11 de mar de 2008

Páscoa e outros bichos

Há bastante tempo venho me comentando as chamadas “datas comemorativas”. Se puder resumir tudo o que já falei sobre elas poderia dizer que, na sociedade atual, todas perderam seu sentido e significado.
Não que a data ou o evento que se comemora não tenha sentido, ou seja, insignificante. O evento comemorado permanece sendo tal e qual. O que se descaracterizou, por um lado é a compreensão do seu significado e por outro a utilização que é feita do evento. Descaracterizou porque se procurou adaptá-lo às exigências do mundo em que vivemos, onde raramente se realiza algo pela sua significação, mas porque está ”na moda” fazê-lo; isso leva à utilização da data do evento que, na maioria dos casos, ganhou uma roupagem comercializável e consumista.
Noutros casos se trata de reação vingativa. Veja você que durante muito tempo as escolas foram obrigadas a comemorar algumas datas meio na ponta da baioneta: dia do soldado, sete de setembro, entre outras. Tanto isso se fez, por imposição que atualmente, em muitos lugares, ocorre a reação inversa: não se comemora nada! E, o que é pior, nem se ensina aos estudantes o significado dessas datas. Tem estudante que não sabe diferenciar o sete de setembro do quinze de novembro. Por quê? Porque nós, professores que vivemos no período da ditadura e fomos obrigados a comemorar isso reagimos dizendo que são resquícios da ditadura. E nossa reação agora, é não falar desses eventos nem do que é significado nessas datas. E nos saímos com ares de pessoas críticas, dizendo que o país não é independente nem a república é exemplar.
Mas, desde quando se “independentiza” ou se toma um regime político como modelo de virtude sem consciência cidadã? Sem uma ação constante no sentido de convocar a sociedade para abraçar uma causa comum? A omissão não cria cidadania. A ladroeira que existe não é porque “os caras” são o que são, mas porque nós, que nos sentimos vítimas, nos fazemos de vítima e nos acomodamos na reclamação. Achamos bonito dizer que “são uns ladrões”; “são todos iguais”. Mas não nos organizamos para dar um basta...
Raramente se vê ou se realizam comemorações com o intuito de discutir a realidade – para analisar a conjuntura – como se diz nos movimentos populares. Na maioria das vezes a comemoração é feita em busca do feriado; em busca da festividade, em busca de tudo, menos da consciência cidadã, que implica em participação na decisão dos rumos da história.
E assim poderíamos analisar cada uma das principais datas comemoradas pela nossa sociedade: o dia das mães se tornou um pacote com uma fitinha e um cartão de parabéns. E está ficando pior, agora os cartões são virtuais, com o risco de chegar cheio de vírus!!! Tem até uns babacas que, na incapacidade de redigir sua mensagem a terceirizam para sites que se especializaram nisso. Ai te chega uma mensagem dizendo que “uma pessoa que você gosta te mandou um cartão virtual, para abri-lo clique aqui”. Aí você clica e abre outra página que te manda clicar noutro lugar e no outro as coisas se repetem. E aí o que faço? Excluo o cartão, sem saber quem mo enviou!
Dia das crianças virou seqüestro da sensatez em nome da imbecilidade. A criança manda e os pais obedecem, numa completa inversão de valores. A ausência constante dos pais lhes pesa na consciência e, para se redimir num gesto de compensação, dão tudo que o filho não precisa, mas que a propaganda impõe – e a criança pede – sem dar aquilo que é essencial: carinho e presença!
Natal? Virou um velhinho, gorducho, fantasiado de vermelho transportado por uns veadinhos voadores. Até parece roupa de palhaço, ou a roupa dele é assim porque estão nos fazendo de palhaços! Significado da comemoração? Sei lá! Só sei que tem peru, ceia à meia noite, e, como as casa brasileiras não têm lareira, se troca presente por meio de um tal de “amigo secreto”
No mesmo ritmo vai a Páscoa. Esta festa, me parece, está sendo a que mais evoluiu tendo chegado ao mais alto ponto do contra-senso Virou festa de um absurdo genético: criaram um coelho capaz de “botar” ovos de chocolate. Nem o doutor Frankstein concebeu uma aberração tão grande. E olha que o homem havia criado um monstro monstruoso, mesmo.
Sinceramente não sei explicar por qual processo da mais moderna engenharia genética reprogramaram esse pobre animal para ser fecundado por um galho do cacaueiro. E agora o animalzinho sai por aí, acredito que ainda saltitante, procurando ninhos para desovar. As primeiras ninhadas já chocaram, pois quando a gente “anda andando” pelas ruas pode ver, em várias lojas, embrulhadinho em papéis de disfarce, coelhinhos de chocolate... dos mais diferentes sabores. Alguns ainda são bebes, outros já cresceram...
Sobre o significado dessa festa? Quem é que se interessa por isso?
Deixe aquelas beatas que chorem pelo deus morto, sem perceber a força viva do Deus da vida. Deixa que uns tantos se fantasiem num espetáculo grotesco para mostrar um rapaz singelo e coerente com suas idéias, ser assassinado numa cruz, sem perceber o significado político e espiritual do seu gesto. Deixa que se comemore a sexta feira, sem se dar conta de que o importante não é o “não comer carne na sexta-feira santa”, mas o não deixar que a “carne nos consuma”. Deixa que pensem que tudo é só um grande teatro sem perceber que se trata de um dos mais radicais convites à revisão de vida e proposta de transformação pessoal e social.
Deixa que tudo permaneça como está, pois tende a piorar........
E agora, para encerrar, votos de Ressurreição, numa Feliz Páscoa!
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
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