7 de mai de 2007

Formar com Arte

Que tem uma coisa a ver com outra?, pode perguntar alguém. Qual a ligação que pode existir entre o processo de formação e a arte? Mas tem tudo a ver. Principalmente porque formar é uma arte e a vida escolar é exigente e precisa de respostas concretas e bem direcionadas... então vejamos.
A situação é gritante. Sabemos que existem muitos professores. E a maioria deles com muita capacidade. Ensinam maravilhosamente bem. Mesmo assim existe déficit: faltam mestres. Mestres não por prepotência do saber acumulado, mas por acumulo de experiência, de capacidade de diálogo, de valores humanos...
Nas escolas encontramos professores e formadores de caráter. Mas nunca é demais dizer que o professor que só ensina nem sempre ensina bem. Mesmo que seja especialista em ensinar. Além disso, é muito fácil ensinar. Basta pegar um tema, estuda-lo e ensinar o que se aprendeu.
A rua, a TV, as músicas, os amigos, os pais... ensinam de tudo, o tempo todo. Mas isso não significa que estejam formando o CARÁTER. Nem significa dizer que isso seja formação: ensinar não, necessariamente, sinônimo de formar. Por isso é que nem todos os que ensinam são formadores de personalidade e de caráter para o bem e a verdade. Nem todo o que ensina, educa!
Existem até casos onde ensinam no sentido da decomposição social, moral e ética... Ensinar a safadeza também é ensinar. A malandragem também se aprende. E muitas vezes é mais fácil aprender os meandros da corrupção, da malandragem, dos atos indizíveis... do que aprender o valor humano, o valor da solidariedade, o valor da participação.
Com isso queremos dizer que formar caráter e personalidade é diferente – formar homens e mulheres dignos – vai além da simples transmissão de informações técnicas e científicas. E não é demais repetir que o ensino técnico-científico qualquer um pode fazer.
É indispensável transmitir conhecimento, provocar inovações, gerar novos saberes!
Mas o formador – que muitos chamam também de educador - não para aí. Antes de formar, o formador precisa possuir um quadro de valores positivos: Humanidade, Verdade, Justiça, Companheirismo, Solidariedade, Franqueza, Honestidade... A partir desses e de outros valores é que o formador transmite os conhecimentos. O formador não ensina só a partir de ementas ou planos estritamente acadêmicos. O formador fala e ensina a partir de valores que precisam ser construídos pelos estudantes a fim de que, fazendo-se cidadãos, entrem também eles, no processo de construção de uma sociedade alicerçada não na lei da vantagem pessoal, mas no bem comum.
É neste ponto que entra o formador artista. É aí que entra a arte de ser formador – não como quem dá forma, mas como quem ajuda a modelar, lenta e artisticamente os valores humanos.
O formador é artista por que mesmo nas adversidades consegue ensinar. O formador sabe tirar lições das adversidades e das dificuldades. Os contratempos e empecilhos são fontes de inspirações para o formador modelar para o bem.
Qualquer um pode ser professor: transmitir informações para a verdade ou para a hipocrisia. Só o mestre, artisticamente, ajuda ao estudante a se desenvolver, a desabrochar feito flor, para a solidariedade e a justiça.
Nisso consiste a arte de educar: ajudar o estudante a se fazer, transformando-se naquilo que deve ser.
(Prof. Neri De Paula Carneiro
Filósofo, Teólogo, Historiador
Diretor do Colégio Galileu Galilei)
Publicado inicialmente em "Folha da Mata/2004)

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