25 de jul de 2007

Medo criativo e a angústia da existência

O que somos nós? De onde viemos e para onde vamos?
Essas são algumas das indagações que movem a humanidade. Claro que existem outras, por exemplo: o que vou comer no almoço? Será que terei o que comer? Poucos se perguntam, por exemplo, sobre o que acontecerá se continuarmos agredindo a natureza. Claro, também, que tem perguntas que raramente as pessoas se fazem: para onde vai a luz quando desligamos o interruptor? Qual é a cor daquela calça amarela, quando o guarda-roupa está no escuro?
Mas as indagações essenciais permanecem. E, às vezes se desdobram em outras, principalmente quando começamos a respondê-las: Somos o que somos? Somos o que queremos ser? Somos o que sonhamos ser? Ou não somos? Afinal, quem e o quê somos?
Vou me atrever a dar uma resposta: Somos o resultado de nossos medos! Somos humanos, e como tal, movemo-nos a partir de algumas características: a insatisfação, o medo, as indagações...
Primeiro somos insatisfeitos: se com fome, queremos a saciedade; alimentados queremos repouso; repousando queremos emoções... e dessa forma, por sermos insatisfeitos vamos construindo, descobrindo, inventando – quebrando a cara, também! – mas em todos os casos vamos alterando o mundo e a nós mesmos. E permanecemos insatisfeitos e, por isso, buscando!
Por causa da insatisfação e junto dela, somos medrosos. Temos medo de tudo. Até de admitir o medo – lembremo-nos de algumas músicas do Raul Seixas! Temos medo da verdade e tememos a mentira. Temos medo do desconhecido e tememos a busca do seu entendimento. Temos medo da morte e não preservamos a vida. E, por medo, nem sempre nos damos conta de que o medo não é sinal de fraqueza nem covardia: é mecanismo de preservação; é um dos instrumentos que utilizamos para nos mantermos vivos; é um dos mecanismos de que nos utilizamos para tentar satisfazer algumas de nossas necessidades ou suprir algumas de nossas insatisfações. Só que por medo da insatisfação ou de não termos nossas necessidades atendidas, permanecemos com medo e insatisfeitos.
Em vista disso nos interrogamos: como superar o medo e satisfazer a insatisfação? Outra indagação é sobre o sentido da vida. Como a percebemos sem sentido, mas apegados a ela, buscamos, desesperadamente, dar-lhe sentido. Criamos sentido! – por vezes absurdos! Nossas indagações nos levam, muitas vezes a respostas falsas. Nossas indagações nos levam a inseguranças, pois nos defrontamos com a falta de sentido da vida e a inconsistência de nossas respostas e das nossas verdades.
Embora não tenhamos coragem de admitir, a vida, e o viver, são situações desprovidas de sentido: ou tem sentido levantar-se de manhã, quando se quer permanecer dormindo ou pelo menos na cama – com ela (ou ele), de preferência? Tem sentido ir para um trabalho chato, quando se quer fazer nada, viver no ócio? Tem sentido passar a vida fazendo algo que não gostamos, só para manter as aparências? Tem sentido trabalhar feito um burro de carga, e ver o fruto do trabalho enriquecer a outros? Tem sentido fazer tudo o que fazemos, até tentando acumular riquezas, para morrer e não levar nada?
(Pare um pouco e veja quão sem sentido é a existência. Veja como você vive insatisfeito, muitas vezes melancólico – e supere o medo de admitir que, sua insatisfação ocorre porque você não encontrou o sentido do seu existir!)
Como disse, ao percebemos a falta de sentido da existência, criamos sentidos para existir. E, muitas vezes esse sentido é colocado num ser ou numa realidade transcendente. Sagrada! É colocado num além indefinido e indefinível, fruto da imaginação. Criamos o sagrado para dar sentido à vida e ao existir.
Mas temos medo dessa realidade. E por medo dela e de perdê-la, perdendo até esse sentido, nos furtamos a refletir sobre ela. Não temos coragem de colocá-la em discussão. Por medo permanecemos na dúvida. E na dúvida, criamos os dogmas, criando, com isso uma certeza artificial, falsa! Em nome do dogma nos negamos o direito de questionar. Em com isso volta o problema que mantém a angústia do ser humano: o imponderado do seu destino. E sua dúvida cruel: de onde vim? Para onde vou? E reaparece o medo!
Essa angústia faz de cada um de nós, pessoas, ao mesmo tempo insatisfeitas e apegadas a algumas explicações. Alguns nos agarramos à religião. Mas a religião não satisfaz. E por medo não nos libertamos na fé, pois a fé, embora dissimule o medo, mata a curiosidade e não satisfaz. Alguns se apegam à ciência, que também não satisfaz, pois a cada certeza apresentada depois de uma pesquisa científica, produz outras dúvidas. Resta à filosofia a função de explicar essa situação, mas a filosofia também não satisfaz, pois antes de dar respostas acrescenta mais dúvidas às duvidas.
O homem é insatisfeito e por isso busca. Quanto mais busca, mais explicações contraditórias encontra. Por isso mais se angustia, pois nada cura seu medo. Nada lhe dá certeza. E assim vai construindo, criando, evoluindo. E quanto mais cria, mais constrói, mais inventa, mas evolui... mais percebe que nada disso tem sentido. E lança-se cada vez mais desesperadamente na busca desse sentido.
E assim vive o ser humano, sem sentido de viver, mas construindo sentido para a existência. Angustiado e atormentado por seus medos, mas construindo, nem que seja artificialidades que o mantêm insatisfeito, com medo e se perguntando pela resposta definitiva, que nunca encontrará.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador

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