15 de nov de 2007

16 Anos

Para dizer a verdade pretendia nomear este texto apenas com o 16. Mas o pessoal que anda lendo poderia pensar que maluqui de vez, pois há poucos dias “soltei” umas outras linhas de pensamento com o título de 45. Naquele um dos temas centrais era o convite a olhar a bunda dela na capa da revista.
Agora a coisa é séria. São os 16 anos.
Por isso não poderia ficar só no 16, precisei adjetivar o numeral. A qualidade desse numeral, que posa de substantivo, é o fato de ele ter idade; não é um 16 qualquer, mas um total de anos.
O propósito desta discussão? Explico!
Li uma reflexão do prof. Paulo Ghiraldelli Júnior (pgjr23@yahoo.com.br), numa lista de contatos regulares. Nesse, e.mail em questão, ele distribuía sua reflexão publicada no jornal O Estado de São Paulo. Na parte que nos interessa diz o seguinte:
Parece que foi ontem, mas já faz 16 anos do fim da União Soviética (URSS). Esse número de anos é importante, o 16, pois é exatamente a idade que um brasileiro precisa ter para ganhar direito de voto. Assim, no próximo ano estarão com direito de voto os brasileiros que nasceram num mundo em que o comunismo não só deixou de existir, mas passou a aparecer na TV como o segundo mais importante vilão político do século 20 (o primeiro continua sendo o nazi-fascismo).
Esses eleitores podem bem ser os filhos dos jovens brasileiros cujas idades são equivalentes às dos que estiveram dando marretadas no Muro de Berlim.
Podemos dizer o que quisermos a respeito daquela situação; podemos condenar ou canonizar o “comunismo”; podemos dizer que a queda do Muro foi mais um golpe de marketing do que de ideologia... mas o fato é que esses dois eventos – fim da URSS e queda do Muro – foram episódios, se não conduzidos, ao menos que contaram com a adesão massiva e maciça de jovens sedentos de liberdade e com objetivos políticos; podemos até dizer que aqueles eventos, como alguns outros, em outras épocas, ocorridos em vários lugares, podem ter sido manipulados por “forças ocultas”. Mas não podemos negar a participação dos jovens.
Mas aqueles jovens cresceram; 16 anos depois, possivelmente seus filhos, como os nossos, no Brasil, se defrontam com uma situação, problemática: a crise dos rumos; crise de identidade; crise de valores... ou seja lá o que dissermos, o fato é que estamos numa época de crise!
Não vamos ser hipócritas e olhemos somente para nosso país. E aqui constataremos uma crise sem precedentes. Trata-se de uma das piores crises de nossa história: trata-se da crise de perspectivas, ou de rumos.
Não enxergamos perspectivas e não oferecemos perspectivas. Perdemos o norte. E nossos jovens são o reflexo dessa crise. E com isso chegamos ao tédio. E chegar a esse ponto é não ter rumos, objetivos... é ante-sala da morte.
Outra vez me sirvo do prof. Paulo que, embora fale com outras palavras e em seu discurso negue a crise, afirma o mesmo que estou dizendo: não sabemos para onde ir!
O que oferecemos aos jovens? Somos pessoas que passaram pela ditadura militar, que nos deixou marcas. Somos pessoas que viveram já 22 anos de democracia, mas não tiramos o País do Quarto Mundo. Mas, como não estamos vivendo uma crise grave, nos levantamos e vamos para o trabalho, cumprimos nossas funções, voltamos para casa e assistimos à TV. Se Renan Calheiros traz mais gente para posar nua, avaliamos - de preferência na internet, pois a revista está cara. E no outro dia fazemos tudo igual. Lutamos para chegar ao que os americanos chamavam de “o tédio da democracia”. Estamos contentes pelo tédio. Pois todas as vezes que nos tiraram do tédio, no passado, não foi bom. Ou foi para nos acordar à noite, nos chamar de subversivos e nos engaiolar, ou foi para nos tomar algum dinheiro por meio de um plano econômico maluco. Então, passamos a dar valor ao tédio.
Ora, o problema é que a juventude odeia o tédio. O nosso gosto pelo tédio não atrai os jovens. Não temos nada de encantador na democracia para oferecer? Tenho uma idéia para quebrar o tédio, a de dizer aos jovens o seguinte: nossa democracia não está acabada, vocês podem ser revolucionários se perceberem que democracia não é só a realização da vontade da maioria, mas a vontade da maioria associada ao respeito pelos direitos das minorias. E nisso há muito que se fazer no Brasil.
Mas nossa falta de rumo, a crise de perspectivas, atinge também a juventude. Por isso vemos nossos jovens, no alto de seus 16 anos, desmotivados de tudo. Descrentes de tudo. Desinteressados de tudo. Olhando para tudo como se isso fosse nada.
E aí me vêm, com essa coisa estapafúrdia de voto. Querem nos fazer votar para dar legitimidade ao desmando, ladroagem, corrupção, desvio de dinheiro público... e querem que os jovens, já aos 16 anos, sejam parte do processo de legitimação desse teatro dos horrores misturado com pastelão e pornochanchada
Estão fazendo até uma campanha ridícula para recuperar o descrédito a que está relegado o título de eleitor. É só olhar para a TV que a gente vê.
E assim estamos: há 16 anos sem contraponto. Aos 16 anos, prestes a cair na tentação do voto. Com 16 anos sem criar perspectivas. E, o que é pior, caminhando na direção da morte dos sonhos.

Neri de Paula Carneiro - Filósofo, Teólogo, Historiador
neri.car@hotmail.com
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