3 de ago de 2007

Porrada

Que me desculpem os olhos mais castos ou os ouvidos sensíveis. Mas o show de porrada pede posicionamentos.
Decididamente, estamos numa época de crise de valores. A moralidade atual, quixotescamente, busca moinhos de vento onde espetar uma lança de absurdos que perpapassa do meio privado ao público; que vai da cena política ao cotidiano dos negócios. A crise de valores ocorre não por que não se tem valores, mas por que os valores são outros.
O bom disso é saber que toda crise é situação de purificação: da putrefação social pode surgir um novo verme produzindo novos valores. Atualmente o que vemos é o lamaçal se estendendo, se ampliando, se infiltrando, se tornando cada vez mais presente no dia-a-dia não só dos políticos, como também da população. Nessa situação de pestilência é que nos encontramos.
Veja como andam as manchetes em um dia comum neste início de século XXI: logo de manhã, na caixa de e.mail uma notícia me atinge os olhos: no interior de São Paulo um aluno incendeia os cabelos da professora, em sala de aula. Você pode ter imaginado que o garoto foi expulso da escola. Nada! Pasme: a escola toma uma providência muito mais drástica: chama os pais para conversar!!! O menor agressor foi acoitado no colo dos pais. Não foi punido! E as autoridades do sistema escolar ainda disseram que se trata de uma criança – esqueceram de dizer que é uma criança má!
Desabafo da professora chamuscada: essa é a lição que a autoridade escolar está ensinando.
Mais adiante outra situação gritante. Madrugada. Alguns estudantes, voltando de uma farra (drogados, embriagados???) param o carrão num ponto de ônibus – não têm álcool, como aqueles que incendiaram o índio. Motivo da parada: assaltar uma trabalhadora que espera a condução para fazer consulta médica. Depois do assalto é espancada. Ela não tinha dinheiro para o plano de saúde e precisava, desde a madrugada, enfrentar a fila mortal da saúde pública.
Os pais e advogados argumentaram em favor dos jovens: são estudantes! Não devem ficar presos, pois são estudantes. (Alguém precisa avisar esses bandidos, pais e advogados desses criminosos, que estudante, de madrugada ou está dormindo para ir cedo para a escola ou está estudando para concluir algum trabalho escolar). Ladrão e agressor, na madrugada, pode ser tudo, menos estudante. E se não forem punidos agora terão aprendido a lição primordial, não da escola, mas de seus pais, seus advogados e da própria legislação inócua: roubar e agredir são os bens desejáveis.
Conclusão para a sociedade: caso seu filho esteja agredindo alguém, verbal ou fisicamente, não o repreenda! Isso faz parte dos novos valores defendidos pelos oportunistas. Não tente impedi-lo, pois aparecerão os defensores dos direitos humanos empunhando o estatuto da criança e do adolescente, mostrando não o espírito da lei, mas a ótica do interesse particular que, contra toda ética e bom senso, se sobrepõe aos interesses coletivos.
Nos dois casos terão se esquecido, em nome do interesse particular, que aquela professora e aquela doméstica também são humanos detentores de direitos. A diferença é que são insignificantes. São o lado mais frágil da corda, o lado que arrebenta.
Com exemplos desse naipe, com pais dessa envergadura não podemos nos assombrar diante de situações em que Senadores da República se prostituem com o dinheiro público; em que o congresso pára a fim de defender seus pares, mandando às favas os interesses da população deste país de carnaval.
Com atitudes deste naipe, sendo ensinado diariamente, em rede nacional, não se assuste a população se o noticiário falar que um deputado encomendou a morte de outro deputado, num recanto do país. Não se assuste se um fazendeiro fizer acordo com algum grupo de sem-terra para invadir sua fazenda e, com isso, conseguir algum benefício.
Homem ou mulher, com a dignidade dos valores antigos, não se assombre se um relator de uma tal comissão de ética de um senado por aí mandar arquivar um caso com indícios de podridão, alegando falta de provas – provas que poderiam ser levantadas – para a condenação ou para a absolvição, caso houvesse investigação.
O rosário de porradas poderia ser ampliado, só com casos que ganharam realce na mídia nacional. Nem precisaríamos lembrar e mencionar os nossos atropelos cotidianos. Poderíamos apenas nos recordar de tantos casos em que a impunidade alimentou a ampliação das porradas: as operações da polícia federal, prendendo e no dia seguinte libertos por liminares e outros aparatos legais, aparecem dando entrevista dizendo que tudo foi só um mal entendido, perseguição dos opositores; uma criança é arrastada pelas ruas e os assassinos rindo da cara abobada da população estupefata.
Como disse, estamos numa época de crise de valores. A legislação é um emaranhado de direitos proibitivos para quem “é do bem”, mas favorável aos direitos de delinqüentes, bandidos e ladrões do “colarinho branco”. E já que a impunidade é o que resolve tudo quem sabe já esteja na hora de resgatarmos uma lei um pouco mais simples e antiga, como aquela de Hamurabi. Não estou defendendo o linchamento, puro e simples, mas quem sabe um festival de porrada não apressasse o processo do acrisolamento.
Neri de Paula Carneiro
Filósofo, teólogo, historiador

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