21 de dez de 2007

Fechando para Balanço

Neri de Paula Carneiro – Filósofo, teólogo, historiador
Leia mais: www.filohistoria.com.br

Nestes tempos de fim de ano, é comum fazermos balanços, avaliando a quantas anda nosso final de estoque.
Muitas vezes nos orgulhamos – ou nos envergonhamos – pelo que realizamos; agradecemos por não ter realizado algo que poderíamos ter feito e que parecia bom, mas que, depois constatamos, não o seria tanto assim; ou lamentamos por ter deixado de fazer algo que parecia péssimo, mas que, no transcorrer do processo, constatamos que teria sido excelente...
Nestes tempos de fim de ano é tempo em que fazemos avaliações em função do passado – ao quê não temos mais acesso e não há como recuperar, nem reviver, nem concertar... é tempo de sonhar com o que queremos e, em função disso, planejar o futuro – realidade sobre a qual também não temos acesso, na qual não podemos mexer, nem tocar... só sonhar, com o risco de acordar num pesadelo!
Muitas vezes nos deparamos com nossas energias concentradas no passado, ou no futuro, sem forças para viver o já... que já foi... e quando nos damos conta percebemos que o instante que vivemos é fluído demais ao ponto de nem o percebermos claramente, sobrando-nos o lamento... ou o agradecimento. E, novamente constatamos: não temos tempo...
Nestes tempos de fim de ano é quando mais nos damos conta de que não temos tempo!
Muitas vezes, em razão da falta de tempo, nos desesperamos pelo tanto que sonhamos fazer enquanto constatamos que não será possível realizar... ou, por percebermos que não dá tempo, deixamos de fazer o que podemos... e, nos dois casos, deixamos de viver intensamente o instante fluído do instante em que vivemos.
Nestes tempos de fim de ano, também olhamos para o mundo e constatamos, estarrecidos, quão errado tudo está. Tantas malandragens se impondo sobre nossos, e de outros, honrados esforços para conseguir um lugar ao sol.
Muitas vezes nos vem aquela vontade, ou mais que vontade, de jogar no lixo todos os valores nos quais fomos formados e aos quais nos agarramos para sobreviver e nos dar objetivos. Isso ocorre, principalmente, quando vemos aquele salafrário de nosso colega de trabalho se dando bem, surfando na malandragem... e nós, afogados na honestidade, na lealdade, no altruísmo... nos damos conta de que não passamos de pedra de tropeço... não passamos de degraus que outros estão usando para chegar lá onde nós temos certeza que deveríamos estar, não por puxasaquismo, ou apadrinhamento, mas por mérito e capacidade.
Nestes tempos de fim de ano é quando, com mais ira, nos sobrevém aquela triste constatação de que precisamos, com urgência, rever nossos conceitos, nossos valores, nossas expectativas sobre o mundo e as pessoas... É quando, com a mais pura transparência, percebemos, num clima de paz, harmonia, festividade, a essencial maldade humana. É quando vemos a constante ausência ser compensada com presentes que deveriam ser uma forma de manter a presença do presenteador ao presenteado, mas acaba sendo uma confissão de que nada vai mudar e as pessoas permanecerão isoladas em seus mundos mesquinhos.
Muitas vezes constatamos que o clima natalino e o de sonho de paz e fraternidade que se atribui à passagem de ano, nada mais é do que uma forma de manter e alimentar o comércio. É quando aumentam os lucros e não o processo de construção de mais humanização. É quando nos vem a mente a letra daquela música natalina:
“O tempo vai passando sutilmente
De repente,
A gente lembra que o natal
Já vai chegar...”
Nestes tempos de fim de ano é quando percebemos a fluidez do tempo que se esvai, como o sangue de nossa artéria-vida que verte inexoravelmente, nos levando para um encontro definitivo. Para fugir disso é que as pessoas fazem o que diz a continuação da mesma música:
“A praça apareceu iluminada
Na calçada
O povo pensa que em pacotes
Compra a paz”
Muitas vezes somos enganados e noutras tentamos enganar, ou nos enganar, dizendo ou fazendo de conta que o clima festivo do final do ano dará conta de resolver, como se fosse um truque de magia de mau gosto, todas as mazelas nossas, das pessoas com quem convivemos e do mundo. Mas nos pacotes de presentes que trocamos, não está aquilo que mais almejamos e com o quê sonhamos. Nos pacotes trocados, presentes dados e recebidos, está somente o gosto amargo da ausência, e uma confissão/constatação: ainda não fomos capazes!!!
Muitas vezes temos visto, ano a ano, os fins dos anos chegarem. E, como sempre, neste fim de ano veremos o fim anunciando o começo. E nestes tempos de fim de ano seria bom, e isto já é mais um sonho de fim de ano, se fossemos capazes de não criar sonhos a mais, mas traçar metas e cumpri-las. Teríamos que nos dar conta de que nosso problema não é a falta de metas, mas o não cumprimento de metas traçadas.
Nestes tempos de fins de anos, com o estoque reduzido, poderíamos não fechar para balanço, pois teremos que reabrir... e, depois do balanço, anda teremos o estoque antigo...

14 de dez de 2007

Adolescente dá a luz

Neri de paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador - Rolim de Moura
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Inacreditável!
Um fato esplendoroso!
Aconteceu há mais de 2000 anos.
Parece ser mentira.
Mas aconteceu!
Aconteceu para ser um evento de paz num canto do mundo que ainda clama pela paz. E embora esse canto do mundo tenha se tornado um centro, não é, ainda, um centro que irradia paz.
Mas aconteceu. E foi numa cidadezinha, perdida entre as montanhas da Palestina. Foi em Belém, na Judéia. Numa época de recenseamento. Numa situação de pobreza extrema. Numa época de conflito e de insegurança. Foi aí que uma jovem, recém-casada com o carpinteiro José, se alojou.
José e a jovem senhora saíram de sua terra para se alistar. As circunstâncias e a necessidade os levaram a alojar-se nos arredores de Belém. Num lugar público, para que o fato se tornasse mais público!
Sem casa. Sem terra. Sem teto, alojaram-se naquela gruta: espécie de estrebaria. Noite fria!
Todo mundo já notava aquela barriga: gravidez avançada! Todo mundo notava, e falava: sem casa... por que deixar nascer?... sem terra... irá sobreviver? Sem nada... nada impede que seja mais um menor carente. Padecente. Mais um filho da pobreza. Mais um menor que já nasce etiquetado, marginalizado, rotulado. Noite fria!
Gravidez avançada, ela já cansada. O jovem casal dialogante, dialogando aloja-se, marginalizadamente, ente os marginais. Nas margens da cidade que os marginaliza. Estão sós ma não a sós... e só os marginalizados, os sem nome, os mais miseráveis é que os acolhem.
Noite fria! Noite de incertezas! Noite de angústias!
A jovem senhora, cerca de 14 anos, não mais, está apreensiva: a tensão da viagem, dúvidas do porvir... quê virá, a seguir?
Mesmo assim, no meio de incerteza a jovem senhora, Maria é seu nome, sonha... e acredita!
Sonha esperanças milenares e acredita com saudades do futuro: os pobres serão exaltados... Os famintos serão saciados.. Os ricos de mãos vazias... Mas quando?
A noite é fria! As pessoas são frias! É noite... É a noite escura das incertezas...
Gravidez avançada! Noite de dúvidas! Noite de expectativas! Um sonho! O sonho é esperança! A esperança quer brilhar! E os menores? E os sem casa? E os sem terra? E os que nem chegam a nascer? E os que nascem só para morrer? E os sem futuro? É noite escura... e nesse escuro é que se espera uma luz...
A jovem senhora, nos braços da pobreza, sonha! Até quando isso?
A gravidez é um sonho! A gravidez é uma esperança!
Mas é noite... e na noite se sonha e os sonhos na noite são dores. O parto: as dores do povo sofrendo. Sem casa, sem terra, sem nome... com fome!
As dores! Uma dor brilhante! A noite grita: as dores da miséria, dos menores abandonados...! A jovem senhora estremece, soluça com o pranto de seu povo, mas sonha e crê. Mais do que sonho, ela tem uma certeza: um filho.
Na certeza, superando a incerteza, a jovem senhora dá à luz uma esperança!... ela dá a luz!
Uma esperança que teima em continuar...
Maria é mãe... Maria é mulher... Maria chora soluços de alegria: o menino é Jesus.
O sonho nasceu!
O menino é o sonho: ela ri, soluçando com seu povo. Ela ri: sabe que o sonho é esperança. Ela reza: sabe que o sonho é certeza! Ela se sabe iluminada, seu povo, os marginalizados, têm a Luz.
A Luz veio aos homens!
Através da adolescente, um menino, uma esperança, uma luz, uma certeza...
Através da adolescente, Maria, a mulher, ilumina!
Através da adolescente a Luz veio à luz!
E, ainda hoje a luz quer brilhar!!!
E a luz precisa e espaço para se irradiar, iluminar!!!

11 de dez de 2007

MUSICOSOFIA: A música nas aulas de filosofia

Prof. Neri P. Carneiro - neri.car@hotmail.com

A filosofia pode ser uma atividade agradável e con-vidativa, no ambiente escolar secundarista e do ensino superior? Como fazer das aulas de filosofia um momento agradável, sem perder a capacidade de desenvolver a crítica que caracteriza essa área do conhecimento?
O que aqui nos move, portanto não é a discussão so-bre filosofia, mas sobre uma possível metodologia que possa ajudar aos professores a melhor desenvolver suas atividades com filosofia.

Algumas considerações.

Para isso são necessárias algumas considerações.
Em primeiro lugar é preciso dizer que a filosofia dis-tingue-se das ciências e de outras disciplinas escolares por várias razões. Uma delas é o fato de não ter como preocupação primeira a apresentação de respostas, mas a proposição de duvidas. São as dúvidas que conduzem às respostas e estas provocam o desenvolvimento ou ampli-ação do saber.
Como as ciências e disciplinas escolares, ela leva em consideração o que disseram os antigos, mas não se limi-ta a repetir o que eles disseram. E nisso está mais uma diferença em relação às outras áreas do saber. Podemos dizer que as outras áreas do conhecimento se desenvol-vem, de modo geral, reforçando o que já foi dito, ou seja, a partir da afirmação de uma verdade. A filosofia se de-senvolve colocando em dúvida a verdade apresentada. O melhor discípulo de um filósofo não é o que divulga suas idéias, mas o que o supera, como sugere R. Gomes, em “A Crítica da Razão Tupiniquim” (1982, p. 32): “Imedia-tamente após o período da criação, surge a cristalização e a esterilidade – aí encontramos os pretensos seguidores. É quando aquela intuição originária se perde nalguma escolástica. Só mais tarde surgirá o verdadeiro sucessor: aquele que disser o contrário”.
A postura negadora, da filosofia, é o que lhe dá vita-lidade, vigor e prestígio. A partir do espírito da crítica – que é a negação do que foi afirmado – desenvolve-se não a filosofia, mas o filosofar, como sugeriu E. Kant. E nisso se manifesta outra de suas características: filosofia não é algo que se ensina, como se fora regra de três ou normas de acentuação gráfica. Filosofia não se ensina, mas propõe-se desafio ao processo do filosofar. Não se ensina porque tudo que se disser sobre Filosofia será, sempre, uma caricatura; a filosofia, portanto, se caracte-riza não por ou com uma definição, mas no processo; o que importa é o processo, pois este se aproxima da dina-micidade da busca, que a caracteriza. Filosofia não é o que está pronto, mas nasce no processo do filosofar.
Claras são as palavras de Nietzsche, ao afirmar, no prólogo de Ecce Homo, que a filosofia ainda há de ven-cer pois “até agora a única coisa que foi proibida sempre, por princípio, foi a verdade”. Isso porque, diz ele, a filo-sofia é busca.

“A filosofia, como a compreendi e a vivi até agora, é vida voluntária no meio do gelo e nas altas mon-tanhas — é a busca de tudo o que é estranho e du-vidoso na existência, de tudo o que foi até agora proscrito pela moral. A longa experiência, propor-cionada por esse caminhar no proibido me ensinou a contemplar tudo de forma completamente dife-rente do que se poderia pensar as razões pelas quais até agora se moralizou e se idealizou: a história o-culta dos filósofos, a psicologia de seus grandes nomes se revelou para mim. Quanta verdade um espírito pode suportar, quanta pode arriscar um es-pírito? Isso foi se convertendo cada vez mais para mim no verdadeiro critério do valor. O erro (a crença no ideal) não é cegueira, o erro é covardia... Cada conquista, cada passo em frente no conheci-mento é conseqüência da coragem, da dureza con-sigo mesmo, da limpeza para consigo...” (NI-ETZSCHE, [2006?], p. 16)

Como tudo isso pode ser aplicado ao contexto esco-lar? A primeira dica é: Não devemos fazer das aulas de filosofia uma cantilena de repetição do que já foi dito, mas a partir do que foi falado, propor a novidade. No contexto escolar é necessário encontrar não uma forma de ensinar a filosofia, mas um mecanismo que ajude a filosofar.
E assim podemos fazer algumas afirmações, categó-ricas:

Como dar uma boa aula de filosofia?

Não existe regra.
Depende da criatividade e dos conhecimentos pré-vios do professor. Um professor de filosofia não se equi-vale ao de português ou de matemática. Ele precisa ser leitor atento, ler muito, ter conhecimentos/informações de várias áreas. Gostar da dúvida e não se sentir dono da verdade.
Mesmo quando os alunos tentem “colocá-lo na pare-de” o professor precisa manter a atitude humilde de quem sabe que não sabe, pois os alunos também possuem seus saberes.
Sendo uma disciplina sobre a qual já se formou um preconceito, sobre a qual se diz uma porção de inverda-des, ao professor cabe mostrar que a maioria das opiniões sobre filosofia não corresponde à Verdade sobre Filosofi-a.
Uma boa dose de ironia, bom humor, descontração e capacidade de improvisar e transformar as situações coti-dianas em situação problema é uma das qualidades indis-pensáveis para o professor de filosofia. Utilizar textos com mensagens já implícitas ou já conhecidos podem ajudar, mas podem, também, direcionar a reflexão; ou o que é pior podem impedir que se reflita, pois a mensagem já é conhecida...

Qual o melhor texto de apoio?

Não existe.
Qualquer texto pode ser usado, desde que previa-mente tenha sido bem estudado e direcionado para o objetivo que se quer alcançar.
Fica difícil trabalhar um tema, por exemplo, de Eco-logia com um texto que fala sobre Sexo. Já um texto bem pornográfico pode ser um excelente link para uma aula sobre família ou sobre adolescentes e, obviamente sobre sexualidade, prostituição... Isso implica dizer que o pro-blema – e a solução do problema – está na capacidade criativa do professor. Por isso a necessidade de o profes-sor ser leitor, superar preconceitos pessoais e, o que é mais importante, superar-se.
O importante não é o texto, mas a metodologia de abordagem do texto. Trata-se de fazer questionamentos ao texto. De fazer uma espécie de análise literária do texto estudado, localizando: personagens, o que fazem, por que fazem, onde o fato narrado acontece, por que acontece, qual a sua mensagem...

Qual a melhor técnica, dinâmica, metodologia?

Não existe.
O que deu um excelente resultado em alguma ativi-dade com uma turma, pode ser infrutífero com outra. O que dá para fazer é adaptar, recriar, reciclar.
Algumas dinâmicas, ou metodologias, ou técnicas podem ajudar. Entre as inúmeras que existem e que o professor pode inventar, podem ser mencionadas: Dinâ-mica de grupo (ou trabalho em grupo); Tea-tro/música/paródia; Recriar um texto na forma de dese-nho; Debate/seminário/mesa redonda; Interpretar dese-nhos, charges...
Mas acima de tudo e o que realmente importa é a-daptar e recriar.

É Fundamental!

Depois de tudo isso o fundamental é que o professor crie seus próprios exercícios. Estas podem ser desenvol-vidas com alguns textos. O texto, na realidade é só um pretexto, um gancho, um link para aprofundar o tema que se deseja trabalhar. Sobre esse tema o professor deve estar preparado e acolher as respostas dos alunos, sem preconceitos, ajudando a devolver questionamentos a fim de continuar as reflexões. Importa que o professor não encerre o debate, que não dê respostas prontas, mas desa-fie o aluno...
Não é demais reafirmar: Para o ensino de filosofia não existe receita. Podemos dizer, por um lado, que não podemos ficar presos às falas dos filósofos, mas, por outro lado, não podemos nos alienar em textos descone-xos. Aquele amontoado de textos aleatórios são mais prejudiciais para a filosofia do que as falas dos “grandes” filósofos.
Um caminho que pode ser experimentado é o de ler alguns trechos dos grandes pensadores e procurar contex-tualizá-las a partir de outros textos do nosso cotidiano. Seria algo como ouvir o eco daquele pensador no cotidi-ano das pessoas, nas artes, na literatura, nas músicas. Não de forma repetitiva, mas de forma criativa.
E por falar em música podemos fazer um largo estu-do da história da filosofia a partir de várias vertentes. Uma delas pode ser a música. Estamos propondo, portan-to, que façamos uma viagem pela história da filosofia a partir da musica popular brasileira.

Dois Exemplos

Tomemos dois exemplos, dos pré-socráticos, para ilustrar essa idéia. “Tudo se faz por contrastes; dessa luta dos contrários nasce a mais bela harmonia”, teria dito Heráclito, por volta do século VI aC. Outra de suas afir-mações é que “O frio torna-se quente, o quente frio, o úmido seco e o seco úmido”. Mas, talvez, uma de suas mais célebres frases seja esta, afirmando que “não se pode entrar duas vezes no mesmo rio. Dispersa-se e reú-ne-se; avança e se retira” (BORNHEIM, [198?]). Com isso está procurando afirmar que a realidade é dinâmica, é movimento. Podemos relacionar essas idéias à música, cantada por Lulu Santos, “Como uma onda”:

Como uma onda
Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa, tudo sempre passará
A vida vem em ondas, como um mar
Num indo e vindo infinito
Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente viu a um segundo
Tudo muda o tempo todo no mundo
Não adianta fugir
Nem mentir pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre
Como uma onda no mar

Entre outras coisas, a filosofia se desenvolve de forma dialética. Pela oposição de idéias. É o que po-demos observar quando comparamos as afirmações antagônicas de pensadores contemporâneos. Se Herá-clito afirmava a essencialidade do movimento, o opos-to de sua posição encontraremos em Parmênides. Para este pré-socrático a essencialidade do existente é per-manente e constante. Daí uma de suas afirmações mais conhecidas sobre os princípios ou caminhos do conhecimento e sobre a imutabilidade do ser. Afirma ele que “o ser é e o não ser não é”. Nossa idéia de imu-tabilidade do destino também se origina em Parmêni-des: “Pouco me importa por onde comece, pois para lá sempre voltarei novamente.” Esse pensador é um dos primeiros a propor algumas características do “Ser”: eterno, imutável, imóvel, indivisível. O Ser, “perma-necendo idêntico e em um mesmo estado, descansa em si próprio, sempre imutavelmente fixo e no mesmo lugar”
A idéia de permanência, parmenidiana pode ser vista na música, “Cotidiano”, de Chico Buarque:

Cotidiano
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode as seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café

Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão

Seis da tarde, como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca prá beijar
E me beija com a boca de paixão

Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
Me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor

A partir destes dois pressupostos se construiu a história da filosofia: a afirmação de que tudo é movimen-to e se explica pelas alterações, de acordo com Heráclito; e de que nada se altera, mas permanece sendo sempre o que é, como disse Parmênides. Os pensadores oscilaram entre um e outro lado.
No transcorrer teremos aqueles que pensarão e agirão como se tudo sempre fosse a mesma coisa; e outros que defenderão as mudanças. Teremos Platão afirmando que o que vemos é aparência, e, portanto, noutras palavras falando da necessidade do espírito indagador buscar a verdade. Entretanto, em seu “Mito da caverna”, nega a possibilidade de mudança, pois aquele que sai para bus-car a novidade é assassinado pelos seus pares. Isso seria um tributo a Parmênides
Por outro lado teremos Aristóteles afirmando a ne-cessidade de identificar claramente as coisas, afirmando o princípio da não contradição, mas ao mesmo tempo dizendo que todas coisas são, em ato, o que são, mas potencialmente podem ser algo diferente. Com isso reto-ma Heráclito
Outros ensinamentos, de outros pensadores podem ser buscados e interpretados à luz do que se canta nos sucessos das paradas ou naquelas músicas que poucos chegaram a conhecer. Podem ser temas antigos ou bala-das atuais.
É possivel que algém venha nos dizer que não se pode fazer Filosofia, apenas com as músicas. Em resposta podemos dizer que também não podemos abrir mão do saber popular, presente nas músicas de um povo. E mais, é possivel fazer um estudo verificando como as idéias dos pensadores aparecem no cotidiano das pessoas e entraram na sociedade, também por meio da música.
As idéias filosóficas não se prendem às páginas dos livros. Pelo contrário, elas passam a fazer parte do cotidiano na medida que entram na arte, na literatura, na poesia, na música. Nesse processo podemos ver não só que as idéias dos pensadores se renovam, mas ver novas idéias nascendo a partir da colocação de temas propostos pela arte.
Dessa forma se pode superar preconceitos, superar medos, criar indagações, encarar as contradições.
A mente e o espírito fracos, se assustam com idéias como as de Feurbach: “O ser absoluto, o Deus do homem é o próprio ser do homem”. Ou não apreciam o sabor da novidade advinda da dúvida e por falta de dúvidas, acabam morrendo. Nos ensina Nietzsche em “Assim falou Zaratustra” (1986, p. 33): “Aproxima-se o tempo em que o homem não mais arremessará flecha do seu anseio para além do homem e em que a corda do seu arco terá desaprendido a vibrar. Eu vos digo: é preciso ter ainda caos dentro de si, para poder dar à luz uma estrela dançante. Eu vos digo: há ainda caos dentro de vós”. Mas hoje será que ainda temos coragem de duvidar?


Referências

BORNHEIM, Gerd A. Filósofos Pré-Socráticos, São Paulo: Cultrix, [198?]
GOMES, Roberto. Crítica da Razão Tupiniquim. São Paulo: Cortez, 1982.
NIETZSCHE, F. Ecce Homo. São Paulo: Escala [2006?]
__________ Assim Falou Zaratustra, rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1986

26 de nov de 2007

...o que fazer, então?

A pessoa triste, insegura, angustiada, agitada, nervosa, impaciente e violenta reflete o estado psicossomático em que se encontra.
Através de uma situação patológica, como a exposta acima, constatamos a crise sem precedente em que a humanidade vive. Não é um conflito oriundo apenas de aspecto social, político e econômico como alguns entendidos em estudos humanos pensam, porém esse quadro psicológico pode ser interpretado como um desequilíbrio interior, uma confusão profunda, enfim, um vazio espiritual. Como resolver esse problema avassalador? Que modelo de vida podemos seguir? Qual será o limite dessa situação? Que ser humano somos nós? Essas são perguntas que pairam no ar, sem respostas talvez.
As conseqüências dessa fase nebulosa do ser humano são: ódio, ânsia de riqueza, corrupção, descrédito nas leis, exagero sexual, competição desleal, inveja, desamor, agressividade, modismo doentio, doenças, chacinas e muito mais.
Para resolver esses problemas, o ser humano, ser frágil, busca as fugas, as soluções fáceis, tais como, curandeirismos, jogos, drogas, sexo, pseudo-religiões, pseudociências, novelas, "músicas" etc.
Esses expedientes artificiais solucionam as dificuldades intrínsecas e existenciais de cada pessoa? São eles panacéiais? Antes de nos interessarmos por estas alternativas, não deveríamos descobrir, por nós mesmos e pelos nossos relacionamentos cotidianos, o fundamento desse vazio espiritual? Sabemos que as "fugas" e as "soluções fáceis" nos dão prazer, calma aparente, dinheiro, bem-estar passageiro, "autoridade", poder sobre pessoas, domínio, vaidade e segurança; entretanto continuamos medrosos, desumanos, zombadores, dissimulados, avarentos, gananciosos, intolerantes, desamorosos e insensíveis.
O que fazer, então?

Prof. Everaldo Lins – filósofo

15 de nov de 2007

Rondoniense por emoção

(A construção de Rondônia analisando discursos.)

Sinto-me um pioneiro,
Paulistano de nascimento
Rondoniense por emoção
Fugi da cidade grande
Procurei um lugar
Para ancorar meu coração

Aqui passei dificuldades
Por várias vezes peguei malária
Passei por muitas necessidades
Da minha terra não trago saudades
Da correria da cidade grande
Quero distancia e não facilidades

Conheci mesmo sem querer
Atoleiros bichos diferentes
Conheci arvores e frutas
Que nem sonhava existir
Mesmo sem querer vi índios
Que devido a minha ignorância
Fizeram-me fugir

O tempo passou embalado
Pelo barulho das motos serras
Das catracas dos caminhões toureiros
Era um boom sem fim
As arvores caindo e eu
Nem dando conta de mim

Aqui neste rincão
Achei minha tampa
Dona Ivone a quem amo
É a dona do meu coração
Meus filhos nasceram
E são minhocas da região

As noites escuras
A chuva no telhado
Lamparinas acesas
Deixando tudo enevoado
O pio dos pássaros
São coisas do passado

As pessoas eram iguais
Ninguém tinha menos
Ninguém tinha mais
Mas o instinto da ganância
Mudou estas gentes
Uns viraram fazendeiros
Outros madeireiros


Nunca cortei uma arvore
Nunca matei um animal
Mas sei que minha presença
Alterou este local
O rio em que eu me banhava
Virou um lamaçal

Prédios casas e praças
Dão conforto ilusório
A energia elétrica me tira o sossego
Para onde foram as corujas
As pacas as cutias e os morcegos
Eu era feliz e não sabia

Dentre todas minhas profissões
Tem uma que me é especial
Sou professor sem dinheiro
Mas com orgulho de um nobre
História é a minha área
Sou história e história faço

Não se torce os galhos
De uma arvore adulta
Quanto mais nova
Mais fácil
Acredito nas crianças
Este é o trabalho que abraço

Para purgar minhas culpas
De minha presença incomoda
Prefiro as crianças
E a elas levo o conhecimento que adquiri
Preservar a natureza
E já é tarde para agir

Com os amigos Tulha e Massur
Criamos uma ong e a CEPEMI
Não há de dormir
Como presidente eu garanto
Não vamos desistir
Lutando por este ambiente
Que ajudamos a destruir

Prof.Wolney Blosfeld

16 Anos

Para dizer a verdade pretendia nomear este texto apenas com o 16. Mas o pessoal que anda lendo poderia pensar que maluqui de vez, pois há poucos dias “soltei” umas outras linhas de pensamento com o título de 45. Naquele um dos temas centrais era o convite a olhar a bunda dela na capa da revista.
Agora a coisa é séria. São os 16 anos.
Por isso não poderia ficar só no 16, precisei adjetivar o numeral. A qualidade desse numeral, que posa de substantivo, é o fato de ele ter idade; não é um 16 qualquer, mas um total de anos.
O propósito desta discussão? Explico!
Li uma reflexão do prof. Paulo Ghiraldelli Júnior (pgjr23@yahoo.com.br), numa lista de contatos regulares. Nesse, e.mail em questão, ele distribuía sua reflexão publicada no jornal O Estado de São Paulo. Na parte que nos interessa diz o seguinte:
Parece que foi ontem, mas já faz 16 anos do fim da União Soviética (URSS). Esse número de anos é importante, o 16, pois é exatamente a idade que um brasileiro precisa ter para ganhar direito de voto. Assim, no próximo ano estarão com direito de voto os brasileiros que nasceram num mundo em que o comunismo não só deixou de existir, mas passou a aparecer na TV como o segundo mais importante vilão político do século 20 (o primeiro continua sendo o nazi-fascismo).
Esses eleitores podem bem ser os filhos dos jovens brasileiros cujas idades são equivalentes às dos que estiveram dando marretadas no Muro de Berlim.
Podemos dizer o que quisermos a respeito daquela situação; podemos condenar ou canonizar o “comunismo”; podemos dizer que a queda do Muro foi mais um golpe de marketing do que de ideologia... mas o fato é que esses dois eventos – fim da URSS e queda do Muro – foram episódios, se não conduzidos, ao menos que contaram com a adesão massiva e maciça de jovens sedentos de liberdade e com objetivos políticos; podemos até dizer que aqueles eventos, como alguns outros, em outras épocas, ocorridos em vários lugares, podem ter sido manipulados por “forças ocultas”. Mas não podemos negar a participação dos jovens.
Mas aqueles jovens cresceram; 16 anos depois, possivelmente seus filhos, como os nossos, no Brasil, se defrontam com uma situação, problemática: a crise dos rumos; crise de identidade; crise de valores... ou seja lá o que dissermos, o fato é que estamos numa época de crise!
Não vamos ser hipócritas e olhemos somente para nosso país. E aqui constataremos uma crise sem precedentes. Trata-se de uma das piores crises de nossa história: trata-se da crise de perspectivas, ou de rumos.
Não enxergamos perspectivas e não oferecemos perspectivas. Perdemos o norte. E nossos jovens são o reflexo dessa crise. E com isso chegamos ao tédio. E chegar a esse ponto é não ter rumos, objetivos... é ante-sala da morte.
Outra vez me sirvo do prof. Paulo que, embora fale com outras palavras e em seu discurso negue a crise, afirma o mesmo que estou dizendo: não sabemos para onde ir!
O que oferecemos aos jovens? Somos pessoas que passaram pela ditadura militar, que nos deixou marcas. Somos pessoas que viveram já 22 anos de democracia, mas não tiramos o País do Quarto Mundo. Mas, como não estamos vivendo uma crise grave, nos levantamos e vamos para o trabalho, cumprimos nossas funções, voltamos para casa e assistimos à TV. Se Renan Calheiros traz mais gente para posar nua, avaliamos - de preferência na internet, pois a revista está cara. E no outro dia fazemos tudo igual. Lutamos para chegar ao que os americanos chamavam de “o tédio da democracia”. Estamos contentes pelo tédio. Pois todas as vezes que nos tiraram do tédio, no passado, não foi bom. Ou foi para nos acordar à noite, nos chamar de subversivos e nos engaiolar, ou foi para nos tomar algum dinheiro por meio de um plano econômico maluco. Então, passamos a dar valor ao tédio.
Ora, o problema é que a juventude odeia o tédio. O nosso gosto pelo tédio não atrai os jovens. Não temos nada de encantador na democracia para oferecer? Tenho uma idéia para quebrar o tédio, a de dizer aos jovens o seguinte: nossa democracia não está acabada, vocês podem ser revolucionários se perceberem que democracia não é só a realização da vontade da maioria, mas a vontade da maioria associada ao respeito pelos direitos das minorias. E nisso há muito que se fazer no Brasil.
Mas nossa falta de rumo, a crise de perspectivas, atinge também a juventude. Por isso vemos nossos jovens, no alto de seus 16 anos, desmotivados de tudo. Descrentes de tudo. Desinteressados de tudo. Olhando para tudo como se isso fosse nada.
E aí me vêm, com essa coisa estapafúrdia de voto. Querem nos fazer votar para dar legitimidade ao desmando, ladroagem, corrupção, desvio de dinheiro público... e querem que os jovens, já aos 16 anos, sejam parte do processo de legitimação desse teatro dos horrores misturado com pastelão e pornochanchada
Estão fazendo até uma campanha ridícula para recuperar o descrédito a que está relegado o título de eleitor. É só olhar para a TV que a gente vê.
E assim estamos: há 16 anos sem contraponto. Aos 16 anos, prestes a cair na tentação do voto. Com 16 anos sem criar perspectivas. E, o que é pior, caminhando na direção da morte dos sonhos.

Neri de Paula Carneiro - Filósofo, Teólogo, Historiador
neri.car@hotmail.com
Leia mais:
www.filohistoria.com.br

Véus de Rondônia

O prof. Wolney acredita que é possivel lermos o hino de Rondônia com mais perspectiva de realidade e fidelidade histórica. Diz ele "Uma proposta mais adequada para o Hino de Rondônia"

Quando nosso céu se escurece
De tanta revolta da destruição
Nós os habitantes de Rondônia
Ficamos pasmados
Com tanta devastação
Como pessoas conscientes
Das mazelas da nação
Que nestas terras antes belas
Presenciam
A sua degradação

Neste eldorado tão distante
A natureza é exterminada diariamente
Os nossos índios a fauna e a flora
Morrem sem ser conhecidos pelas gentes
Maquinas e mentes vão corroendo
A beleza deste rincão
Que com tristeza nos lembraremos
Quando não houver mais solução

Azul nosso céu já foi azul
E deus permitiu que fosse assim
As hidroelétricas engolindo
Este é o triste fim
Aqui toda vida tem valor
Um valor dolarizado
E se foram nossos lagos
Nossos rios e os macacos
E tudo isso teve fim.

Letra: Prof.Wolney Blosfeld
Música: Dr. José de Mello e Silva

30 de out de 2007

Um Golpe na Educação

O período 1964-1985, em que os militares governaram o Brasil, aparece como uma marca indelével na história do país. Já ganhou inúmeras denominações: para os militares que o conduziram foi uma revolução, para os setores de esquerda ou para quem o contradiz foi um golpe militar ou ditadura, historiadores e outros que o analisam, o período ganha a denominação de anos de chumbo ou estado militar. Não importa a denominação que se dê ao período ou a ótica a partir da qual ele seja visto e analisado, esse é um período que marcou indelevelmente a história.
Não que militares não tivessem, antes, governado o país ou não tivessem feito intervenções na política. Pode-se destacar, inclusive, que foram os militares que instalaram a república e a governaram os primeiros anos da república da espada. Mas em nenhum dos períodos anteriores ganhou as proporções, as características e particularidades que são específicas e que só são encontradas entre 1964-1985.
Nunca, em períodos anteriores, a repressão foi tão amplamente usada atingindo, da mesma forma violenta, todas as classes sociais e todas as categorias e organizações da sociedade. Artistas, intelectuais, sindicalistas, religiosos, estudantes, políticos e vários outros segmentos, viram-se de repente, nas mãos da repressão: perseguidos, presos, torturados e, em muitos casos, mortos. O número de mortos e desaparecidos ainda é um mistério que, dificilmente, será revelado em sua plenitude e com toda a verdade, ante o silêncio que ainda é feito ao redor do tema, além das controvérsias entre os que fizeram e comandaram o período e os que sofreram suas agruras.
Além de ser uma marca na história do país, esse período deixou sua marca, também, na história da educação nacional. Tanto que alguns autores afirmam que além do golpe militar ocorreu, também, um golpe na educação.
A afirmação acima pode ser ilustrada pelas várias crises, conflitos e contradições que podem ser detectados no período em que os militares governaram o país, após 1964. E, para nós que vivemos em Rondônia, esse período pode ser usado para se pesquisar o processo de formação de nossos municípios e, inclusive, como guia para a compreensão da história da educação. Em nosso caso estamos usando o período do golpe para entender o processo de implantação das primeiras escolas em Rolim de Moura – RO.

(Este texto é parte de nosso artigo, publicado na Revista Farol - Faculdade de Rolim de Moura, ano II, nº IV, jul/dez 2006, p. 9-32.
Caso deseje o artigo completo - gratuitamente - solicite em: neri.car@hotmail.com)

Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador

Considerações sobre a morte

"Tota philosophorum vita commentatio mortis est" (toda a vida dos filósofos é uma preparação para a morte) afirma Catão de Útica, contemporâneo de Cícero e por ele citado em suas" controvérsias tusculanas". O próprio Catão cometeu suicídio em Útica.

Supondo que a filosofia seja uma preparação para a morte, necessário é fazer algumas considerações sobre ela, a morte.

A palavra morte vem do latim "mors" em oposição à "vita" (vida em latim). Com ela surgem vários vocábulos, tais como: cadáver, finado, defunto, morto, etc. Mas, o que de curioso existe em cada uma dessas palavras?

Olhemos.

A primeira delas, cadáver vem do verbo latino "cadere" (cair); a segunda, finado é o particípio do verbo "finar" (dar fim a); a terceira, defunto se liga ao latim "defunctu" (cumprir inteiramente); a quarta, morto remonta a "mortuu" (que recebeu a morte). Por essas investigações etimológicas, compreende-se que o conceito de morte está, logicamente, ligado à idéia de um acabar, de um cumprir-se .

Mas, o que fica após esse cumprir-se, enquanto morte? Para o filósofo Sêneca, nada resiste. Diz ele: "Depois da morte tudo acaba, mesmo a morte."

Esse acabar é reflexívo, pois se expressa, também, em termo de suicídio. Essa palavra - já registrada, em Inglês, desde 1671 (suicide) -compõe-se de dois termos latinos: "sui" (de si ) e "caedere (cortar). Visto dessa forma, o suicídio é um cortar a si mesmo. Corta-se um dedo, um braço, depois uma vida.

Cortada a vida, aparece a morte? O filósofo Feuerbach diz não: "A morte é um fantasma, uma quimera, pois só existe quando não existe".

A problemática da existência da morte remete a uma questão metafísica, pois não se vê a morte. Observam-se corpos sendo feridos, lesados e não a morte enquanto substância. Não se vê a morte de Sócrates nem a de Jesus. Se não vemos a morte, implicaria dizer que não se morre? O critério da invisibilidade da morte nos conduziria a um "ad immortalitatem" em relação ao ser humano?



Everaldo Lins de Santana - filósofo

20 de out de 2007

45

Parece estranho, mas o titulo deste texto é esse mesmo: 45.
Mas não estou me referindo ao calibre da bala que simboliza os filmes violentos de violência policial.
45, neste caso, é o tempo pelo qual o camarada lá do senado pediu afastamento: 45 dias.
Depois de tanta chantagem e “maracutaia” (estão lembrados desta palavra?) o sujeito conseguiu não ser afastado pelos seus comparsas nem pelos seus adversários que ficaram com medo que ele jogasse “merda no ventilador”. (Os olhos mais pudicos que me desculpem, mas a palavra é essa mesma! Principalmente porque o camarada ameaçou jogar os nomes de alguns “seniores” fazendo com que o mau cheiro que eles compartilham se espalhasse pela nação inteira – lembrando que cada 3 deles representam um estado deste violentado país, tantas vezes saqueado e estuprado).
Pois é, o cara pediu 45 dias de afastamento.
Tempo suficiente para ele fazer outros conchavos (alguém se lembra dessa palavra?). Tempo suficiente para seus adversários tramarem uma estratégia “honrosa” (como se honra houvesse em trair o país!). Tempo suficiente para se espalhar mais boato que alimenta os veículos de comunicação. Tempo suficiente para que a população, movida pela força da mídia, e não pelas próprias opiniões, esqueça o caso. Tempo suficiente para se procurar outro fato a ser explorado pelos noticiários. Tempo suficiente para que possam trocar as toalhas da pizzaria dos pratos invertidos com dois obeliscos no meio!
45 dias.
Flagrado em mais uma tentativa de violação de direitos individuais, o camarada ainda se dá o direito de se licenciar do cargo, sem perdê-lo ou sem renunciar a ele. Apenas se afastando por 45 dias.
Em seu lugar assume um suplente, pessoa de sua confiança, que foi pinçado ao poder por meio da sombra do mafioso.
Nesse meio tempo rola o lançamento do “Tropa de Elite”, mostrando a face vil da polícia do Brasil ao lado da verdadeira face do crime organizado, do tráfico de drogas e de sua alimentação graças aos discursos inflamados dos “ongueiros” de plantão e de outros tantos consumidores. Tanto que se tornou “clichê” na mídia a afirmação: quem “financia” o tráfico é quem compra a droga. Quem financia o tráfico são os usuários que a compram com dinheiro que é usado para pagar a corrupção, as armas e o contrabando de mais droga. Frisando que quem compra droga não está na periferia, nem nas favelas, nem são as pessoas pobres. É bom que se diga, de uma vez: os usuários pobres não têm dinheiro para comprar droga – a não ser quando fazem pequenos roubos. Quem paga a droga com dinheiro é quem tem dinheiro: pessoas que trabalham ou seus filhos que recebem mesadas. Pobres e filhos de pobres, para usar droga tem que roubar ou trocá-la por serviço: fazendo tráfico ou se prostituindo.
Nesse meio tempo continua o processo de agressão à natureza. Vi e ouvi coisas por aí, nesse meio tempo, que é de arrepiar os cabelos de um careca como eu. Contaram-me alguns chacareiros que viram suas nascentes e igarapés e plantações arrasadas por porcos de um vizinho. Disseram ter procurado todos os órgãos públicos em busca de solução, só ouviram que deveriam procurar tal e tal e tal outro órgão. A resposta foi sempre o silêncio ou o: “procure tal órgão”. Um desses chacareiros filmou os porcos em ação fuçando as nascentes e mandiocais e canaviais e outras plantações e as autoridades procuradas disseram que “vamos verificar”. Nem as emissoras de TV, da cidade, se deram ao trabalho de ver as imagens, menos ainda de fazer reportagens sobre o caso. Ou seja, o meio ambiente importante e que vira notícia é só aquele do outro lado do mundo. Aqui, em nossa cidade, pelas vias legais, para a mídia local, não tem solução. Não chama a atenção!
Nesse meio tempo, um outro sitiante, que está perdendo suas nascentes para as enxurradas que vêm das ruas abertas pela prefeitura. Também não recebeu atendimento. As nascentes de seu sítio, na beirada da cidade, estão ficando completamente assoreadas: Com terras erodidas das ruas de um dos bairros da cidade. Serviços de urbanização, realizados pela prefeitura abriram ruas, abriram esgotos, direcionando as enxurradas das ruas para as nascentes do pobre homem que procura solução, na prefeitura e o mandam procurar tal órgão de onde recebe a orientação de procurar tal outro órgão, que o direciona para outro...
Tudo isso e muito mais, acontecendo nesses 45 dias.
Como diz a letra daquela música: “não existe pecado do lado debaixo do equador. Vamos fazer um pecado, rasgado, suado...” E se não existe pecado, também não existe crime. O crime ambiental, daqui, não é considerado; o crime do senador, lá, não é considerado...
Retifico: existe crime. O crime é dizer a verdade.
É mais fácil eu ser perseguido, processado e condenado por estar falando o que digo nestas linhas, do que quem agride o meio ambiente, ou trai a nação, ou saqueia o povo! Também não será punido quem chafurda nas maracutaias, lá naquele Planalto distante. (A distância, não é geográfica, mas em relação aos eleitores e ao povo deste belo país). Em vista disso afirma-se que Rui Barbosa teria dito: “hoje em dia as pessoas sentem vergonha de serem honestas”
Tudo isso e muito mais nesses 45 dias.
45 dias que um sujeito se deu, de férias – pagas com o nosso dinheiro. Depois ele volta: ou para continuar seu mandato ou para um novo mandato... Tantos outros já voltaram...
Nessas alturas do campeonato...
Sobra-nos o consolo de, olhar a bunda da amante daquele camarada, tirando a calcinha, na capa da revista!!!

Neri de Paula Carneiro
Filósofo, teólogo, historiador.

Filosofia da Religião

Desde Tales de Mileto, século VI a.C., até hoje, os filósofos refletem, de modo radical, sobre o fenômeno religioso.
A tese do filósofo Tales é: "tudo está cheio de deuses". Mas, o que leva Tales a iniciar a filosofia com essa afirmação? Eis aí uma pergunta não muito simples de ser respondida.
É por volta do século VI a.C. que surge a filosofia e particularmente a filosofia da religião. Mas, por que a filosofia, enquanto expressão máxima da racionalidade, toma como objeto de pensamento o que aparentemente está ligado à fé: a religião?
Por que o advérbio "aparentemente"? Ora, religião não é algo essencialmente fundamentado na fé? Vejamos o que diz o filósofo e teólogo Tomás de Aquino: "a existência de deus é afirmada não como ato de fé, mas como fato da razão". Pode-se pensar, falaciosamente, que Tomás nega a fé, o que não é verdade. Embora fé e razão sejam conceitos diferentes, nas suas várias obras, Tomás de Aquino tenta conciliá-los e consegue.
É importante compreender que o objetivo da filosofia da religião está relacionado com estes pontos: 1) a ordem da religião; 2) crítica da religião; 3) fundamentos metafísicos da fé; 4) a razão como critério de verdade para o fenômeno religioso e, por fim, a problemática do absoluto.
Além desses objetivos, filosofar sobre a religião não é levantar bandeira de ateísmo nem de agnosticismo; é, sim,ser cauteloso, ser prudente, ou seja, exercer o senso crítico, a luz da razão nas reflexões sobre a prática e as atividades religiosas.
Se a filosofia é uma crítica radical sobre a realidade e se tomarmos o Absoluto como problema, ou melhor, como uma questão fundamental para o homem religioso, vale perguntar: o que é ou quem é Deus? Esse é um questionamento fundamental para o filósofo da religião, embora não seja fácil a resposta, o que se confirma com as palavras do filósofo e teólogo Santo Agostinho: "quando me perguntam o que é Deus, eu não sei; mas, se não me perguntam, eu sei".

Everaldo Lins de Santana - filósofo

7 de out de 2007

A Ratoeira

Um rato, olhando pelo buraco da parede viu o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote. Pensou logo em que tipo de comida poderia haver ali.
Ao descobrir que era uma ratoeira ficou aterrorizado. Correu para o pátio da fazen-da, advertindo a todos:
-“Há uma ratoeira na casa! Há uma rato-eira na casa”.
A galinha disse:
-“Desculpe-me, senhor rato, eu entendo que isso seja um grande problema para o senhor, mas não me prejudica em nada. Isso, portanto, não me incomoda”
O rato foi até o porco e lhe disse:
-“Há uma ratoeira em casa. Uma Ratoei-ra!”.
Respondeu-lhe o porco:
-“Desculpe-me, senhor rato, mas não há nada que eu possa fazer, a não ser rezar. Fique tranqüilo que o senhor será lembrado em minhas preces”.
O rato dirigiu-se, então a vaca:
-“Há uma ratoeira em casa”
A vaca respondeu:
-“O que senhor rato? Uma ratoeira? Por acaso estou em perigo? Acho que não!”
Então o rato voltou para casa, cabisbaixo e abatido, para encarar a ratoeira do fazen-deiro.
Naquela noite ouviu-se um barulho. Era a ratoeira fazendo sua primeira vítima.
A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia sido pego. Imaginava que fosse um rato, mas o que desarmara a ratoeira havia sido uma cobra venenosa que picou a mulher do fazendeiro.
O fazendeiro a levou imediatamente para o hospital. Ela foi medicada, mas voltou com febre. E, para alimenta-la o fazendeiro lhe de canja de galinha.
Como a mulher não sarava os amigos vie-ram visitá-la. Para Alimentá-los o fazendeiro matou o porco.
A mulher acabou piorando e morreu. Mui-ta gente veio para o funeral. O fazendeiro, para alimentar a todos mandou matar a va-ca.
Moral: na próxima vez que você ouvir di-zer que alguém está diante de um proble-ma, que não lhe diz respeito, lembre-se que quando há uma ratoeira na fazenda, todos correm riscos. O problema de um pode ser o problema de todos

(autor desconhecido)

2 de out de 2007

NA AREIA

Veja como nossa mente é maravilhosamente ágil.
Se você conseguir ler as primeiras palavras, seu cérebro “traduzirá” o restante do texto.
Leia-o e depois me envie seu comentário.

NUM D14 D3 V3R40, 35T4V4 N4 PR414 0B53RV4ND0 DU45 CR14NÇ45 BR1NC4ND0 N4 4R314. 3L45 TR4B4-LH4V4M MU1T0 C0N5TRU1ND0 UM C45T3L0 D3 4R314, C0M T0RR35, P4554R3L45 3 P4554G3N5 1NT3RN45.
QU4ND0 35T4V4M QU453 4C4B4ND0, V310 UM4 0ND4 3 D35TRU1U TUD0, R3DU21ND0 0 C45T3L0 4 UM M0NT3 D3 4R314 3 35PUM4. 4CH31 QU3, D3P015 D3 T4NT0 35F0RC0 3 CU1D4D0, 45 CR14NÇ45 C41R14M N0 CH0R0. P3L0 C0N-TRÁR10, C0RR3R4M P3L4 PR414, FUG1ND0 D4 4GU4, R1N-D0 D3 M405 D4D45 3 C0M3Ç4R4M 4 C0N57RU1R 0U7R0 C4573L0.
C0MPR33ND1 4 GR4ND3 L1C40: G4574M05 MU170 73MP0 D4 N0554 V1D4 C0N57RU1ND0 4LGUM4 C0154 3 M415 C3D0 0U M415 74RD3, UM4 0ND4 P0D3R4 V1R 3 D357RU1R 7UD0 0 QU3 L3V4M05 74N70 73MP0 P4R4 C0N5-7RU1R. M45 QU4ND0 1550 4C0N73C3R 50M3N73 4QU3L35 QU3 73M 45 M405 D3 4LGU3M P4R4 53GUR4R, 53R4 C4P42 D3 50RR1R 3 R3C0M3Ç4R! 50 0 QU3 P3RM4-N3C3, 3 4 4M124D3, 0 4M0R 3 C4R1NH0. 0 R3570 3 F3170 D3 4R314.

(Autor desconhecido)

4 de set de 2007

O homem, que realidade é essa?

As pessoas vivem em grupos. Essa constatação não re-presenta a realidade total da evolução do ser humano nem da sociedade humana; também não esgota as características do ser humano, hoje visto e entendido como ser de relações. Outras questões precisam ser respondidas: as pessoas sem-pre viveram e sempre quiseram viver em grupo? O que moveu os indivíduos a se agruparem?
Parece que não é errado dizer que nem sempre os seres humanos viveram em grupo, formando o que chamamos de sociedade. Também não erramos quando afirmamos que o ser humano está, constantemente, insatisfeito. E se está insatisfeito é porque possui necessidades. Essa parece ser a principal e, talvez, primeira explicação para a organização das sociedades humanas. A satisfação das necessidades.
Sendo assim podemos dizer que as pessoas gostam de estar sozinhas, mas vivem em grupos. Gostam de estar sozi-nhas porque a solidão permite liberdades que não é possível no grupo. Mas necessitam do grupo porque nem tudo de que precisam conseguem isoladamente. A associação ocorre, portanto, não porque o ser humano é, essencialmente, gre-gário, mas é segregacionista, é sectério, e se agrupa por necessidade de sobrevivência. O grupo, portanto, nasce dos interesses pessoais e das necessidades dos indivíduos.
O que é, então, o ser humano?
Sabemos, inicialmente, que o ser humano é um animal que ganhou a classificação de racional. Aristóteles lhe afir-mou mais uma característica: é político, de onde a caracte-rística da sociabilidade. Racional porque consegue abstrair e aprender com as experiências. E, mais do que aprender, consegue reproduzir e ampliar as aplicações das experiên-cias adquiridas. Isso porque aprendeu a raciocinar. É, além disso, político porque vive, sobrevive e explora as relações sociais. Embora, como dissemos antes, goste do isolamento, prefere viver em grupo. O grupo, portanto, não é essencial, mas opção: para satisfazer suas necessidades, para satisfazer seus desejos, para superar seus medos, para superar suas fraquezas.
Nisso podem ser observadas mais algumas das caracte-rísticas desse ser, chamado homem. Diferentemente dos demais animais, o humano é frágil, desprovido de garras ou pele resistente aos ataques dos predadores e intempéries. Essa fragilidade produziu e ajudou no desenvolvimento de outra característica: o medo. Como mecanismo de superação dos medos os humanos desenvolvem mecanismos para conviver ou para superar adversidades da natureza. Um desses mecanismos é a vida grupal. Os humanos, portanto vivem em grupo, entre outros motivos, porque assim se protegem mutuamente. Tanto para enfrentar a natureza como para atingir objetivos comuns. O grupo passa ser um mecanismo de defesa. Os humanos aproveitam-se de suas fraquezas para produzir forças. A força do grupo nasce de uma característica muito marcante do ser humano: a capaci-dade de tirar benefício dos demais membros do grupo, o que indica outra característica do humano: o egocentrismo, sendo que o grupo aparece como refúgio, fortaleza e espaço de onde o indivíduo tira proveito e benefícios. As relações grupais não estão para o grupo, mas para os indivíduos do grupo. Trata-se, portanto, de uma relação interesseira.
Dessa forma é que devemos entender a característica humana da sociabilidade. A sociabilidade, ou a capacidade de o ser humano viver, sobreviver e existir em coletividade parece ser o que mais bem o caracteriza. Entretanto aqui precisamos fazer uma ressalva. Não nos parece que os hu-manos sejam, essencialmente, seres sociais, mas se fazem sociais a partir de suas necessidades e para superar seus medos.
Dizendo de outra forma, o ser humano é um ser sectário e tende a se isolar e a viver isolado. Socializa-se porque se percebe impotente diante da natureza, mais forte que ele. E, por ter medo de não sobreviver procura ajuda dos seus se-melhantes. Assim se faz sociável numa atitude tipicamente egocêntrica, medrosa e aproveitadora. Para fugir de seus medos e disfarçar sua fraqueza aproveita-se da fraqueza dos seus semelhantes. Assim sendo os indivíduos usam a socie-dade como caminho, preparação, para o isolamento, depois de se aproveitar das fraquezas dos outros seres, como ele, fracos e medrosos.
Além disso, o ser humano se percebe no mundo e se vê completamente diferente das demais realidades existentes. Em todas as correntes de filosofia encontramos a mesma afirmação: o ser humano é pensante. É ele quem dá sentido a existência dos existentes. Dá sentido porque pensa, porque se socializa e porque manipula os elementos da realidade, gerando cultura. Além disso, e sem entrar no mérito da discussão religiosa, pode-se dizer que o ser humano trans-cende à realidade humana.
Pensar não é só o que se pode entender etimologica-mente, com a palavra, dizendo que ser humano é capaz de pesar, avaliar. Esse pensar refere-se também à capacidade humana de fazer escolhas. O ser humano é aquele que ava-lia, escolhe, e faz isso a partir de um processo reflexivo que exige uma postura introspectiva. Esta por sua vez deriva da capacidade de abstração. Na verdade quando se diz que o ser humano é capaz de pensar pretende-se afirmar que ele é capaz de falar sobre as realidades com as quais não está em contato imediato. Ele pode representá-las, mentalmente e nisso se dá um processo de reflexão, pois se trata de “voltar a ver” o que não está presente.
Essas características (pensamento, abstração, manipula-ção...) permitem, que o ser humano produza o que chama-mos de progresso humano (outro nome da cultura). O pro-gresso é resultante da vida social, da superação dos medos e dos desafios. O progresso humano pode ser visto como resultado da capacidade humana de resolver problemas (capacidade reflexiva-pensante) e de se associar a outros humanos para fortalecer suas fraquezas diante das realida-des mais fortes e que demandam inteligência (ler o interior das realidades) e ação conjunta. Progredir implica em supe-rar as limitações humanas e naturais em benefício do grupo e, conseqüentemente, em benefício dos indivíduos. O pro-gresso ganha sentido, como toda ação humana, não em si mesmo, mas pelo benefício que produz.
Daí o sentido da produção humana. O ser humano ma-nipula o mundo e gera cultura. Ou seja, diferentemente de outras criaturas, a humana se autoproduz reproduzindo o meio que o circunda. Recria o mundo natural que o circunda e recria o já criado, dando-lhe novo significado. Sua insatis-fação o leva a re-significar as realidades mesmo as que já possuem significado; recria a utilização e a utilidade das realidades mesmo as que já têm significado e utilidade con-sagrada.
Graças a essa capacidade re-criadora o ser humano po-de produzir o mundo e reproduzir o que existe. Com isso dinamiza não só sua existência como as realidades que o circundam e seus concidadãos. Nesse processo cria ou re-cria a cultura uma das marcas mais tipicamente humanas, pois, principalmente pela sua capacidade de recriar a cultu-ra, o ser humano se diferencia dos demais existentes.

Neri de Paula Carneiro
(texto é parte de material didático para aulas de Filosofia da Moral e Ética Profissional - Se desejar o texto completo, solicite, gratuitamente, para neri.car@hotmail.com)

29 de ago de 2007

A caminho da paz

O titulo acima é uma tradução da expressão latina “in viam pacis”. Gandhi afirmava que não havia caminho para a paz, ela é o caminho. Se a paz é o caminho,como podemos entendê-lo? Se a paz é o caminho, o conceito mesmo de caminho adquire uma dimensão profunda, radical e filosófica.
O termo caminho deriva do Latim “caminu”, entretanto é no Grego que existe maior riqueza de sentido e sutileza,pois caminho, para os gregos , podia ser concebido a partir de três idéias básicas, são elas:” odós “(caminho de um modo geral),” kèleuthos”(caminho estreito que tem atalho) e “atarpón”(caminho tão estreito que não se pode dar volta).
Dessas três idéias,tiram-se três visões de caminho conotativamente falando com relação à paz: 1. caminho enquanto condições ou possibilidades às quais todos têm acesso no que tange a paz; 2. Caminho enquanto dificuldades inerentes aos atos pacíficos,porém com chance de sucesso; 3. Caminho enquanto estado de paz ,sua garantia e permanência.
Diante desses caminhos, pergunto: por que não acolhê-los? O que nos impede de escolhermos a via da paz?

Everaldo Lins de Santana

28 de ago de 2007

Filosofia Africana

O adjetivo “africana”, acima mencionado e que qualifica a palavra filosofia, é formado a partir do termo “África” que, segundo alguns estudiosos da linguagem, deriva do Grego “aphriké”, do Berbere “awrigas”, de “afryquah” significando colônia, e do Latim “aprica” significando “exposto ao sol”.
Desse último significado da palavra África, ou seja, exposto ao sol, e da inconstância sócio-econômico-política do continente africano, forja-se falaciosamente a idéia de que o povo africano não tem “queda” para filosofia, não tem “cabeça” para abstração, para metafísica. Será isso verdade? Não há nessa opinião um preconceito que remonta a Homero, Aristóteles, Platão e outros?
A expressão ”filosofia africana” pode parecer estranha para muitos, no entanto, o povo africano filosofa, tem “cabeça filosófica”. Senão vejamos: Metafisicamente falando, os africanos possuem palavras e termos que remetem à idéia, a conceitos ontológicos, tais como, em Iorubá (língua africana): “ni” significa ser, ”mõ” significa conhecer, ”ofifo” significa o nada.
Em Banto (outra língua africana): “ntu” expressa a idéia de ser. A partir do conceito de ser (ntu), a cultura banta deriva quatro categorias de tudo o que se pode conhecer: 1. “muntu” conceitua o ser-de-inteligência (o ser humano); 2. “kintu” significa o ser-sem-inteligência (as coisas); 3. “hantu” expressa o ser-localizador (lugar-tempo); 4. O ser-modal (modificação do ser).
Além dessas quatro categorias, na filosofia africana, especificamente a filosofia banta, são de suma importância estes conceitos: unificação de lugar e tempo, distinção entre o existir e o viver
Os bantos (etnia africana) chegam à idéia de que lugar e tempo são concomitantes, baseados na localização dos existentes, uma vez que "qualquer existente, assim que surge, supõe necessariamente o antes e o depois".Ao lado disso, a diferença entre o existir e o viver se faz, na filosofia banta, da seguinte forma: o existir é abrangente, geral, universal; enquanto que o viver é um momento do existir, é uma particularidade do existir.
Convém observar que alguns pensadores africanos entendem que os conceitos filosóficos chegam a eles através da música, da percussão, da religião e da dança.
Vê-se, dessa forma, que não há uma filosofia branca nem uma filosofia preta. Há, apenas, filosofia.
Everaldo Lins de Santana - Filósofo

27 de ago de 2007

TA NA HORA

Ouvi alguém dizendo, com tristeza na voz:
Amazônia, terra rica, não pertence mais a nós.
É a privatização. É saúde, educação.
E agora vejam só: Estão querendo até nosso chão.

Sei que sou criança e tenho muito que aprender
Existem coisas que chateiam, mas eu tenho que dizer.
Tem gente dizendo: não somos brasileiros;
Qualquer dia acordamos e seremos estrangeiros.

Que furdúncio minha gente? Tá na hora de acordar
Este chão é todo nosso, não podemos entregar
Brasil, mostra tua cara, manda o gringo para lá
Esta terra já tem dono; e aqui vamos ficar

A tal dívida externa que o governo assumiu
Está grilando nossa terra, estão tomando o Brasil.
Nos mandaram um recado: Se não tem como pagar
Entrega logo a Amazônia, isso só pra começar.

Idalina V. Sanfelicce

Sobre a paz

O filósofo Sêneca afirmava que os homens foram criados para se ajudarem mutuamente; em Latim ele dizia “homo in adjutorium mutuum generatus est”.
Em relação à paz, os homens juntaram esforços concretizados no fato de que no século XV, Jorge de Podriebrady, da Boêmia, ter apresentado ao rei Luiz XI da França um projeto de paz.
Outras atitudes foram tomadas como: a fundação da primeira sociedade pacifista do mundo, no ano de 1810 em Boston com o nome de Sociedade Americana da Paz; no ano de 1816, foi criada na Inglaterra a Sociedade da Paz; nos anos de 1821 e 1830 respectivamente na França e na Suíça foram criadas fundações pacifistas; já em 1849 realizou-se em Londres e Paris o primeiro congresso sobre a paz. Além disso, na primeira conferência da paz, em Haia, em 1899, representantes de 27 nações firmam convênio para o ajuste pacífico dos conflitos internacionais. E em 1913, inaugurou-se solenemente o Palácio de Haia, conhecido como o templo da paz.
Todos esses foram esforços para sistematizar e vislumbrar o que futuramente será chamado de “cultura da paz”.

Everaldo Lins de Santana

24 de ago de 2007

O CARNAVAL

Carnaval não existe só do Brasil. Existe no mundo todo desde há muito tempo.
No Egito, há quase 10 mil anos já se festejava os deuses Isis e Osiris com dança e cantoria em volta de fogueiras.
Na Grécia havia uma festa em que bebia-se vinho e comia-se bastante, agradecendo ao deus do vinho, Dionísio. A mesma idéia encontra-se nas festas ao deus Baco, de onde se originaram os Bacanais, em Roma. Entre os judeus, havia a festa do pão novo, como agradecimento pela colheita e como forma de esvaziar os celeiros. Outros povos antigos também faziam festas comemorativas e de agradecimento aos deuses da fertilidade pela fartura das colheitas. Nessas festas não faltava comida, bebida, alegria e relações sexuais, para evidenciar a fertilidade.
Como hoje, havia divisão social-econômica com ricos e pobres, muitas vezes em atritos e conflitos. Daí a necessidade de válvulas de escape. Uma delas eram as festas populares com comida, bebida e sexo. Em muitas dessas festas os foliões usavam máscaras, simbolizando a inexistência de classes sociais.
O significado da palavra é incerto. Para alguns a origem da palavra Carnaval é carrum navalis (carro naval – um carro alegórico da festa romanas antiga). Essa etimologia é duvidosa. Quando a festa foi ligada ao cristianismo passou-se a associar a expressão “carne levare”, afastar a carne, como sendo um último momento de alegria e festejos profanos antes do período de abstinência e tristesa da quaresma.
Ao ser associada à quaresma sua data foi vinculada à Páscoa deixando de ser ligada à fertilidade e à Natureza. Em qualquer caso, a festa se origina em momentos importantes da vida: colheitas, para alimentar a vida, bebida, para alimentar a alegria e sexo para alimentar a procriação e perpetuar a espécie. Depois associada à Páscoa, para alimentar o renascer em uma nova vida. O fato é que, em todos os casos, está associado à alegria.

Neri de paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador

18 de ago de 2007

Dinâmicas para aulas de Filosofia.

a- SUGESTÕES METODOLÓGICAS:

-Superar o pré-conceito: O Professor precisa superar preconceitos e posições pré-concebidas de política partidária, religião, opção sexual...
-dinâmica de grupo: o professor precisa ter digerido bem o texto entendendo bem seu significado para poder propor questões interessantes a partir de um texto ou problemas interessantes.
- leitura de textos literários com alguma mensagem ou problema do cotidiano do estudante (droga, namoro, sexo...).
-Teatro: organizar apresentações teatrais a partir da leitura de textos ou de situações...
-Músicas/Paródia: ouvir músicas e elaborar paródias a fim de desenvolver o espírito e a capacidade criativa.
-Reproduzir: Através de desenho, colagens, nova redação... para um texto/problema/idéia já existente
-Interpretar desenhos, charges..
-O professor precisa ter claro que A melhor técnica / dinâmica / metodologia NÃO EXISTE. O que deu um excelente resultado em alguma atividade com uma turma, pode ser infrutífero com outra. O que dá para fazer é adaptar, recriar, reciclar.

b- Para dinamizar as aulas...

Eis algumas dicas que podem ajudar qualquer professor. Mas que podem dar excelentes resultados nas aulas de filosofia e de sociologia. E, talvez, mais de filosofia que qualquer outra área. Entretanto, como qualquer outra, estas dica não podem ser absolutizadas. É necessário aproveitar o saber dos alunos e criar sempre...

1- Como dar uma boa aula de filosofia
Não existe regra.
Depende da criatividade e dos conhecimentos prévios do professor.
Um professor de filosofia não se equivale ao de português ou de matemática. Ele precisa ser leitor atento, ler muito, ter conhecimentos de várias áreas. Gostar da dúvida e não se sentir dono da verdade.
Mesmo quando os alunos tentem “coloca-lo na parede” o professor precisa manter a atitude humilde de quem sabe que não sabe, pois os alunos também possuem seus saberes.
Sendo uma disciplina sobre a qual já se formou um preconceito, sobre a qual se diz uma porção de inverdades, ao professor cabe mostrar que a maioria das opiniões sobre filosofia não corresponde à Verdade sobre Filosofia.
Uma boa dose de ironia, bom humor, descontração e capacidade de improvisar e transformar as situações cotidianas em situação problema é uma das qualidades indispensáveis para o professor de filosofia.
Utilizar textos com mensagens já implícitas ou já conhecidos podem ajudar, mas podem, também, direcionar a reflexão; ou o que é pior podem impedir que se reflita, pois a mensagem já é conhecida...

2- O melhor texto de apoio
Não existe.
Qualquer texto pode ser usado, desde que previamente tenha sido bem estudado e direcionado para o objetivo que se quer alcançar.
Fica difícil trabalhar um tema, por exemplo, de Ecologia com um texto que fala sobre Sexo. Já um texto bem pornográfico pode ser um excelente link para uma aula sobre família ou sobre adolescentes e, obviamente sobre sexualidade, prostituição...
Isso implica dizer que o problema – e a solução do problema – está na capacidade criativa do professor. Por isso a necessidade de o professor ser leitor, superar preconceitos pessoais e, o que é mais importante, superar-se.
O importante não é o texto, mas a metodologia de abordagem do texto. Trata-se de fazer questionamentos ao texto. De fazer uma espécie de análise literária do texto estudado, localizando: personagens, o que fazem, por que fazem, onde o fato narrado acontece, por que acontece, qual a mensagem do texto...

3- A melhor técnica / dinâmica / metodologia
Não existe.
O que deu um excelente resultado em alguma atividade com uma turma, pode ser infrutífero com outra. O que dá para fazer é adaptar, recriar, reciclar.
Algumas dinâmicas, ou metodologias, ou técnicas podem ajudar. Entre as inúmeras que existem e que o professor pode inventar, podem ser mencionadas:
Dinâmica de grupo (ou trabalho em grupo)
Teatro/música/paródia
Recriar um texto na forma de desenho
Debate/seminário/mesa redonda
Interpretar desenhos, charges..

4- É Fundamental
Depois de tudo isso o fundamental é que o professor crie seus próprios exercícios. Estas podem ser desenvolvidas com alguns textos. O texto, na realidade é só um pretexto, um gancho, um link para aprofundar um outro tema. Sobre esse tema o professor deve estar preparado e acolher as respostas dos alunos, sem preconceitos, ajudando a devolve questionamentos a fim de continuar as reflexões. Importa que o professor não encerre o debate, que não dê respostas prontas, mas desafie o aluno....

Prof. Neri de Paula Carneiro

Interrogações

1. Tem uma porção de perguntas que me faço e faço a quem me aprece pela frente. Mas o diabo é que ninguém me responde. Por isso permaneço na ignorância. Veja só: já perguntei pra professor e aluno, pra padre e sacristão. Já perguntei a quem não fala e pra quem fala muito – não aos fofoqueiros, pois desses é bom manter distância!
2. E essa já uma das perguntas que faço e me faço, sem saber a resposta: Porque o fofoqueiro fofoqueia? Essa é só uma das perguntas, que talvez até tenha resposta fácil! O que me interessa são perguntas mais difíceis – que possivelmente tenham resposta mais fáceis.
3. Alguém poderia me dizer porque o limão é azedo? Ou, do lado contrário, porque a cana é doce? Mais ainda, porque a mesma terra que produz a cana doce e o limão azedo produz cada um com o seu sabor? E se plantarmos ambos numa mesma cova, o que faz com que não se misturem e permaneçam um azedo e outro doce? Afinal de contas, quem adoçou a cana e azedou o limão? E se o limão fosse doce, seria limão?
4. Isso não é tudo. Gostaria de saber quem pôs sal na água do mar? E por que a água do rio não é salgada? Se a água do rio, que é chamada de água doce, vai pro mar, por que não adoça a água do mar? Tem até um Mar Morto: quem o matou? Ou já nasceu morto? Morreu de quê? Já prenderam o assassino? Ou lá onde mataram o Mar Morto também impera a (in)justiça brasileira?
5. Tem mais. Quem ensinou o passarinho a voar? Por que ele não cai quando está voando? Será que ele não tem medo das alturas? Se é questão de pena, que pena, por que a galinha não voa, também?
6. E já que estamos no ar, quem foi que pintou o céu de azul? Será que usou rolo, pincel ou spray? Quem pintou o céu também pendurou nele as nuvens? Onde arrumaram tanto algodão para encher as nuvens? E quem foi que pendurou as estrelas? Será que deu muito trabalho? Por que elas só acendem à noite? Quem paga a conta da luz das estrelas? E quando amanhece, pra onde vaia luzinha delas?
7. Podemos continuar?! Tem outras perguntas que não querem calar! Onde fica o interruptor que acende e apaga o dia? Quando o dia fica acesso, pra onde vai o escuro? E dia se esconde aonde, quando vem a noite? E já que dizem que a noite tem boca, qual será o tamanho da escova que ela usa para escovar os dentes? Ou será que a boca da noite não tem dentes? Se não tem, quem qual foi o dentista que os extraiu?
8. Pra não deixar de falar da natureza, será que alguém sabe quem é que assopra o vento? Como é que ele faz para refrescar um dia de calor?
9. Espera aí. Ainda não acabou. Quem sabe me dizer quem esfriou o gelo? Quem esquentou o sol? Quem acendeu o fogo? Quem molhou a água?
10. Porque será que ainda não inventaram um gelo quente? Porque será que ainda não inventaram água em pó? – afinal já fazem quase tudo “em pó”... só falta a água. O problema é saber com o que se vai dissolver o pó da água!?
11. Tem até umas questões meio contraditórias: se o fogo é tão quente, porque se apaga com a água que é fria? Como pode, a mesma água que é tão fresca e que apaga o fogo, ferver ao fogo? Se a água apaga o fogo, como é que o fogo ferve a água que o apaga?
12. Não se desespere, que ainda tem mais: como pode a melancia, que é uma fruta tão grande, ser produzida por um cipozinho tão fininho, fracote, fajuto? Como pode ser tão preguiçosa uma árvore como o pé de manga, tão grande, e dar umas frutinhas tão pequenas? Mesmo a jaqueira não produz nada proporcional ao seu tamanho! E já que falamos nisso quem foi que melecou a jaca?
13. Mudando de assunto. Você sabe explicar por que a pena é tão leve, e mesmo assim, cai? E por falar em peso, qual é mais pesado, um quilo de algodão ou um de ferro?
14. Ainda tem mais: se o dia tem 24 horas por que só 12 é claro? Por que a noite faz parte do dia? Será que a noite foi feita para economizar a energia do dia?
15. Responda rápido: por que a roda é redonda? Por que o cubo não é quadrado? Por que a cobra anda, se não tem pernas?
16. Isso não é tudo. Tem mais pergunta que me deixa encafifado. Mas não vou perguntar tudo agora, se não você vai pensar que eu não sei nada! Mas eu sei, sim. Sei, por exemplo que o Sócrates, não o corintiano, costumava afirmar: “sei que nada sei”. Se ele que era sábio só sabia não saber, porque é que eu, que sou curioso não posso saber só perguntar?
17. E tem mais, dizem por aí que é mais esperto quem faz pergunta do que quem responde. Creio ser verdade, pois quando alguém responde uma pergunta sempre deixa a oportunidade de alguém lhe perguntar, como chegou a essa resposta? Por que você deu essa e não outra resposta? Há outra resposta?
18. Bom, já que “perguntar não ofende” vamos terminar por aqui. Quando é que a gente pode continuar?

Neri de Paula Carneiro

Greve? Greve!: Grave!

Greve é coisa grave, grave isto! E tem, isso, um significado grave: Significa que os dois lados da contraditória sociedade capitalista resolveram explicitar essa contradição em um conflito, radical, medindo forças.
Greve é a faca no pescoço. Os dois lados estão dispostos a morrer em nome ou em defesa daquilo que defendem: melhores condições de trabalho e melhorias salariais, reivindicam os trabalhadores; e manutenção dos padrões atuais, exigem os empregadores. E dizem isso principalmente porque a situação lhes é cômoda e o incomodo é gerado pela greve!
Qualquer categoria profissional tem direito constitucional de entrar em greve. E todos os empregadores dirão que isso é coisa de quem não quer trabalhar, é coisa de agitador... há tempos atrás se dizia, como forma de tentar ofender o trabalhador, que greve é coisa de comunista, ou de petista; mas com o apagão político que ocorre no país...
Para ser exato, no Brasil, o movimento grevista começou com a chegada dos anarquistas, no início do século XX. E, o mais importante, nenhum grande movimento histórico, nenhuma das grandes realizações da humanidade ocorreram sem que houvesse situação de atrito. Qualquer pessoa com um mínimo de inteligência pode olhar para a história e perceber que os movimentos reivindicatórios são executados pelos que pensam criticamente.
Com isso diante dos olhos, olhemos para os profissionais da educação. E aqui surgem alguns problemas, que não existem em outras categorias. Noutros países o sistema educacional é altamente valorizado. Paisinhos merrecas por aí, investem em seus sistemas escolares, com sucesso. Aqui o sistema educacional é visto como gerador de despesas. O descaso é tanto que organismos internacionais já falam em apagão na educação.
Em clima tórrido como o nosso, os alunos desmotivados por vários fatores, são obrigados a permanecer por quatro horas em uma sala, com outros trinta e poucos colegas, debaixo de um ventilador que não funciona. Duvida? Visite uma escola de periferia! Várias estão com aparelhos de ar condicionado, novos, estragando nos depósitos; e os alunos derretendo em salas superaquecidas.
Entre numa sala de aula e veja o desconforto das carteiras escolares e conte quantas estão quebradas; veja quantas lâmpadas queimadas... Não esqueça que a escola é pública, portanto não tem renda própria para comprar lâmpadas e instalar outros equipamentos. A verba que vem dos programas oficiais, tem destino específico, não pode ser direcionado para as reais necessidades das escolas, sob pena de o diretor ser preso por desvio de verba.
Nossas escolas, por força de lei, são obrigadas a acolher portadores de necessidades especiais (cegueira, paraplegia... etc), mas as instalações são inadequadas: os degraus dos pátios impedem a circulação e as valetas produzidas por enxurradas, são armadilhas para a segurança física das crianças.
Isso sem falar nos delinqüentes que são colocados no convívio com outras crianças, sem acompanhamento de nenhum agente da lei. Eles acabam ensinando a bandidagem aos demais alunos visto que ninguém das escolas tem autoridade sobre eles.
Nesses dois casos os professores são obrigados a se calar, pois a força absurda da lei não pergunta pela qualificação dos profissionais da educação, para trabalhar nessas situações. O argumento é que “deveriam estar preparados”, mas o fato é que não estão. Quem consegue se preparar por conta própria com salários defasados (cursos e treinamentos custam caro!). Por parte do poder público, mantenedor do sistema escolar, não foi oportunizada formação específica, depois de vários anos de existência dessas leis. Além disso, professor não é assistente social, nem carcereiro!!!
Devem ser usadas as novas tecnologias? Há escolas, em Rolim de Moura (e o mesmo ocorre em outras localidades), com mais de 1000 alunos e que possuem dois ou três aparelhos de TV e Vídeo/DVD. Computador? Tem alguns, mas muitas vezes inacessíveis à maioria dos alunos. Biblioteca? Num canto, meio escondida, como que com vergonha de seus poucos livros rotos. Salas de leitura? Existem, se montada pela iniciativa heróica de alguns professores, sacrificando suas horas de descanso. Reformas, nas escolas? Quando ocorrem demoram vários meses, atrapalhando as aulas ou colocando em risco a segurança dos alunos.
Com um quadro desse, com as devidas exceções e os respectivos agravantes, creio que falar em greve não é coisa fora do comum. E se os país se interessassem pelos filhos, eles é que fariam greve! Lembrando que os que entraram em greve só reivindicam duas coisas: melhores condições de trabalho e de salário.
Podemos, para concluir, propor uma troca: colocamos os membros do executivo, do legislativo, por um bimestre, sem seus assessores, para trabalhar em uma escola. Fazer tudo que os professores fazem – sem ajuda de seus assessores. (Podem manter seus salários de 15 mil). Terão que apresentar a mesma produtividade dos professores, sem ajuda dos assessores.
Depois de um bimestre, nas mesmas condições dos professores, sem seus assessores, veremos o resultado!
Greve é grave! É um teatro com artistas, em palcos diferentes, tentando convencer a platéia, de que o seu show é o melhor. Mas, quando falamos em educação, o objetivo não é o show, mas a platéia depois do espetáculo.

Neri de Paula Carneiro
Filósofo, teólogo, historiador

3 de ago de 2007

Vôo da Morte

A morte não está voando, nem é mortal o fato e o ato de voar. A expressão está sendo usada para designar aquele vôo fatídico do Rio Grande do Sul a São Paulo, provocando aquelas centenas de mortes.
Foi uma tragédia. A mídia se deliciou! Prato literalmente quente para várias semanas!
Os outros eventos e fatos e tragédias se dissiparam. Nem o aquecimento global se impôs àquelas cenas chamuscantes e fumegantes. O caso dos senadores larápios esfriou diante do calor da explosão! O PAN foi chamuscado pelo fogo da TAM. O record da TAM acabou recebendo mais destaque que os recordes do PAN
As cores da tragédia se tingiram de um avermelhado que nem de longe lembra aquele momento primordial em que os homens aprenderam a dominar o fogo e com ele iniciaram a epopéia do desenvolvimento. O fogo vital dos primeiros tempos se apagou diante do fogo mortal das explosões.
Mas a questão, aqui não é o fogo nem as explosões, nem o vôo, em si mesmo. Não estou interessado naqueles mortos nem em seus familiares. Da mesma forma que não estou interessado se a pista estava ou não escorregadia. Não me interessa se o avião estava com defeito, se o defeito foi na torre de comando nem se houve falha humana.
Que houve falhas, isso é obvio. Ou não haveria acidente. E com isso não estou querendo me mostrar insensível à dor nem à perda de pessoas queridas. Pelo contrário, esta é a motivação deste desabafo.
Apenas que nossa questão é outra. A questão aqui se refere a uma falha, sim, mas de ordem ética, de caráter, de humanidade.
Digo “nossa questão” é outra por que ela atinge a mim e a você. Atinge aos simples mortais que morrem de cotidiano abandono. Ao passo que aquele problema dos aeroportos, seus aviões e seus mortos representa casos esporádicos. E atinge alguns figurões. O povo mesmo, morre de outras mortes. Por isso o nosso problema é cotidiano:
A fila no hospital público, pago com nosso dinheiro de impostos, permanece matando;
O caos e o desmando na educação pública, aquela que pagamos mesmo sem querer, através da imposição dos impostos, continua matando perspectivas de desenvolvimento;
A assustadora insegurança da chamada segurança pública faz medo e produz pivetes matando a mando de figurões acoitados nas dobras da legislação ou da impunidade ou da negligência, ou do próprio fato de ser um figurão: “você sabe com quem está falando?”
O transporte, visto como vias ou como meios de transporte, também nos mata. As vias são um buraco só. Faltam placas de sinalização e marcadores no solo da pista; os meios de transporte, tanto público como privado são um caos: o carro popular, além de poluente é inacessível em seu preço estratosférico; o transporte coletivo é uma lástima. Tanto o busão de linha intermunicipal e interestadual como o urbano - a chamada circular – além de ser caro é desconfortável, irregular, não respeita o passageiro.
Aqui estão nossos problemas e essa é a questão: tudo isso é “coisa de pobre”. São os pobres que usam transporte coletivo, saúde pública, educação publica... Assim sendo, que se explodam! Mas quando a classe média e alta se explode num avião, a coisa pega. Ficam procurando culpados e justificativas. Mas não encontram o culpado pelas estradas esburacadas e sem sinalização; não encontram os responsáveis pelo caos do transporte coletivo, nem da incapacidade administrativa que gera as filas mortais na saúde pública; nem a estultice da educação publica. Será que a vida de uns é mais importante que a de outros ou é a morte de alguns que vale mais que a morte de outros?
Se um ônibus lotado cai numa “barroca” e mata todos os passageiros, o noticiário gasta alguns segundos para comentar o fato lamentável. Há poucos dias um noticiário da TV mostrou um caminhão saindo de sua pista atravessando o canteiro central e atropelando vários veículos e provocando congestionamento na estrada. Tudo isso é menos de 20 segundos. Ali também estiveram envolvidos e prejudicados várias dezenas de pessoas... Mas um avião lotado cai no meio da rua e explode com tudo e com todos, o noticiário se prolonga por algumas semanas. O defunto rico fede menos que o defunto pobre? O mau cheiro do defunto pobre é mais desagradável para as “fuças” sensíveis dos divulgadores das tragédias? Ou não se noticia a tragédia com os pobres porque, para a mídia e para os donos do poder, os pobres, realmente, não contam? A questão é que os pobres que morrem nas filas e nos acidentes cotidianos, vítimas do desvio de verbas, da corrupção... só valem quando podem significar uns votos a mais para legitimar o safado no poder.
Faltou merenda na escola! Você viu a TV e outros jornais ficarem semanas a fio explorando e denunciando o fato? Morreu duas centenas de figurões num corriqueiro acidente aéreo, quanto tempo a mídia usa para explorar a catástrofe?
Ta essa balburdia toda em torno do acidente. Mas você já observou que não se trata de gente comum? Quantos deles eram trabalhadores em expediente de trabalho? Quantas das crianças e jovens que morreram ali eram filhos de pais desempregados, biscateiros e outros tantos sobreviventes da vida assalariada?
Você já percebeu que aquilo que pode ser de interesse da coletividade dos empobrecidos não permanece na mídia? Já percebeu que aquilo que diz respeito à vida de alguns privilegiados é noticiado à exaustão enquanto a tragédia do povo é esquecida? Ou, justamente, para ocultá-la?
Tá na hora, meu amigo, de começar a calcular o valor da tua vida, para os donos do poder!

Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador.

Vaca Morta

Evidentemente a expressão: “vaca morta” pode ser entendida a partir de várias concepções. Uma delas é referindo-se ao animal que morreu. Outra é a dos que vivem dos negócios e entendem por vaca morta um bom negócio em que se leva grande vantagem. Outras formas de entender a expressão poderiam ser acrescentadas, mas não vamos usar este espaço e o seu tempo, leitor, para explorar a todos, uma vez que a vaca morta, em questão não se trata de nenhum sentido já consagrado. Estou criando outro.
Alguém poderia querer “zoar” comigo dizendo: “Ó o cara, meu! Pensa que tá podendo!” Só por que estou querendo inovar uma gíria já popularizada. Respondo: Tô podendo, sim, e daí? Mas a idéia não é essa, de curtir com a cara de ninguém. A coisa é séria: a vaca morreu! Depois de muito tempo no brejo, morreu afogada num mar de lama.
A idéia, a bem da verdade, não é minha. Peguei emprestada do Flávio, caricaturista da Folha de Rondônia. Na página quatro do primeiro caderno (22/06/07) ele “tascou” um personagem montado num “touro mecânico” com a singela frase: “eu já disse que não renuncio”.
Preste atenção na sonoridade da última palavra que não deve ser confundida com nenhum trocadilho, substituindo o “nun” por um “nan” qualquer. Além disso, está falando de um autêntico “não renuncio” que pode ser associado ao nome de um personagem, muito presente na mídia nacional, dos últimos tempos. O cara foi apanhado com a “boca na botija” e alguém, em nome de uma famigerada ética, achou por bem que o cara devia ser afastado de seu cargo – ou, se preferisse uma saída honrosa – como se honra houvesse, nesse meio – poderia renunciar ao cargo. E, por aqueles artifícios das figuras de linguagem, o “renuncio” está muito próximo do nome desse dito personagem, do qual me nego a falar o nome. E, como diria o anjo do apocalipse, “quem tem olhos para ler, que leia”
Mas, e a vaca morta, onde entra na história? É o que muitos já estão se perguntando.
Explico: O chamado “touro mecânico” é uma geringonça, muitas vezes coberta com couro de gado, evidentemente morto. Daí que esse personagem, da sátira daquele jornal, está sentado sobre uma “vaca morta”. Por mais que o touro mecânico saltite, é mecânico – logo, não-vivo: é vaca morta. E o dito cujo – o que disse que não renuncia - disse que amealhou seus milhões com gado,vivo, no meio do qual algumas vacas; mas, neste caso, vacas mortas, dos negócios!
Mas a parábola do desenho do rapaz, do Flávio, é bem mais inteligente do que a pura referência a um objeto mecânico. Essa vaca, na realidade representa uma casa de anciãos (em latins: seniors), os quais deveriam ser os mais íntegros representantes da sociedade do país. E, se fossemos mais rigorosos, os dois lados dessa casa, representada pelo touro mecânico, e que estamos chamando de vaca, estão mortos. Mortos não por que se refere ao animal morto, nem por ser só uma construção de cimento, morto, mas porque apodreceu. Morreu porque não foi vacinada. O vírus da corrupção matou a capacidade imunológica da moral. E a conseqüência foi infecção com a AIDS da ética das falcatruas e dos favores pessoais, contra os interesses da nação; razão pela qual nesse antro vicejam os atos imorais.
Como diria Jorge Amado, referindo-se aos locais que serviam como refúgios para os jagunços dos coronéis de seus romances, aquela casa virou um “valhacouto” de malfeitores. Não são poucos os criminosos que se entrincheiram num mandado e se escondem naquela casa. E seus moradores, em nome próprio, sem se ater ao “poder que emana do povo”, como se lê na constituição, criam leis e proteções para si e para os seus. E, com isso, atolam, cada vez mais a vaca, matando-a no lamaçal.
E ai, então, voltando ao personagem em questão, o camarada monta na vaca. Encastela-se no trono. Do trono da vaca morta faz seu discurso, não em nome ou em defesa da moralidade, mas em defesa de si mesmo e de seu trono que lhe dá imunidade. Do trono lança o desafio, magistralmente captado pela charge em questão: “eu já disse que não renuncio”. Como se estivesse numa daquelas brigas de criança: “daqui não saio e daqui ninguém me tira”.
E sabe por que, ninguém o tira? Porque aqueles que poderiam tirá-lo de cima da vaca, ou seja, da presidência daquela casa, para prendê-lo ou sei lá, quer dizer... você entendeu o que eu quis dizer... Ninguém o tira porque para fazer isso teria que ser alguém que não estivesse contaminado com o vírus que matou a vaca. Teria que ser alguém que não estivesse atolado. Teria que ser alguém de sangue puro, mas como sangue puro não há. Ele pode se dar ao luxo de dizer o que diz
Assim sendo não sobra outra conclusão: Ou a vaca esta morta ou estão mortos, dentro da vaca, todos os que se alojam naquele touro mecânico. E assim todos nos divertimos, e sofremos as conseqüências desse rodeio.
E a vaca? Continua morta. E, como está morta, não representa a população.

Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador

Usando a Língua

Nossa língua é muito versátil. Pode ser usada com várias finalidades.
(E os maldosos que parem de pensar naquilo, pois não estou me referindo àquela utilização da língua e nem me referindo aquele órgão que usamos para sentir o sabor saboroso das coisas saborosas. Meu discurso, aqui, se refere à língua falada e não ao órgão usado para articular as palavras)
Feito este esclarecimento voltemos à afirmação inicial: a versatilidade de nossa língua. Você que está lendo, já percebeu que este texto pode conter alguma surpresa, como também pode terminar de forma completamente sem graça. E isso, mais uma vez, comprova a afirmação inicial: a possibilidade de utilizarmos a língua de diversas formas. Até para criar expectativa – ou para frustrá-la.
Podemos usar a língua para deprimir ou diminuir alguém; para “malfalar” ou caluniar. Podemos usar a língua para desprezar, maltratar. Podemos usar a língua da forma mais vil e degradante a fim de que a pessoa ou a coisa da qual estejamos falando saia diminuída, tenha seu valor minimizado.
Neste caso estamos dizendo que a língua é uma arma, mortal.
A língua falada pelos falantes pode literalmente causar morte e pode causar a morte social, moral, política ou outras mortes.
A língua, neste caso, é um veneno.
Mas, por outro lado – e as coisas sempre têm o outro lado! – a língua também pode ser um balsamo. Um néctar. Pode nos aproximar da ambrosia vivificante dos deuses gregos. Pode levar à poesia ao lirismo encantador da criação artística. Um “bonfalante”, “benfalando”, pode ajudar a minimizar feridas da alma ou a cicatrizar dores as mais diversas. Sem contar aquele bem imenso que pode ser feito quando nos dirigimos a uma pessoa que necessita de uma palavra amiga, quando chegamos a ela, pegamos sua mão, olhamos em seus olhos e dizemos tudo sem pronunciar uma única palavra. O silêncio cúmplice, nesses casos, muitas vezes, é mais salutar que infinitas palavras...
Falar algo bom, positivo, construtivo..., nem sempre é articular sons. Pode-se falar muito com gestos e posturas. E isso também faz parte do discurso benéfico de nossa língua. Neste caso a língua da solidariedade, da amizade, do amor...
A língua, nestes casos, é divina!!!
Mas não estou fazendo essa apologia da língua – e observe que uso a língua com vários sentidos sem cair naquele sentido que já disse que não está valendo, neste texto. Uso a língua, aqui para dizer que existem casos que mesmo sendo bem dita, a língua pode causar incompreensão. Não pelo que falou, mas por parte de quem ouviu. Isso implica dizer que, ao lado do bom falante tem que estar um bom ouvinte. Para evitar que o bom falante seja mal falado por um mau ouvinte.
Por que digo isso? Explico-me.
Nossa língua, entre outras virtudes, paga tributo ao grego e ao latim. Aliás, nossa sociedade é greco-latina, além de mal ser cristã. E o fato de ser greco-latina muito nos ajuda. Como, também, por vezes, pode criar embaraços. E o propósito deste texto não é o discurso laudatório à língua, mas tratar de um embaraço.
Em nosso programa semanal na Rádio Liberdade FM (aos sábados, às 12:30) conversávamos com um professor, filósofo, muito competente. Conhecedor do latim e do grego e mais algumas nuances de outras línguas.
O fato é que esse colega saudou os ouvintes chamando-os de “tele-ouvintes”. Após o programa, recebi alguns comentários maldosos, dizendo: “como você pode entrevistar um cara que nem sabe falar? A gente fala telespectador, quando está falando com ou dos que assistem televisão. Quando é no rádio a gente fala ouvinte, pois não estamos na televisão”, me disse um analfabeto (fez faculdade, o gajo, mas é analfabeto!). E continuou destilando veneno, essa língua ferina.
Fui obrigado a esclarecer à víbora, dizendo o que digo agora. Mostrei-lhe as origens de nossa língua. Fui obrigado a lhe ensinar que, o radical grego “tele” tem o significado de “à distância”; que usamos esse radical, em nossa língua, com muita freqüência e em várias outras circunstâncias e palavras. Nós falamos à distância usando o “tele-fone”, vemos imagens distantes pela “tele-visão”, descobrimos mundos pelo “tele-scópio”, alguns estudam a possibilidade da “tele-patia” para uma comunicação à distância, sem articulação de palavras, ou da “tele-cinese” para se referir ao transporte. Isso sem contar que já ultrapassamos a era do “tele-gráfo” para as curtas cartas, mas ainda usamos o “tele-grama”. Dessa forma, falar de tele-ouvinte não é um erro, mas uma perfeita utilização de um conceito.
A única diferença entre o tele-ouvinte e o telespectador é que um só ouve e o outro vê e ouve o que está ocorrendo em outra localidade. O tele-ouvinte, do rádio, é tão “tele” quanto o telespectador, da televisão. O que os diferencia é o aparelho de comunicação. Se não pudéssemos usar o “tele-ouvinte” também não poderíamos usar o telefone, o telescópio, a telegonia, a telemetria, nem as demais utilizações do tele.
Como não quero ser maldoso, nem tripudiar ninguém, sugiro, apenas que antes de tecermos comentários maldosos às pessoas e sobre pessoas, sejamos, pelo menos espertos ao ponto de não falarmos sobre algo do que não temos conhecimento. E aqui entra, também, a maldita fofoca.
Não me levem a mal, mas se as pessoas cuidassem das suas vidas, sem meter a língua em qualquer orifício, possivelmente haveria menos presença de “Tanatós”.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador

Porrada II

Esta é uma segunda porrada que, evidentemente, vem depois da primeira. Mas a questão aqui não é a ordem das porradas a mas a desordem que as provoca.
Não entendeu? Pois explico!
Você é pai ou mãe. Seu filho ou filha de dois ou três anos faz uma peraltice. Você ri e diz: que gracinha? ou repreende o pimpolho e diz que isso não está correto?
Seu rebento cresce. Está agora com sete ou oito anos. Chega da escola com duas borrachas, sendo que uma delas você não comprou e, portanto, não é dele. Você quer saber de quem é? Como ele ficou com ela? E se descobre que é de um coleguinha manda devolver? Ou só diz que isso não se faz e deixa para lá? Ou nem isso! Você simplesmente ignora, afinal é só uma borracha?
Aos doze ou treze anos. Sua cria não fez a tarefa e o professor lhe chama a atenção. Seu anjinho que aos três anos fazia peraltice e você ria, aos oito chegava com uma borracha estranha e você não ligava, agora, aos doze anos, ao ser repreendido por não cumprir com uma obrigação, falta com o respeito ao professor. Você acha que o professor não poderia ter lhe chamado a atenção, na sala de aula ou você lhe manda pedir desculpas ao professor e fazer duas vezes a tarefa, para que aprenda a cumprir com suas obrigações e se tornar um ser humano?
Agora ele já tem quinze ou dezesseis anos. Você acha que seu filho ainda é muito novo para trabalhar e que deve apenas estudar e se divertir, principalmente por que você teve que trabalhar desde cedo e nunca teve muito tempo para estudar e curtir a vida? ou você procura uma atividade para seu filho. Cobra-lhe que cumpra com essa tarefa e que estude? Além disso, você tolera que seu filho chegue tarde da noite ao sair com os amigos para diversões que você não sabe qual nem onde é? ou você estabelece horários para chegar e quer saber onde e com quem ele irá?
Não sei o que você respondeu a estas situações imaginárias. Mas, mesmo imaginárias, são situações cotidianas para muitos pais e mães e filhos e professores em quase todas as escolas.
Se você se divertiu com a peraltice do seu filho de três anos. Não deu pelota para a borracha estranha em sua bolsa escolar, aos oito. Não o repreendeu quando faltou com o respeito ao professor aos treze, nem se preocupou com quem saiu, para onde foi e que horas voltou, aos dezesseis, prepare-se para uma possível má, notícia: Seu filho pode ser um dos que agride uma trabalhadora e, para se desculpar, diz que pensava que fosse uma prostituta. Seu filho pode ser um dos que corre comprar um litro de álcool para incendiar um índio e, para se desculpar, diz que pensava que fosse um mendigo. Seu filho pode ser um dos que têm tudo, mas não tem um pai e/ou uma mãe.
Claro, você dirá que seu filho não é um monstro!
Respondo: Todos nós somos monstruosos, principalmente quando estamos em bandos ou acossados pelos apelos de fortes emoções; principalmente quando se volta para casa depois de uma noitada com os amigos, tendo bebido, fumado ou cheirado não se sabe o quê.
Você dirá que seu filho é diferente.
Respondo que justamente por sermos diferentes é que, no bando, querermos ser iguais; é por isso cometemos absurdos.
Você dirá que nunca faltou nada para seu filho e que, por isso ele não tem motivos para se comportar maldosamente.
Respondo que nisso reside o grande problema. Pensar que não deixar faltar algo ao filho, dando-lhe tudo, é um erro. Nisso há dois equívocos, fatais: ele não tem que receber tudo, sem ter merecido. Além disso, dar coisas, sem estar presente, cobrando e oferecendo valores é uma forma de confessar que você não está sendo responsável pelo seu filho. Os presentes devem ser proporcionais às conquistas por méritos.
Claro que você não está sozinho na construção desse malfeitor. Você tem uma ajuda valiosa dos meios de comunicação. Você conta com o apoio de uma compreensão equivocada de preceitos da legislação. Você tem um sistema escolar mantido não pela valorização do respeito e da aprendizagem, mas da politicagem que persegue profissionais competentes e valoriza capachos. Você é auxiliado por políticas públicas que privilegiam as estatísticas e não a aprendizagem. E assim por diante.
Conversar com os filhos é bom? É evidente que sim. Mas deixar de punir a peraltice, os erros, as malcriações, os excessos é conivência com a violência. É neste ponto que se separam os pais e os reprodutores.
Pais e mães são aqueles que se preocupam e procuram desenvolver valores socialmente aceitos. Reprodutores são aqueles que fazem ou o geram o filho e o abandonam aos cuidados de uma babá, depois o exilam numa creche, mais tarde o aprisionam na escola ao mesmo tempo em que o soltam nas ruas. Sabe o que acontece depois?
O fato é que a impunidade viceja. Espalha-se feito tiririca no canteiro de alface.
Por isso é que te convido a refletir sobre as porradas. Não aquelas que a grande mídia vem divulgando, quem sabe até tentando provocar uma discussão mais sadia não porque preserve valores, mas por que isso vende notícia e porque, por ser formada pela classe média-alta comece a se sentir ameaçada. Convido-te a refletir sobre as porradas que deixam de ser dadas, com o devido jeitinho carinhoso de quem é pai ou mãe e quer que seu filho não engrosse as estatísticas da violência.
Caso contrário, sabe onde isso vai dar? Porrada!

Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador