18 de ago de 2016

Política: coisa da besta?


Política: coisa da besta?
Não tente ver uma conotação religiosa neste titulo. Trata-se de uma indagação sobre a essência humana. Ou seja, queremos saber o que faz do ser humano, um ser humano.
Como entender isso? Vejamos!
Certamente já ouvimos e lemos alguma coisa sobre um grande pensador da Grécia Antiga: Aristóteles. Entre outras coisas ele escreveu um livro sobre política, cujo título é, justamente: “Política”.
Nesse livro apresenta uma das mais antigas caracterizações do homem: de que somos seres sociais. Logo no primeiro capítulo diz, que: “o homem é naturalmente feito para a sociedade política”. Quer dizer, o homem existe porque vive em sociedade, em grupo. E este é nosso problema: a vida social depende de decisões políticas, ou seja: regras de convivência.
Caso parássemos aqui, na afirmação da natureza política, tudo estaria resolvido. Mas nosso problema vai além. Nosso problema está na construção do grupo, pois para viver em grupo o homem depende de regras de convivência. E a construção dessas regras é um processo e decorre de uma ação política.
Como, então, entender isso que chamamos de política? Não a confundamos com as malandragens que se institucionalizou naquilo que hoje chamamos de política. Na realidade deve-se entender a política como a negociação que os indivíduos fazem para estabelecer as normas para viver em grupo. Não importa se esse grupo seja de duas pessoas ou de milhares. Havendo um grupo manifesta-se a necessidade das regras de convivência.
E aqui é que se impõe nosso problema. Antes de viver em grupo, tomamos a decisão de viver em grupo. E, por qual motivo nos agrupamos? Por que temos necessidade que só suprimos quando nos juntamos a outros que tem o mesmo problema. Então juntos, solucionamos o problema que é comum. Isso significa que o grupo é decorrência de nossa necessidade de defender ou fazer valer nossos interesses. Ou seja, vivemos em grupo porque temos interesses a defender.
Vejamos o que disse nosso amigo Aristóteles, no livro “Política” a respeito desse conflito de interesses: “Quando se reclama a soberania da lei, reclama-se o império da divindade e da razão. Porém quem deseja que o homem governe, de certa forma, também deseja por uma besta selvagem no governo
Como podemos entender isso?
A primeira parte da afirmação refere-se ao que todos nós queremos: a lei, pois queremos viver em paz e ordenadamente. Esse é nosso desejo e aspiração racional. É o que queremos. E dizemos que o grupo social existe para organizar e defender essa convivência (com-vivência)
Entretanto para chegar ao que queremos precisamos passar pelo processo da construção do que queremos. E neste ponto afloram todos os tipos de conflitos e interesses. Deixamos de agir com a razão para defender os nossos interesses; e nisso se manifesta nossa animalidade. Animalidade que se expressa como uma “besta selvagem” que assume o governo.
Isso é o que vem acontecendo ao longo da história da humanidade. São milhares de anos de história em que a com-vivência, que deveria ser o objetivo do grupo e da política, deixa de ser o objetivo para que, sobre ele, se imponha o interesse particular. É quando não mais a razão e lei prevalecem, mas a “besta selvagem”. E isso não foi inventado por este ou aquele partido da atualidade, mas vem se impondo ao longo dos milênios.
E hoje, dizer que este ou aquele partido que eventualmente esteja no governo é corrupto ou está roubando, é o mesmo que confessar ignorância, esquecer que há uma animalidade em nós ou, pior ainda, é porque fazemos parte do grupo que deseja tirar aquele que hoje está roubando para entrar em seu lugar e roubar também! É a besta selvagem que está falando!
Neri de Paula Carneiro
mestre em educação, filósofo, teólogo, historiador
Rolim de Moura - RO

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