buarque:

Cotidiano
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode as seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café

Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão

Seis da tarde, como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca prá beijar
E me beija com a boca de paixão

Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
Me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor

A partir destes dois pressupostos se construiu a história da filosofia: a afirmação de que tudo é movimen-to e se explica pelas alterações, de acordo com Heráclito; e de que nada se altera, mas permanece sendo sempre o que é, como disse Parmênides. Os pensadores oscilaram entre um e outro lado.
No transcorrer teremos aqueles que pensarão e agirão como se tudo sempre fosse a mesma coisa; e outros que defenderão as mudanças. Teremos Platão afirmando que o que vemos é aparência, e, portanto, noutras palavras falando da necessidade do espírito indagador buscar a verdade. Entretanto, em seu “Mito da caverna”, nega a possibilidade de mudança, pois aquele que sai para bus-car a novidade é assassinado pelos seus pares. Isso seria um tributo a Parmênides
Por outro lado teremos Aristóteles afirmando a ne-cessidade de identificar claramente as coisas, afirmando o princípio da não contradição, mas ao mesmo tempo dizendo que todas coisas são, em ato, o que são, mas potencialmente podem ser algo diferente. Com isso reto-ma Heráclito
Outros ensinamentos, de outros pensadores podem ser buscados e interpretados à luz do que se canta nos sucessos das paradas ou naquelas músicas que poucos chegaram a conhecer. Podem ser temas antigos ou bala-das atuais.
É possivel que algém venha nos dizer que não se pode fazer Filosofia, apenas com as músicas. Em resposta podemos dizer que também não podemos abrir mão do saber popular, presente nas músicas de um povo. E mais, é possivel fazer um estudo verificando como as idéias dos pensadores aparecem no cotidiano das pessoas e entraram na sociedade, também por meio da música.
As idéias filosóficas não se prendem às páginas dos livros. Pelo contrário, elas passam a fazer parte do cotidiano na medida que entram na arte, na literatura, na poesia, na música. Nesse processo podemos ver não só que as idéias dos pensadores se renovam, mas ver novas idéias nascendo a partir da colocação de temas propostos pela arte.
Dessa forma se pode superar preconceitos, superar medos, criar indagações, encarar as contradições.
A mente e o espírito fracos, se assustam com idéias como as de Feurbach: “O ser absoluto, o Deus do homem é o próprio ser do homem”. Ou não apreciam o sabor da novidade advinda da dúvida e por falta de dúvidas, acabam morrendo. Nos ensina Nietzsche em “Assim falou Zaratustra” (1986, p. 33): “Aproxima-se o tempo em que o homem não mais arremessará flecha do seu anseio para além do homem e em que a corda do seu arco terá desaprendido a vibrar. Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante. Eu vos digo: há ainda caos dentro de vós”. Mas hoje será que ainda temos coragem de duvidar?


Referências

BORNHEIM, Gerd A. Filósofos Pré-Socráticos, São Paulo: Cultrix, [198?]
GOMES, Roberto. Crítica da Razão Tupiniquim. São Paulo: Cortez, 1982.
NIETZSCHE, F. Ecce Homo. São Paulo: Escala [2006?]
__________ Assim Falou Zaratustra, rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1986

26 de nov. de 2007

...o que fazer, então?

A pessoa triste, insegura, angustiada, agitada, nervosa, impaciente e violenta reflete o estado psicossomático em que se encontra.
Através de uma situação patológica, como a exposta acima, constatamos a crise sem precedente em que a humanidade vive. Não é um conflito oriundo apenas de aspecto social, político e econômico como alguns entendidos em estudos humanos pensam, porém esse quadro psicológico pode ser interpretado como um desequilíbrio interior, uma confusão profunda, enfim, um vazio espiritual. Como resolver esse problema avassalador? Que modelo de vida podemos seguir? Qual será o limite dessa situação? Que ser humano somos nós? Essas são perguntas que pairam no ar, sem respostas talvez.
As conseqüências dessa fase nebulosa do ser humano são: ódio, ânsia de riqueza, corrupção, descrédito nas leis, exagero sexual, competição desleal, inveja, desamor, agressividade, modismo doentio, doenças, chacinas e muito mais.
Para resolver esses problemas, o ser humano, ser frágil, busca as fugas, as soluções fáceis, tais como, curandeirismos, jogos, drogas, sexo, pseudo-religiões, pseudociências, novelas, "músicas" etc.
Esses expedientes artificiais solucionam as dificuldades intrínsecas e existenciais de cada pessoa? São eles panacéiais? Antes de nos interessarmos por estas alternativas, não deveríamos descobrir, por nós mesmos e pelos nossos relacionamentos cotidianos, o fundamento desse vazio espiritual? Sabemos que as "fugas" e as "soluções fáceis" nos dão prazer, calma aparente, dinheiro, bem-estar passageiro, "autoridade", poder sobre pessoas, domínio, vaidade e segurança; entretanto continuamos medrosos, desumanos, zombadores, dissimulados, avarentos, gananciosos, intolerantes, desamorosos e insensíveis.
O que fazer, então?

Prof. Everaldo Lins – filósofo

15 de nov. de 2007

Rondoniense por emoção

(A construção de Rondônia analisando discursos.)

Sinto-me um pioneiro,
Paulistano de nascimento
Rondoniense por emoção
Fugi da cidade grande
Procurei um lugar
Para ancorar meu coração

Aqui passei dificuldades
Por várias vezes peguei malária
Passei por muitas necessidades
Da minha terra não trago saudades
Da correria da cidade grande
Quero distancia e não facilidades

Conheci mesmo sem querer
Atoleiros bichos diferentes
Conheci arvores e frutas
Que nem sonhava existir
Mesmo sem querer vi índios
Que devido a minha ignorância
Fizeram-me fugir

O tempo passou embalado
Pelo barulho das motos serras
Das catracas dos caminhões toureiros
Era um boom sem fim
As arvores caindo e eu
Nem dando conta de mim

Aqui neste rincão
Achei minha tampa
Dona Ivone a quem amo
É a dona do meu coração
Meus filhos nasceram
E são minhocas da região

As noites escuras
A chuva no telhado
Lamparinas acesas
Deixando tudo enevoado
O pio dos pássaros
São coisas do passado

As pessoas eram iguais
Ninguém tinha menos
Ninguém tinha mais
Mas o instinto da ganância
Mudou estas gentes
Uns viraram fazendeiros
Outros madeireiros


Nunca cortei uma arvore
Nunca matei um animal
Mas sei que minha presença
Alterou este local
O rio em que eu me banhava
Virou um lamaçal

Prédios casas e praças
Dão conforto ilusório
A energia elétrica me tira o sossego
Para onde foram as corujas
As pacas as cutias e os morcegos
Eu era feliz e não sabia

Dentre todas minhas profissões
Tem uma que me é especial
Sou professor sem dinheiro
Mas com orgulho de um nobre
História é a minha área
Sou história e história faço

Não se torce os galhos
De uma arvore adulta
Quanto mais nova
Mais fácil
Acredito nas crianças
Este é o trabalho que abraço

Para purgar minhas culpas
De minha presença incomoda
Prefiro as crianças
E a elas levo o conhecimento que adquiri
Preservar a natureza
E já é tarde para agir

Com os amigos Tulha e Massur
Criamos uma ong e a CEPEMI
Não há de dormir
Como presidente eu garanto
Não vamos desistir
Lutando por este ambiente
Que ajudamos a destruir

Prof.Wolney Blosfeld

16 Anos

Para dizer a verdade pretendia nomear este texto apenas com o 16. Mas o pessoal que anda lendo poderia pensar que maluqui de vez, pois há poucos dias “soltei” umas outras linhas de pensamento com o título de 45. Naquele um dos temas centrais era o convite a olhar a bunda dela na capa da revista.
Agora a coisa é séria. São os 16 anos.
Por isso não poderia ficar só no 16, precisei adjetivar o numeral. A qualidade desse numeral, que posa de substantivo, é o fato de ele ter idade; não é um 16 qualquer, mas um total de anos.
O propósito desta discussão? Explico!
Li uma reflexão do prof. Paulo Ghiraldelli Júnior (pgjr23@yahoo.com.br), numa lista de contatos regulares. Nesse, e.mail em questão, ele distribuía sua reflexão publicada no jornal O Estado de São Paulo. Na parte que nos interessa diz o seguinte:
Parece que foi ontem, mas já faz 16 anos do fim da União Soviética (URSS). Esse número de anos é importante, o 16, pois é exatamente a idade que um brasileiro precisa ter para ganhar direito de voto. Assim, no próximo ano estarão com direito de voto os brasileiros que nasceram num mundo em que o comunismo não só deixou de existir, mas passou a aparecer na TV como o segundo mais importante vilão político do século 20 (o primeiro continua sendo o nazi-fascismo).
Esses eleitores podem bem ser os filhos dos jovens brasileiros cujas idades são equivalentes às dos que estiveram dando marretadas no Muro de Berlim.
Podemos dizer o que quisermos a respeito daquela situação; podemos condenar ou canonizar o “comunismo”; podemos dizer que a queda do Muro foi mais um golpe de marketing do que de ideologia... mas o fato é que esses dois eventos – fim da URSS e queda do Muro – foram episódios, se não conduzidos, ao menos que contaram com a adesão massiva e maciça de jovens sedentos de liberdade e com objetivos políticos; podemos até dizer que aqueles eventos, como alguns outros, em outras épocas, ocorridos em vários lugares, podem ter sido manipulados por “forças ocultas”. Mas não podemos negar a participação dos jovens.
Mas aqueles jovens cresceram; 16 anos depois, possivelmente seus filhos, como os nossos, no Brasil, se defrontam com uma situação, problemática: a crise dos rumos; crise de identidade; crise de valores... ou seja lá o que dissermos, o fato é que estamos numa época de crise!
Não vamos ser hipócritas e olhemos somente para nosso país. E aqui constataremos uma crise sem precedentes. Trata-se de uma das piores crises de nossa história: trata-se da crise de perspectivas, ou de rumos.
Não enxergamos perspectivas e não oferecemos perspectivas. Perdemos o norte. E nossos jovens são o reflexo dessa crise. E com isso chegamos ao tédio. E chegar a esse ponto é não ter rumos, objetivos... é ante-sala da morte.
Outra vez me sirvo do prof. Paulo que, embora fale com outras palavras e em seu discurso negue a crise, afirma o mesmo que estou dizendo: não sabemos para onde ir!
O que oferecemos aos jovens? Somos pessoas que passaram pela ditadura militar, que nos deixou marcas. Somos pessoas que viveram já 22 anos de democracia, mas não tiramos o País do Quarto Mundo. Mas, como não estamos vivendo uma crise grave, nos levantamos e vamos para o trabalho, cumprimos nossas funções, voltamos para casa e assistimos à TV. Se Renan Calheiros traz mais gente para posar nua, avaliamos - de preferência na internet, pois a revista está cara. E no outro dia fazemos tudo igual. Lutamos para chegar ao que os americanos chamavam de “o tédio da democracia”. Estamos contentes pelo tédio. Pois todas as vezes que nos tiraram do tédio, no passado, não foi bom. Ou foi para nos acordar à noite, nos chamar de subversivos e nos engaiolar, ou foi para nos tomar algum dinheiro por meio de um plano econômico maluco. Então, passamos a dar valor ao tédio.
Ora, o problema é que a juventude odeia o tédio. O nosso gosto pelo tédio não atrai os jovens. Não temos nada de encantador na democracia para oferecer? Tenho uma idéia para quebrar o tédio, a de dizer aos jovens o seguinte: nossa democracia não está acabada, vocês podem ser revolucionários se perceberem que democracia não é só a realização da vontade da maioria, mas a vontade da maioria associada ao respeito pelos direitos das minorias. E nisso há muito que se fazer no Brasil.
Mas nossa falta de rumo, a crise de perspectivas, atinge também a juventude. Por isso vemos nossos jovens, no alto de seus 16 anos, desmotivados de tudo. Descrentes de tudo. Desinteressados de tudo. Olhando para tudo como se isso fosse nada.
E aí me vêm, com essa coisa estapafúrdia de voto. Querem nos fazer votar para dar legitimidade ao desmando, ladroagem, corrupção, desvio de dinheiro público... e querem que os jovens, já aos 16 anos, sejam parte do processo de legitimação desse teatro dos horrores misturado com pastelão e pornochanchada
Estão fazendo até uma campanha ridícula para recuperar o descrédito a que está relegado o título de eleitor. É só olhar para a TV que a gente vê.
E assim estamos: há 16 anos sem contraponto. Aos 16 anos, prestes a cair na tentação do voto. Com 16 anos sem criar perspectivas. E, o que é pior, caminhando na direção da morte dos sonhos.

Neri de Paula Carneiro - Filósofo, Teólogo, Historiador
neri.car@hotmail.com
Leia mais:
www.filohistoria.com.br

Véus de Rondônia

O prof. Wolney acredita que é possivel lermos o hino de Rondônia com mais perspectiva de realidade e fidelidade histórica. Diz ele "Uma proposta mais adequada para o Hino de Rondônia"

Quando nosso céu se escurece
De tanta revolta da destruição
Nós os habitantes de Rondônia
Ficamos pasmados
Com tanta devastação
Como pessoas conscientes
Das mazelas da nação
Que nestas terras antes belas
Presenciam
A sua degradação

Neste eldorado tão distante
A natureza é exterminada diariamente
Os nossos índios a fauna e a flora
Morrem sem ser conhecidos pelas gentes
Maquinas e mentes vão corroendo
A beleza deste rincão
Que com tristeza nos lembraremos
Quando não houver mais solução

Azul nosso céu já foi azul
E deus permitiu que fosse assim
As hidroelétricas engolindo
Este é o triste fim
Aqui toda vida tem valor
Um valor dolarizado
E se foram nossos lagos
Nossos rios e os macacos
E tudo isso teve fim.

Letra: Prof.Wolney Blosfeld
Música: Dr. José de Mello e Silva

30 de out. de 2007

Um Golpe na Educação

O período 1964-1985, em que os militares governaram o Brasil, aparece como uma marca indelével na história do país. Já ganhou inúmeras denominações: para os militares que o conduziram foi uma revolução, para os setores de esquerda ou para quem o contradiz foi um golpe militar ou ditadura, historiadores e outros que o analisam, o período ganha a denominação de anos de chumbo ou estado militar. Não importa a denominação que se dê ao período ou a ótica a partir da qual ele seja visto e analisado, esse é um período que marcou indelevelmente a história.
Não que militares não tivessem, antes, governado o país ou não tivessem feito intervenções na política. Pode-se destacar, inclusive, que foram os militares que instalaram a república e a governaram os primeiros anos da república da espada. Mas em nenhum dos períodos anteriores ganhou as proporções, as características e particularidades que são específicas e que só são encontradas entre 1964-1985.
Nunca, em períodos anteriores, a repressão foi tão amplamente usada atingindo, da mesma forma violenta, todas as classes sociais e todas as categorias e organizações da sociedade. Artistas, intelectuais, sindicalistas, religiosos, estudantes, políticos e vários outros segmentos, viram-se de repente, nas mãos da repressão: perseguidos, presos, torturados e, em muitos casos, mortos. O número de mortos e desaparecidos ainda é um mistério que, dificilmente, será revelado em sua plenitude e com toda a verdade, ante o silêncio que ainda é feito ao redor do tema, além das controvérsias entre os que fizeram e comandaram o período e os que sofreram suas agruras.
Além de ser uma marca na história do país, esse período deixou sua marca, também, na história da educação nacional. Tanto que alguns autores afirmam que além do golpe militar ocorreu, também, um golpe na educação.
A afirmação acima pode ser ilustrada pelas várias crises, conflitos e contradições que podem ser detectados no período em que os militares governaram o país, após 1964. E, para nós que vivemos em Rondônia, esse período pode ser usado para se pesquisar o processo de formação de nossos municípios e, inclusive, como guia para a compreensão da história da educação. Em nosso caso estamos usando o período do golpe para entender o processo de implantação das primeiras escolas em Rolim de Moura – RO.

(Este texto é parte de nosso artigo, publicado na Revista Farol - Faculdade de Rolim de Moura, ano II, nº IV, jul/dez 2006, p. 9-32.
Caso deseje o artigo completo - gratuitamente - solicite em: neri.car@hotmail.com)

Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador

Considerações sobre a morte

"Tota philosophorum vita commentatio mortis est" (toda a vida dos filósofos é uma preparação para a morte) afirma Catão de Útica, contemporâneo de Cícero e por ele citado em suas" controvérsias tusculanas". O próprio Catão cometeu suicídio em Útica.

Supondo que a filosofia seja uma preparação para a morte, necessário é fazer algumas considerações sobre ela, a morte.

A palavra morte vem do latim "mors" em oposição à "vita" (vida em latim). Com ela surgem vários vocábulos, tais como: cadáver, finado, defunto, morto, etc. Mas, o que de curioso existe em cada uma dessas palavras?

Olhemos.

A primeira delas, cadáver vem do verbo latino "cadere" (cair); a segunda, finado é o particípio do verbo "finar" (dar fim a); a terceira, defunto se liga ao latim "defunctu" (cumprir inteiramente); a quarta, morto remonta a "mortuu" (que recebeu a morte). Por essas investigações etimológicas, compreende-se que o conceito de morte está, logicamente, ligado à idéia de um acabar, de um cumprir-se .

Mas, o que fica após esse cumprir-se, enquanto morte? Para o filósofo Sêneca, nada resiste. Diz ele: "Depois da morte tudo acaba, mesmo a morte."

Esse acabar é reflexívo, pois se expressa, também, em termo de suicídio. Essa palavra - já registrada, em Inglês, desde 1671 (suicide) -compõe-se de dois termos latinos: "sui" (de si ) e "caedere (cortar). Visto dessa forma, o suicídio é um cortar a si mesmo. Corta-se um dedo, um braço, depois uma vida.

Cortada a vida, aparece a morte? O filósofo Feuerbach diz não: "A morte é um fantasma, uma quimera, pois só existe quando não existe".

A problemática da existência da morte remete a uma questão metafísica, pois não se vê a morte. Observam-se corpos sendo feridos, lesados e não a morte enquanto substância. Não se vê a morte de Sócrates nem a de Jesus. Se não vemos a morte, implicaria dizer que não se morre? O critério da invisibilidade da morte nos conduziria a um "ad immortalitatem" em relação ao ser humano?



Everaldo Lins de Santana - filósofo

20 de out. de 2007

45

Parece estranho, mas o titulo deste texto é esse mesmo: 45.
Mas não estou me referindo ao calibre da bala que simboliza os filmes violentos de violência policial.
45, neste caso, é o tempo pelo qual o camarada lá do senado pediu afastamento: 45 dias.
Depois de tanta chantagem e “maracutaia” (estão lembrados desta palavra?) o sujeito conseguiu não ser afastado pelos seus comparsas nem pelos seus adversários que ficaram com medo que ele jogasse “merda no ventilador”. (Os olhos mais pudicos que me desculpem, mas a palavra é essa mesma! Principalmente porque o camarada ameaçou jogar os nomes de alguns “seniores” fazendo com que o mau cheiro que eles compartilham se espalhasse pela nação inteira – lembrando que cada 3 deles representam um estado deste violentado país, tantas vezes saqueado e estuprado).
Pois é, o cara pediu 45 dias de afastamento.
Tempo suficiente para ele fazer outros conchavos (alguém se lembra dessa palavra?). Tempo suficiente para seus adversários tramarem uma estratégia “honrosa” (como se honra houvesse em trair o país!). Tempo suficiente para se espalhar mais boato que alimenta os veículos de comunicação. Tempo suficiente para que a população, movida pela força da mídia, e não pelas próprias opiniões, esqueça o caso. Tempo suficiente para se procurar outro fato a ser explorado pelos noticiários. Tempo suficiente para que possam trocar as toalhas da pizzaria dos pratos invertidos com dois obeliscos no meio!
45 dias.
Flagrado em mais uma tentativa de violação de direitos individuais, o camarada ainda se dá o direito de se licenciar do cargo, sem perdê-lo ou sem renunciar a ele. Apenas se afastando por 45 dias.
Em seu lugar assume um suplente, pessoa de sua confiança, que foi pinçado ao poder por meio da sombra do mafioso.
Nesse meio tempo rola o lançamento do “Tropa de Elite”, mostrando a face vil da polícia do Brasil ao lado da verdadeira face do crime organizado, do tráfico de drogas e de sua alimentação graças aos discursos inflamados dos “ongueiros” de plantão e de outros tantos consumidores. Tanto que se tornou “clichê” na mídia a afirmação: quem “financia” o tráfico é quem compra a droga. Quem financia o tráfico são os usuários que a compram com dinheiro que é usado para pagar a corrupção, as armas e o contrabando de mais droga. Frisando que quem compra droga não está na periferia, nem nas favelas, nem são as pessoas pobres. É bom que se diga, de uma vez: os usuários pobres não têm dinheiro para comprar droga – a não ser quando fazem pequenos roubos. Quem paga a droga com dinheiro é quem tem dinheiro: pessoas que trabalham ou seus filhos que recebem mesadas. Pobres e filhos de pobres, para usar droga tem que roubar ou trocá-la por serviço: fazendo tráfico ou se prostituindo.
Nesse meio tempo continua o processo de agressão à natureza. Vi e ouvi coisas por aí, nesse meio tempo, que é de arrepiar os cabelos de um careca como eu. Contaram-me alguns chacareiros que viram suas nascentes e igarapés e plantações arrasadas por porcos de um vizinho. Disseram ter procurado todos os órgãos públicos em busca de solução, só ouviram que deveriam procurar tal e tal e tal outro órgão. A resposta foi sempre o silêncio ou o: “procure tal órgão”. Um desses chacareiros filmou os porcos em ação fuçando as nascentes e mandiocais e canaviais e outras plantações e as autoridades procuradas disseram que “vamos verificar”. Nem as emissoras de TV, da cidade, se deram ao trabalho de ver as imagens, menos ainda de fazer reportagens sobre o caso. Ou seja, o meio ambiente importante e que vira notícia é só aquele do outro lado do mundo. Aqui, em nossa cidade, pelas vias legais, para a mídia local, não tem solução. Não chama a atenção!
Nesse meio tempo, um outro sitiante, que está perdendo suas nascentes para as enxurradas que vêm das ruas abertas pela prefeitura. Também não recebeu atendimento. As nascentes de seu sítio, na beirada da cidade, estão ficando completamente assoreadas: Com terras erodidas das ruas de um dos bairros da cidade. Serviços de urbanização, realizados pela prefeitura abriram ruas, abriram esgotos, direcionando as enxurradas das ruas para as nascentes do pobre homem que procura solução, na prefeitura e o mandam procurar tal órgão de onde recebe a orientação de procurar tal outro órgão, que o direciona para outro...
Tudo isso e muito mais, acontecendo nesses 45 dias.
Como diz a letra daquela música: “não existe pecado do lado debaixo do equador. Vamos fazer um pecado, rasgado, suado...” E se não existe pecado, também não existe crime. O crime ambiental, daqui, não é considerado; o crime do senador, lá, não é considerado...
Retifico: existe crime. O crime é dizer a verdade.
É mais fácil eu ser perseguido, processado e condenado por estar falando o que digo nestas linhas, do que quem agride o meio ambiente, ou trai a nação, ou saqueia o povo! Também não será punido quem chafurda nas maracutaias, lá naquele Planalto distante. (A distância, não é geográfica, mas em relação aos eleitores e ao povo deste belo país). Em vista disso afirma-se que Rui Barbosa teria dito: “hoje em dia as pessoas sentem vergonha de serem honestas”
Tudo isso e muito mais nesses 45 dias.
45 dias que um sujeito se deu, de férias – pagas com o nosso dinheiro. Depois ele volta: ou para continuar seu mandato ou para um novo mandato... Tantos outros já voltaram...
Nessas alturas do campeonato...
Sobra-nos o consolo de, olhar a bunda da amante daquele camarada, tirando a calcinha, na capa da revista!!!

Neri de Paula Carneiro
Filósofo, teólogo, historiador.