28 de ago de 2007

Filosofia Africana

O adjetivo “africana”, acima mencionado e que qualifica a palavra filosofia, é formado a partir do termo “África” que, segundo alguns estudiosos da linguagem, deriva do Grego “aphriké”, do Berbere “awrigas”, de “afryquah” significando colônia, e do Latim “aprica” significando “exposto ao sol”.
Desse último significado da palavra África, ou seja, exposto ao sol, e da inconstância sócio-econômico-política do continente africano, forja-se falaciosamente a idéia de que o povo africano não tem “queda” para filosofia, não tem “cabeça” para abstração, para metafísica. Será isso verdade? Não há nessa opinião um preconceito que remonta a Homero, Aristóteles, Platão e outros?
A expressão ”filosofia africana” pode parecer estranha para muitos, no entanto, o povo africano filosofa, tem “cabeça filosófica”. Senão vejamos: Metafisicamente falando, os africanos possuem palavras e termos que remetem à idéia, a conceitos ontológicos, tais como, em Iorubá (língua africana): “ni” significa ser, ”mõ” significa conhecer, ”ofifo” significa o nada.
Em Banto (outra língua africana): “ntu” expressa a idéia de ser. A partir do conceito de ser (ntu), a cultura banta deriva quatro categorias de tudo o que se pode conhecer: 1. “muntu” conceitua o ser-de-inteligência (o ser humano); 2. “kintu” significa o ser-sem-inteligência (as coisas); 3. “hantu” expressa o ser-localizador (lugar-tempo); 4. O ser-modal (modificação do ser).
Além dessas quatro categorias, na filosofia africana, especificamente a filosofia banta, são de suma importância estes conceitos: unificação de lugar e tempo, distinção entre o existir e o viver
Os bantos (etnia africana) chegam à idéia de que lugar e tempo são concomitantes, baseados na localização dos existentes, uma vez que "qualquer existente, assim que surge, supõe necessariamente o antes e o depois".Ao lado disso, a diferença entre o existir e o viver se faz, na filosofia banta, da seguinte forma: o existir é abrangente, geral, universal; enquanto que o viver é um momento do existir, é uma particularidade do existir.
Convém observar que alguns pensadores africanos entendem que os conceitos filosóficos chegam a eles através da música, da percussão, da religião e da dança.
Vê-se, dessa forma, que não há uma filosofia branca nem uma filosofia preta. Há, apenas, filosofia.
Everaldo Lins de Santana - Filósofo

19 comentários:

paulo roberto disse...

oi professor muito legal seu espaço virtual, cabe divulgação para que possamos sair do modelo eurocentrico que se instala academicamente impossibilitando a expansão de uma cultura rica filosoficamente tanto no continente quanto na diaspora, algo que se revela atraves de pensadores como, sengor, aimé, keiyata, garvey e tantos outros brilhantes produtores da rica filosofia africana.

Menina Flor, Elleny disse...

Excelente seu texto e sua reflexão.
Temos que valorizar cada vez mais a cultura africana em todas as suas vertentes.
Gostaria de comentar seu texto em meu blog, se vc autorizar.
Bjk!

Saló Nicodemos disse...

Obrigado professor pelo seu texto, pois é raro encontrar gente que acredita e menos critica a nossa filosofia africana. ainda hoje estava estudando sobre o referido tema e pude observar das inúmeras barreiras que a nossa filosofia tem enfrentado. sou moçambicano, africano e fico feliz com isso. Obrigado

Gerson Machevo disse...

Caro professor, eu sou africano e reconheço a dificuldade que existe em escrever sobre filosofia africana, mas gostaria de fazer apenas uma pequena correcção, o banto ou Bantu não é uma língua africana mas um conjunto de línguas africanas com a mesma origem: BANTU. Principalmente na região central e sul da áfrica.

Gaspar disse...

Bantu, conjunto de povos que habitam o sul da África, com uma multiplicidade cultural e com profundo sentido bantúfona, possuidores de hábitos, costumes e de línguas(o kimbundu, o suaile, o kigongo,etc,etc...) que caracterizam, em plenitude, as suas tradições.(sempre ao vosso dispor: Gaspar Silva, de Angola)

K~ disse...

Olá professor, gostaria de elogiá-lo e de agradecer pelo texto. Sou estudante de letras a UFJF e em uma disciplina que temos voltada pra discussão de questões de "africanidades" eu e meu grupo ficamos encarregados de falar da filosofia africana e seu texto vai servir pra enriquecer nosso trabalhos e ossas mentes. Obrigada. Olívia. K~

Anônimo disse...

Muito obrigado professor pelo texto, sou Africano de nacionalidade Moçambicana, senti-me comovido após o término da leitura e dizer que este é um dos poucos e preciosos texto que precisamos..Obrigado.

Jacinto Pequnino disse...

Muito obrigado professor. sou um moçambicano que tanto gosta de descobrir a minha própria identidade. o Teu texto é muito interessante; mostra que o africano pensa e que organiza o seu pensamento, não no vazio, mas no decorrer das coisas.
Mas existe uma coisa que me chamou atenção no teu texto. Filosofia africana? A tua descrição mostra claramente que a filosofia é uma é una e não pode ser assimilada ou considerada diversificada. Eu acredito que o africano nunca fará Filosofia porque na medida em quiser fazer Filosofia sairá da sua natureza.
Ora vejamos: em que contexto nasce a Filosofia? e quando nasce o pensamento africano.
Filosofia deve ser considerada como forma de organização do pensamento que tem a ver com o contexto social e temporal. o africano é um grande pensador, é aquele que organiza o seu próprio raciocíneo com o contacto com a sua própria realidade. Há anos atrás se discutia se era possível uma filosofia nos contos e na oralidade? Isso nos fez afastar da linha filosófica. Os nossos sábios sabem o que reside na oralidade e o que está na boca dos sábios que a Filosofia verdadeira não aceita.
Eu acho que embora caminhemos no mesmo rítmo, o africano não deveria fazer Filosofia, mas sim elaborar um pensamento que seja africano.
Professor eu acho que o africano precisa da filosofia não para fazer a sua porque nunca fará, mas para solidificar o seu pensamento que está inteiramente ligada com o "Kairos" ou mesmo com a natureza das coisas.

Anônimo disse...

Excelente comentário, poucas vezes temos o prazer de ler textos sobre etnias com a quebra de preconceitos tão bem elaborado como este. Que no final nos traz uma reflexão.
Parabéns, e continue.

PROF LÉO UNIGUAÇU disse...

Boa noite, leciono Filosofia no Colégio SESI, na cidade de União da Vitória, Pr. Nosso colégio não trabalha por bimestre, nem por séries separadas, chamamos de "Oficinas de Aprendizagem". Em uma das turmas o tema é AFRICA SELVAGEM. Nos livros não há muito sobre o tema. Ao digitar FILOSOFIA AFRICANA achei imediatamente o seu blog. Fico grato e vou usar o texto com meus alunos (citando-o, claro, bem como o endereço do Blog). Acredito que se todos nós professores agirmos como você, o ensino melhorará. Vou começar minha atitude como a sua. Abraço.

Leonel de Castro Filho
e-mail: leonelcfilho@yahoo.com.br

JOSÉ SAPALO disse...

SOU ESTUDANTE DO CURSO SUPERIOR DE FILOSOFIA PELO SEMINÁRIO MAIOR DE CRISTO-REI, HUAMBO-ANGOLA, E SINTO REALMENTE AS BARREIRAS PELAS QUAIS PASSA A NOSSA FILOSOFIA NO PROSSESSO DE SUA AUTO-AFIRMAÇÃO NO CONTEXTO UNIVERSAL... UM CONTRIBUTO DESSES É SEMPRE IMPRESCINDÍVEL. FORÇA!!! JS

Profirio Paulo disse...

É de louvar e, de certa forma, agradecer a todos aqueles que são estudiosos serios, porque um texto dessa dimensão só poderia ser apresentado por um ´´sophos`` no verdadeiro sentido da palavra.professor continue porque a ciência precisa de ti..

vino Dembele disse...

por favor, leiam tambem as obras dos grandes pensadores africanos(mocambicanos- o caso de NGOENHA e CASTIANO)...

carimo A. Salica disse...

Excelente seu texti professor divulga mais para que possamos sair do modelo em que estamos

Anônimo disse...

Ilustre professor, não existe nada melhor senão o reconhecimento da identidade cultural de cada povo deste imenso planeta. Apesar de o seu raciocinio ter sido postado já há bastante tempo, ainda contunua bastante válido. Sou angolano, formado em sociologia e confesso que estou orgulhoso do senhor por saber o povos Bantu sempre teve a sua filosofia que os identifica na forma de pensar a actuar. Parabéns professor. Força e coragem nas suas investigações. Estou consigo.

Franque disse...

Obrigado professor pelo seu texto, pois é raro encontrar gente que acredita e menos critica a nossa filosofia africana. ainda hoje estava estudando sobre o referido tema e pude observar das inúmeras barreiras que a nossa filosofia tem enfrentado. sou moçambicano, africano e fico feliz com isso. Obrigado

Anônimo disse...

O coracao tem razoes que a propria razao nao consegue explicar.

Anônimo disse...

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